Correntes Invisíveis

1091 Palavras
Lavínia Calzeoni Mas nada aconteceu como planejei. Dario agia como se eu estivesse lhe implorando um favor, seus olhos carregados de desdém, como se minha dor fosse apenas mais um capricho. — Lavínia, está mesmo me dizendo que quer se divorciar de mim? Logo depois da morte do seu pai? Isso só pode ser uma piada. — Dario, como eu poderia brincar com isso? Eu simplesmente não quero mais ser sua esposa. Não se esqueça de que esse maldito casamento nunca foi real. Nunca consumamos, nunca houve nada entre nós. Então, o divórcio será rápido. Ele parecia prestes a explodir de ódio. Vi nos olhos escuros aquela fúria contida, tão densa que quase me sufocava. Dario me odiava tanto quanto eu o odiava. Era mútuo, visceral. Ele me roubou tudo: minha família, minha paz, e agora se recusa a me devolver a liberdade. Eu não compreendia. Sempre acreditei que era exatamente isso que ele desejava, mas, diante de mim, ele sorria com aquela crueldade silenciosa. — Lavínia, eu não irei te dar o divórcio. Esqueça isso. — Não me dará? Então prefere que eu morra entrelaçada a você, seu desgraçado? Quer que eu apodreça em vida, olhando todos os dias para esse rosto que me causa repulsa? — Se pensa assim, saiba que para mim também não é fácil ser casado com você. Nunca quis esse casamento, e você sabe disso. — O que você queria era a minha fortuna. Queria arrancar tudo de mim, e parabéns, conseguiu. Mas a minha liberdade, essa você nunca terá. Entendeu? Case-se com outra mulher, com alguém que aceite viver com um pedaço de lixo como você. O brilho sombrio em seus olhos se intensificou. — Nunca mais ouse dizer que roubei sua fortuna. Eu nunca fiz isso. Eu amava seu pai como se fosse o meu próprio. E, sobre me casar novamente… isso jamais irá acontecer. Porque nós não vamos nos divorciar. Senti o gelo percorrer minhas veias. — Então é isso que você quer, Dario? Pois saiba: eu farei você se arrepender de ter escolhido esse caminho. Ele inclinou-se sobre a mesa, como uma sombra que me engolia. — Faça o seu melhor, Lavínia. Porque eu já me arrependo há anos. Saí daquele escritório com as pernas bambas, como se o peso do mundo inteiro tivesse despencado sobre meus ombros. Dario não voltaria atrás. Ele nunca voltava. Como eu poderia me livrar desse homem? Odiava-o desde o primeiro instante em que vi seus olhos, desde o momento em que meu pai me trocou por ele, apenas porque eu era mulher. Tudo nele me causava repulsa. Não compreendia o que as outras mulheres viam naquele homem. Para mim, ele era apenas veneno disfarçado de poder. Mas eu também não tinha muito parâmetro: meu pai sempre me proibiu de olhar para qualquer outro, me privou de escolhas, me moldou para ser vendida como mercadoria. Foi por isso que nunca o perdoarei. Os sentimentos que escondi por anos agora sangravam em minha pele. Lágrimas escorriam sem pedir permissão, manchando meu rosto. Minha mãe, cega, agia como se eu devesse agradecer a Dario por cuidar de nós. Gratidão? Por quê? Por ser prisioneira em minha própria casa? Caminhei até meu quarto, e no caminho ouvi as empregadas cochichando. Sempre riam, sempre falavam de mim como se eu fosse um estorvo, um fantasma sem valor naquela mansão. — Você viu o senhor Dario sem camisa? — uma delas disse, rindo. — Ele é muito gostoso, tem um físico de matar. A outra respondeu com malícia: — Eu vi, sim. Ele é uma tentação. Não sei como ele suporta a senhora Lavínia . Uma menina egoísta, mimada, que não valoriza o homem que tem. — Sempre teve tudo de mão beijada. Vive reclamando do senhor Dario. Teve sorte de alguém como ele se casar com ela, mesmo com esse gênio horrível. As palavras me feriram como lâminas invisíveis. Ali, naquela mansão, eu não passava de um peso, um incômodo. Para eles, eu era a ingrata que não sabia apreciar o homem perfeito. Mas ninguém sabia o que eu tive de abrir mão por causa dele. Dei meia-volta, respirando fundo, e continuei andando. Fui para fora, buscando o ar que parecia me faltar. O sol queimava alto, mas ainda assim me sentia gelada por dentro. Prendi meus cabelos ruivos em um r**o de cavalo, o vento quente roçando minha pele. Observei os homens armados à distância. Guardas. Vigias. Jaulas humanas me cercando. Mesmo com meu pai morto, eu não era livre. Continuava presa, acorrentada a esse destino. Dario preferia me arrastar para o inferno consigo do que me deixar partir. Sempre foi assim. Ele gostava de me destruir ano após ano, como se fosse um jogo perverso. Nunca nos demos bem. Desde que entrou em minha vida, se achou superior a mim, como se fosse o escolhido. Ninguém nunca soube ao certo de onde veio, quem era sua família. Quando papai o trouxe para casa, lembro-me perfeitamente: — A partir de hoje, Dario irá morar conosco. Eu tinha doze anos. Ele, dezesseis. A primeira vez que o vi, fiquei paralisada. Aquele garoto tinha olhos tão negros que pareciam lagos de água parada, sem fundo, sem brilho, apenas silêncio e ameaça. Ele me observava com desprezo, como se já me odiasse. Eu era apenas uma criança, mas compreendi naquele instante: nossos destinos estavam amarrados, e a corda seria sempre feita de sangue e rancor. Hoje, tantos anos depois, aquela certeza se confirmou. Nada mudou. Ele continua me odiando, e eu o odeio com a mesma intensidade. O ódio nos mantém presos, mais do que qualquer contrato ou promessa. E, ainda assim, há algo nele que me envenena. Um poder que me prende, mesmo quando meu corpo grita por liberdade. Ele é como uma sombra que não consigo apagar, como se o próprio inferno tivesse escolhido me dar um guardião c***l. Caminho pela mansão, ciente de que todos os olhares me julgam. Sou a esposa indesejada, a menina egoísta, a mulher que não cumpre o papel de adorar seu dono. Mas não irei me curvar. Prefiro que o ódio me consuma do que me tornar mais uma marionete nas mãos de Dario. Ele pode pensar que venceu. Pode acreditar que a prisão que construiu para mim é eterna. Mas eu juro que encontrarei uma saída. Se for preciso, destruirei tudo o que ele ama, até restar apenas cinzas. Porque, no fim, se ele não me devolver minha liberdade, eu mesma irei arrancá-la de suas mãos nem que isso me custe a alma.
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