A Rosa E O Abismo

1069 Palavras
Lavínia Calzeoni O casamento aconteceu exatamente como meu pai queria. Sem surpresas, sem desvios, sem espaço para vontades que não fossem as dele. E eu, como sempre, não esbocei reação alguma. Apenas cumpri o que já havia sido decidido muito antes de me perguntarem se eu concordava. Minha mãe, fiel à vida inteira de submissão, limitou-se a obedecer. Eu sabia que pedir, implorar ou chorar não mudaria nada. — Filha — ela disse, segurando minhas mãos com delicadeza ensaiada —, seja uma boa mulher para Dario. Assenti com a cabeça, porque era isso que se esperava de mim. Por dentro, a pergunta ecoava c***l: como ser uma boa esposa para um homem que eu tinha vontade de degolar enquanto dormia? Forcei o sorriso mais falso que consegui e segui em frente. Usava um vestido branco, rendas delicadas, véu impecável. Para mim, poderia muito bem ser preto. Não havia pureza naquele dia. Só um acordo selado sobre a minha vida. Dario inclinou-se e me beijou para selar o pacto. Meu corpo inteiro reagiu em repulsa. Tive vontade de limpar a boca imediatamente, mas contive o impulso. Ele percebeu. Sempre percebia. — Se comporta, Lavínia. Está todo mundo olhando. Sorri outra vez. Fingir era minha especialidade. O que ele não sabia, e demoraria a descobrir, era que eu não era nada daquilo que ele imaginava. Nos dias que se seguiram, ficou claro que nosso casamento era apenas uma encenação social. m*l conversávamos. Eu vivia em uma mansão que faria qualquer mulher se sentir realizada, mas, para mim, aquele lugar tinha cheiro de morte. Cada corredor parecia um túmulo, cada quarto, um lembrete do quanto eu estava presa. Dario achava que eu era fraca. Uma boneca bonita, educada para obedecer. Ele se enganava. Desde cedo, aprendi a atirar. Fiz aulas de luta às escondidas do meu pai, treinando em silêncio, como quem prepara uma fuga que talvez nunca venha. Na família em que nasci, ser forte não era opção. Era sobrevivência. Eu jamais seria uma sombra, como minha mãe. Então, para o mundo, eu fingia. Sorria, cumpria protocolos, aceitava aparências. E Dario acreditava que eu era apenas mais uma filhinha de papai, domesticada e inofensiva. O tempo passou arrastado. Um ano. Dois. Eu sentia que estava à beira da loucura. Dario continuava o mesmo cafajeste arrogante, convencido de sua própria superioridade. Não falávamos. Eu era a esposa-troféu perfeita: bonita, elegante, silenciosa. Ia a festas, participava de eventos, sempre impecável. Mas era só isso. Um acessório caro. Eu o via conversando com outras mulheres. Sempre as mesmas, sempre descartáveis. Mulheres que, aos meus olhos, se venderiam por qualquer migalha de poder. Fingiam charme, ele fingia interesse. E eu fingia que não via. Assim, meu casamento se arrastou. Quando me dei conta, três anos daquele inferno haviam passado. Naquela manhã, levantei-me como sempre. Penteei meus longos cabelos vermelhos, vesti-me para montar e prendi os fios em um r**o de cavalo firme. O cheiro de couro e feno sempre me acalmava. Segui em direção ao estábulo, sentindo o olhar de Dario cravado em minhas costas, como um corvo à espera da carniça. Esse homem não tem o que fazer da própria vida, pensei. Mas, pela primeira vez, ele me chamou. Revirei os olhos, já impaciente. — O que foi, Dario? Acredito que não sou obrigada a conversar com você logo de manhã, não é mesmo? Ele não respondeu. Apenas me puxou com força, a mão apertando meu braço. — Sempre assim, Lavínia… agindo como uma adolescente birrenta. Tenho algo para te informar. Olhei para ele com desprezo, preparada para qualquer insulto. Mas não para aquilo. — Seu pai, Don Romero, acaba de ser morto. O mundo pareceu parar. Às vezes, guardar sentimentos demais faz o corpo entrar em choque. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Não me lembro de tudo. Apenas da vertigem, do chão sumindo, da última imagem: Dario me olhando… preocupado. Quando acordei, estava em um quarto diferente. Reconheci o cheiro, os móveis, a disposição. Era o quarto dele. Em três anos, nunca havia entrado ali. Dario estava de pé, os olhos negros fixos em mim. Tentei me levantar de supetão, mas ele me segurou. — Lavínia, você está bem? — Meu pai foi morto? — perguntei, a voz distante, como se não fosse minha. Ele confirmou com a cabeça. — Já estamos procurando quem fez isso com Don Romero. Não reagi. Não conseguia. Meu corpo estava ali, mas minha mente parecia em outro lugar. A impaciência dele veio rápida. — Até numa hora como essa você age como uma serpente fria! — Dario — falei, cortante —, por que eu demonstraria algo? Meu pai nunca se importou comigo. Ou você se esqueceu de que ele deixou tudo para você? Ele se afastou da cama, furioso. — Do que está falando? Ri, sem humor. — Não se faça de inocente. Eu sei do testamento. Ele deixou tudo para você. Toda a fortuna. E eu, a filha legítima, recebi apenas um casamento miserável com um homem que desprezo. Então vamos parar de fingir. Saí do quarto antes que ele respondesse. Tranquei-me no meu e chorei sozinha. Nunca choraria na frente dele. Demonstrar fraqueza era dar a ele exatamente o que queria. Durante três anos, Dario me pisou, me humilhou, alimentou-se do meu silêncio. Mas aquilo iria mudar. No velório, a casa estava lotada. Pessoas importantes, rostos conhecidos, lágrimas ensaiadas. Minha mãe chorava de verdade. Abracei-a com cuidado. Dario recebia os pêsames como se fosse realmente o filho de Don Romero. Vesti preto, um vestido longo, chapéu cobrindo parcialmente meu rosto. Luto verdadeiro, mesmo que confuso. Uma mulher se aproximou de Dario e beijou seu rosto. Bonita demais para ser irrelevante. Cabelos castanhos, olhos cor de mel. — Meus pêsames, querido. — Daiana, obrigado — ele respondeu. Observei em silêncio. Ela fingiu que eu não existia. — Lavínia, essa é Daiana, minha nova secretária. Não a cumprimentei. — Senhora, meus pêsames — disse ela, falsa. — Era melhor continuar fingindo — respondi, fria. — O que mais odeio são mulheres como você. Ela se afastou. Dario me lançou um olhar mortal. Ignorei. O enterro foi rápido. Joguei terra sobre o caixão do meu pai e, em silêncio, fiz uma promessa: aquela vida miserável iria acabar. Meu pai não estava mais ali para me obrigar a nada. E, se fosse preciso pisar na cabeça de Dario para conquistar minha liberdade… eu pisaria. Sem remorso.
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