Capítulo 6

2584 Palavras
O mundo ideal seria algo que cada uma aspira dentro de si. Buscando uma forma de se libertar do mundo real, que parece ser estafante, enfadonho, repleto de responsabilidades, por vezes escuro e com situações que causam desgosto na humanidade. Mas, era somente a vida de uma adolescente em conflito. Cheia de incertezas quanto ao seu futuro, com pais superprotetores, que se preocupavam com o que poderia lhe acontecer. Helena acreditava que isso tudo era um grande inconveniente. Ainda mais quando não podia fazer nada naquele um mês de castigo. Nem ao menos visitar seus amigos. Faltava pouco para a formatura e Helena desejava aproveitar aqueles últimos instantes. Era o que ela queria, antes de ser magoada por James. Ela se sentiu suja e usada. Não conseguia parar de pensar no momento em que tiveram juntos e o quanto fora algo errado. Ele tinha uma namorada, que ele parecia gostar, ao menos um pouco. E ela era apaixonada por ele desde seus quatorze anos. Mas, enquanto em continuasse com Alexia, Helena nunca teria qualquer chance. E seria algo errado. Ela sabia e falava consigo mesma, para curar seu coração partido e seguir adiante. Apesar disso, o queria mais do que tudo. Pensou até em agir de uma forma que nunca cogitaria. Flertar com ele, provoca-lo e trazer sua atenção para si. Mas, percebeu que não tinha a menor ideia de como fazer isso. Não tinha experiência com garotos. Seu primeiro beijo de verdade fora com James. Simon não contava, ainda mais porque o selinho fora dado forçadamente, pelas duas partes. Então, estava sem opções. Depois de ver Daniel e ele prometer que iria contata-la em breve, para enviar o contrato, ela passou os dias entre desenhar e ler. Além de ir para sua escola. Fingia não ver James e ele também fingia isso. Parecia constrangido e em todo momento em que a via, apenas ficava ruborizado e baixa sua cabeça. Lia havia percebido a interação entre os dois, naquela semana e encurralou Helena no horário do almoço, no pátio interno. Elas sentaram no banco e Lia não esperou para sua amiga terminar seu almoço e a atacou com a pergunta que estava rondando sua mente: - Agora, conta o que está havendo entre você e James? – Lia exigiu saber. Aquele dia ela vestia uma regata com furinhos, preta, por cima de uma camiseta babylook de cor rosa choque. Seus cabelos estavam em tom verde e os olhos maquiados com sombra verde e rosa. Usava coturnos nos pés e calça skinny preta. - Não há nada acontecendo – Helena desconversou, ruborizando. Ela não havia contado nada a Lia, pois tinha medo dos próprios sentimentos. Além de não desejar mais pensar sobre James. Apenas focou em seu lanche, aquela tarde. Estava tão cansada de carregar aquela dor dentro de si, que só queria se afogar em alto piedade. - Não me convenceu, Hele – ela disse – Algo está errado entre vocês dois. Estavam conversando normalmente até segunda-feira e de repente tudo mudou. - Nós só tivemos uma briga atoa – ela respondeu, tentando evitar o olhar de Lia. Era impossível mentir para ela. - Não é o que parece – Lia estalou a língua e apoiou as costas no banco – Na verdade, isso parece estar sendo mais que uma briga. É algo grande – ela tocou o coração com a mão direita – Eu sinto aqui que vocês dois fizeram algo que não deveriam. Helena olhou Lia, que a fitava séria. Ela ficou quente, pensando no que havia feito com James em seu quarto. E o quanto aquilo fora errado e imoral. - Você...você sabe? – Helena gaguejou. Lia gargalhou, deixando Helena aliviada e com raiva ao mesmo tempo. - Gostou da minha interpretação teatral? – Lia perguntou, passando a mão pelos cabelos de tom verde, com um sorriso irônico – Eu seria uma grande estrela na Broadway? - Talvez – Helena disse, entredentes. Acreditou que Lia sabia, mas se ela não fazia ideia, era melhor deixar daquela maneira. Se a traição de James chegasse aos ouvidos de Alexia, Helena não poderia imaginar o que aconteceria. Com certeza, teria repercussões negativas. Como toda a escola saber o quanto ela era uma v***a por mexer com o namorado da líder de torcida e vice-presidente do conselho estudantil. - Mas, falando sério –Lia parecia ter ignorado o tom hostil da amiga – Eu estou achando estranho vocês dois. Ele parecia tão triste, quando chegou em casa. E até mesmo brigou com Alexia. Não estão se falando a dias. - Não estão? – Helena perguntou, quase engasgando com o sanduiche – Mas, o que houve? - Eu achei que você saberia, afinal, ele saiu da sua casa carrancudo. Parecia uma fera – Lia disse, com a sobrancelha em tom verde, erguida. Helena engoliu seco. Não era como se fosse sua culpa, afinal, quem a beijou foi James. Mas, ela deveria tê-lo repelido. Deveria ter pensado direito. Não ter permitido aquilo, mesmo que fosse tão bom – O que é que tanto vocês fazem quando estão sozinhos? Helena tossiu dessa vez, por ter se engasgado com a pergunta de Lia. Não conseguia respirar direito. Não era como se eles fizessem algo errado. Na verdade, basicamente ele a via desenhar e dava ideias para quadrinhos. Algo que ela estava se tornando muito boa. Criar cenas curtas, para histórias de quadrinhos, no estilo terror. A ideia deles era criar um quadrinho sobre um detetive que desvendava assassinatos no mundo sobrenatural, mas Helena percebeu que parecia plagio do Constantine, da Vertigo, mesmo não sendo definido totalmente como um detetive do mundo sobrenatural. Então, eles optaram apenas que ele fosse um detetive, mas sem saber, caçando um vampiro que matava pessoas em Londres. Mas, não eram só crimes sobrenaturais, mas crimes praticados por humanos. - Nós só... – Helena tomou o folego, depois de Lia acudi-la, dando tapinhas no meio das suas omoplatas – Nós... – Helena tossiu de novo, com os olhos aguados – Nós só conversamos sobre roteiros para quadrinhos – E ela não acrescentou que ele contava seus maiores segredos tristes e sombrios sobre sua infância sofrida. Do abuso sofrido, da dor que sentia, mas da força que ele tinha para seguir em frente. Lia a fitou desconfiada, nada convencida, mas apenas assentiu. - James é muito calado, quando o assunto é sobre sua vida pessoal – Lia comentou, enquanto mordiscava sua salada, dentro do pote, com o auxílio de um garfo – Ele é sempre tão alto-astral astral, tão extrovertido. Até se dá bem com o time de futebol, mesmo sendo avesso a esportes. Ele é descolado, bonito, mas parece que as vezes se fecha, dentro de casa. Não consigo alcança-lo, Hele. É tão...- ela se calou, com a expressão constrita, mostrando um conflito de emoções. Uma delas a preocupação. E Helena sabia de todo esse lado sombrio do seu melhor amigo. Sabia da dor que ele sentia e o viu chorar tantas vezes. Mas, fez um pacto de guardar o seu segredo para o resto de suas vidas – Não sei o que fazer para ajuda-lo, Helena. E ele não falar mais com você, ou com Alexia me deixa com medo. Ele não se abre comigo. Ele não confia em mim. Ela mordeu os lábios em tom nude, claramente chateada. Helena queria gritar e dizer o que se passava com ele. Queria contar toda a verdade. Até mesmo tentou contar o que houve entre eles. - Lia, eu preciso te dizer... – ela parou abruptamente, quando viu Alexia sair para fora, com seus cabelos loiros, sobre os ombros pequenos, andando decidida até elas. Naquele dia, ela usava uma saia de pregas, da cor rosa, com um cropped branco, com mangas curtas e gola alta. Suas botas rosas de cano baixo a deixavam parecendo uma boneca, mas era apenas uma líder de torcida caracterizada. Ela parou na frente de Lia, ignorando Helena, com sua maquiagem leve e pele bronzeada. Estava com o olhar tenso, mordendo os lábios finos. - Lia, você sabe o que está acontecendo com seu irmão? – ela perguntou, cruzando os braços. Parecia abalada. Isso tocou o coração de Helena, mas ao mesmo tempo, ela pensou que o mundo perfeito de Alexia estava ruindo e ela tinha tudo. Não era justo isso. Ela tinha James e parecia querer mais. Muito mais. Era tão popular e perfeita. Era tão injusto que uma garota que era esnobe e só olhasse para Helena com indiferença e fingia ser sua amiga na frente de James, tivesse tudo ao seu favor. Então, não, Helena não sentiria pena da pobre Alexia. As outras amigas dela estavam paradas na porta de saída, todas no mesmo estilo barbie que Alexia. E cochichavam entre si, dando risinhos, olhando diretamente para Lia. Com certeza, era seu novo cabelo e com as sobrancelhas pintadas no mesmo tom. - Eu não sei – Lia disse, olhando para as próprias unhas, de tom rosa – Eu sugiro que se virem, porque James não me conta nada. - Mas, você deve saber! – Alexia disse, em tom de ordem – Deve me dizer o que esta acontecendo. Ele não fala comigo há três dias. Não retorna minhas mensagens. Absolutamente nada! Helena queria calar a boca da garota, mas não precisou fazer isso. - Quer calar sua boca, c****a? – Lia disse, se levantando, com um olhar intenso, para Alexia, que arregalou os olhos, andando para trás – Eu estou cansada dos seus gritos histéricos e seu modo de mandar. Eu não sou sua cachorrinha, para ficar te seguindo. Agora dê o fora! - Não pode me tratar assim! James vai saber disso. Ah ele vai saber! – Alexia resmungou, dando as costas para as duas e caminhando para suas amigas na porta. Lia tremia, mesmo com a postura ereta, com os braços cruzados sobre o peito. Helena levantou, tentando tocar o ombro dela, mas Lia esquivou. - Me desculpe...eu preciso...- ela respirou fundo e sorriu para Helena. Um sorriso amarelo – É que essa i****a me tira do sério, Helena. Não é sua culpa. Helena assentiu, sem se abalar. Apenas com um olhar sereno. E Lia sentiu o conforto de ter uma amiga compreensiva. As duas se abraçaram e voltaram aos poucos ao normal. Claro, com Lia soltando comentários mordazes sobre Alexia, a cada minuto. Elas retornaram para as aulas e as três da tarde, as duas partiram para fora da sala. James saiu antes, apressado, parecendo querer fugir das duas. Lia pediu que Helena o seguisse, para tentar arrancar algo dele, pois ela precisava ir ao banheiro. Helena fez exatamente isso, mas por outros motivos. Queria entender por que seu amigo estava tão arredio e nem respondia seus bilhetes durantes as aulas. Conseguiu alcança-lo no estacionamento. Ele estava segurando o capacete na mão e iria subir na moto vermelha. Não havia mais ninguém lá, apenas alguns carros, mas nenhum aluno. - Jimmy, espere – Helena pediu, tentando apressar o passo. James sentou na moto e parecia estar esperando por ela. Ela apressou o passo e conseguiu chegar ao lado dele, puxando o ar com força e arrumou a bolsa de alça de coro, sobre o ombro. Ele a fitava com a expressão fechada, segurando o capacete entre as mãos. - Por que está evitando a mim? – ela perguntou, magoada. Não queria saber sobre Alexia e porque ele havia terminado com ela. Ou brigado, ela não sabia. Ele respirou fundo, colocando o capacete no guidão e passou a mão pelo cabelo. - Helena, não torne tudo isso mais difícil para mim – ele disse, tenso – Eu já cometi um erro. Estou tentando consertar tudo agora...eu... - E eu, James? Não conta meus sentimentos? Não conta o quanto você me feriu? – ela exigiu saber, irritada, magoada. E com os olhos marejados. Segurava a barriga com as duas mãos, sentindo-se enjoada. Ele evitou olha-la, parecia querer se esconder. - Eu ajudei você. Eu escutei você. Sei tudo sobre você, James. Por que não eu? Por que Alexia? – Ela perguntou, em tom exasperado, colocando para fora todos os sentimentos que a abalavam. Ela o amava e por que ele não poderia retribuir seus sentimentos? Ele contraiu os ombros, olhando para baixo. - Helena, eu não sei como responder isso a você. Eu agradeço por tudo que fez por mim. E se quer a verdade, eu não sei o que sentir – ele disse, no mesmo tom que o dela, demonstrando toda sua dor, enquanto falava – Eu não sei o que sentir. Eu gostava de você, sempre gostei. Eu...apenas me permiti seguir em frente, porque eu nunca achei que passaria de sentimentos platônicos por você. Eu gosto de Alexia e não quero errar com ela. Helena ao ouvir isso sentiu a respiração falhar. Se aproximou dele, tentando toca-lo. Ele deixou que ela tocasse em seu peito, com a mão espalmada. Sua respiração era errática e seu coração batia rápido. - Por favor, me diga que o que tivemos não foi nada – ela pediu – Por favor, olhe para mim. Ele a fitou com os olhos avermelhados. Mordia os lábios e estava pálido. - Eu não sei – ele sussurrou a resposta – Eu não sei o que sentir. Ela fez algo impensável, naquele momento. Ela aproximou seu rosto, beijando os lábios frios dele. Sentindo ele enrijecer sobre seu toque. Ela tentou de novo beija-lo, tremula, tentando conter suas emoções. Ele puxou a nuca dela, se inclinando para ela, passando a língua por seus lábios, entreabrindo-os. Ela soltou um suspiro, beijando-o com sofreguidão. Mas, ele a empurrou, quase a desequilibrando. - Não posso – ele negou com a cabeça, colocando o capacete sobre a cabeça. Logo em seguida, ligou a moto. Helena apenas viu toda a cena, abraçando a si mesma. Sentindo o coração em pedaços. Ele partiu, sem dizer mais nada e ela ficou no estacionamento. Sentiu alguém tocar seu ombro e se sobressaltou. - Cade o James? – Lia perguntou, ao lado dela – Por que está chorando? - Nós...brigamos – ela respondeu, entre soluços. - Ó Lia – ela abraçou a amiga, tentando acalma-la. Depois a guiou para o seu carro. O carro que havia pegado emprestado do seu pai. Era um sedan preto. Tentou animar Helena, mas a jovem estava com os pensamentos em outro lugar. Ou melhor, em outra pessoa, que não saia da sua mente. James estava distante demais para ela e parecia que nunca seria dela. Não era algo que ela pudesse mudar, de fato. E queria muito ter raiva dele, mas a única coisa que sentia era dor pela separação. E desejo por mais dele. O carro de Lia parou em frente à sua casa e ela saiu, informando que depois as duas iriam conversar. Queria contar a ela o que houve, mas não naquele momento. Precisava processar todas as suas emoções. E quando entrou em casa, não esperava encontrar Elliot e mais alguém na sua sala, junto com sua mãe. Ela ria, de forma descontraída, quase jovial. E Daniel apenas contava piadas tolas, tomando uma xicara de chá, fumegante, mesmo com o calor que fazia do lado de fora. - Olá, Hele, estávamos esperando você chegar – Elliot disse, com um sorriso. Helena não queria conversar, ou falar com ninguém, muito menos com Daniel Ward. Mas, talvez ele fosse seu futuro e ela não poderia perder a oportunidade de ter algo diferente em sua vida. Principalmente, que a levasse para longe de São Francisco e de James.
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