Helena desenhou o rosto de James várias vezes em seu caderno de desenho, mas o esboço saia de uma forma estranha, disforme, distorcida. Parecia irritado, bravo com ela. Nada da expressão doce que ele tinha para com ela, nem da sua expressão inebriada, enquanto se deitava sobre ela, no dia anterior. Ela olhava para os vários ângulos do seu rosto e as expressões. Tudo aquilo estava péssimo. Talvez, fosse a raiva que sentia. Talvez, estivesse forçando demais com o grafite. Ela não sabia. Mas, o gosto amargo da decepção ainda estava em sua boca. Era como estar no inferno. Mas, era frio. Muito frio. Não era quente como se falava na bíblia, e era o lugar que sua avó sempre dizia que garotas más iriam, se ela fosse uma garota mau criada e impura. Helena agradecia por nunca mais precisar vê-la. Sua avó, por parte de mãe, parecia odiá-la e maldize-la. Era como se ela não gostasse de estar em sua presença. Nem da de Elliot.
Fechou o caderno, sentindo fome. Era um sábado à tarde, o qual ela não estava permitida a aproveitar do lado de fora. E ela não conseguia parar de pensar em James. Sabia que nunca mais seriam os mesmos, depois daquele beijo. Ele sempre optaria por estar com Alexia e não com ela. O que ele fizera seria encarado como um grande erro. Ela seria um grande erro para ele. O que doía em seu coração, profundamente. Ela sentia que os dois eram ideias um para o outro.
Helena saiu para a sacada do seu quarto e pode ver a grande árvore em frente a sua janela. Como ela queria escapar por ali. Apenas saindo para ir à praia e caminhar. Só desejava isso. O que ela não esperava era ver alguém em seu jardim. E que essa pessoa fosse Daniel Ward. Ele vestia as mesmas vestes negras que o vira da última vez. Blazer, calças sociais e botas com cadarço. Ele parecia pálido demais, na claridade que era o dia.
- O que faz aqui? – ela perguntou receosa. Não havia ninguém em casa. Seus pais haviam saído e ela estava sozinha, pela tarde toda. E ter um estranho no seu jardim não parecia algo que poderia terminar bem. Se ele fosse um maníaco assassino, é claro.
- Eu vim fazer uma visita – ele respondeu – Mas, ninguém atendeu a campainha.
Ela não havia escutado a campainha tocar. E com certeza, ele estava mentindo sobre isso.
- Se você tivesse tocado, eu saberia – ela disse, desconfiada.
- Bom, talvez, esteja muito distraída ou sua campainha esteja com defeito – ele argumentou – Podemos conversar?
- Eu não sei se quero – ela disse, com medo de ficar sozinha com ele. Ele parecia um rapaz comum, mas havia algo de errado com ele. Era sua energia estranha e escura que emanava dele. Não era como se ela pudesse ver, mas sentia em seu coração que algo estava errado com Daniel.
- Por favor, é algo do seu interesse, Helena. E tenho certeza que vai gostar de discutir – ele insistiu – Não gostaria de ter sua liberdade e seus quadros expostos, um dia?
Aquele argumento a pegou desprevenida. Ele parecia saber o que ela desejava tanto. Mas, não era como se ele pudesse ler sua mente ou ser coração. Nem saber sobre seus desejos mais profundos. Eles trocaram mensagens por tanto tempo que era óbvio que ele guardasse alguma informação sobre ela.
- Eu não tenho o dia todo, sabe? – ele disse, em tom irritado e seu sotaque ficou mais evidente.
Ela queria rir dele, por se mostrar tão irritado com ela e por ter aquela postura de garoto sombrio, com sotaque britânico. Talvez, ele não fosse tão r**m assim.
- Ok, eu vou descer – ela se deu por vencida.
Ela saiu da sacada e passou pela porta gato, olhando para seu gato em cima da cama. Ele dormia em uma bola de pelos macias. Acariciou sua pelagem e ele se remexeu, mas não saiu da posição confortável em que estava. Devia estar aproveitando a incidência do sol que chegava pela sacada. O sol da Califórnia era inebriante. E suas ondas eram incríveis. Helena apenas ansiava pelo momento em que poderia entrar no mar novamente, ou ver um surfista na praia, em Ocean Beach, San Diego. Ela teria que pegar o cadilac para isso, mas seu pai havia proibido ela de dirigir. As vezes era tão aborrecedor ser menor de idade. Só faltava um ano para completar dezoito anos. E mais três para beber e um bar. Não era como se ela desejasse isso, mas queria ser um jovem normal, como todos os jovens, que saia para se divertir e tinha uma vida. Sua vida era zero diversão e acontecimentos.
Ela desceu as escadas, para chegar ao térreo e abriu a porta. Não era como se fosse deixar Daniel entrar, mas lá estava ele, parado na varanda e lhe ofereceu um sorriso educado. Seus olhos eram escuros demais. Quase não conseguia ver sua pupila. E ela poderia dizer agora, naquele dia claro, que ele devia ser apenas dez ou quinze centímetros mais alto que ele. Mas, não era menos charmoso, com sua pele branca e cabelos de cor azeviche, que estavam penteados de lado, em ondas comportadas.
- Posso entrar? – ele perguntou, arqueando a sobrancelha escura.
- Não – ela negou.
- Por que não? – ele insistiu em saber. Não demonstrava contrariedade, somente a fitava com seus olhos intensos. Intensos demais para um garoto que parecia ter a idade dela. Ele parecia muito seguro de si.
- Porque eu não te conheço. E não estou permitida a deixar estranhos entrando em minha casa. E também há o fato de você ser estranho.
Ali estava sua resposta longa demais. Ela sempre falava pelos cotovelos. E sempre falava tudo sem pensar duas vezes, magoando as pessoas. Não era por m*l, ela apenas acabava se expressando e se esquecia de ter empatia. Era algo estava trabalhando a muito custo.
- Eu não sou um estranho, mas eu sou estranho – ele sorriu para ela, de forma provocativa – E eu não gostaria de falar com você aqui no jardim. E acredito que gostaria que de tomar chá e enquanto discutimos sobre suas obras.
- Você tem atitudes invasivas e não é nada educado – ela apontou, um pouco irritada com o lado soberbo dele – Não vou fazer um chá para você, se nem ao menos me pede por favor. E além do mais, acredito que você não tenha idade para discutir qualquer assunto sobre negócios.
Ele apenas deu seu arquear de sobrancelhas, encrespando os lábios.
- Tenho vinte e dois anos. E sou mais do que capaz de falar sobre suas obras. Meu pai adoraria conhecer mais sobre suas obras e gostaria que eu cuidasse dessa parte, quanto a fechar o negócio com você. Então, não vejo por que eu não poderia discutir sobre o assunto.
Ela mordeu a ponta do dedão, sem entender por que ele insistia nisso. Mas, se ele queria tanto suas obras, que com certeza não valiam nada, ela não iria negar. Apesar disso, não iria estender o tapete vermelho para ele.
- Muito bem, você pode entrar. Mas, não pense que vou fazer chá.
Ele sorriu, satisfeito e entrou.
*
No final, ela acabou fazendo o chá e nem sabia o motivo. Apenas conversou com ele sobre o que tinha em mente para sua carreira com pintora. Ele fazia perguntas sobre sua vida e ambições. Além de pedir para ver seu portfólio. Ela tinha apenas dois quadros pintados, em cavalete e o restante eram artes digitais, feitas pelo computador ou no caderno de desenho. E ele sorria com tanta gentileza, que ela se viu na obrigação de fazer seu chá. Em saquinho, o que o desagradou muito.
- Não tem ervas? Algo em in natura?
- É tão exigente? – ela retrucou, colocando o saquinho de chá preto dentro da xícara azul com alça grande. Pegou a chaleira do fogão e despejou o líquido fervente dentro da xícara.
Ele a fitou com os olhos cerrados.
- Apenas não gosto de chá em saquinho – ele respondeu – Mas, esse deve servir, por enquanto. Acredito que deveria providenciar ervas, algo mais natural.
- Lá na Inglaterra vocês não bebem chá em saquinho? – ela zombou.
- Nós bebemos. Normalmente chá preto, com leite. E limão. Acredito que só tenha faltado isso – ele sorriu para ela, segurando a xícara com as duas mãos longas e elegantes, sobre a bancada da cozinha.
Ela segurou o ímpeto de estrangula-lo. Procurou o leite, mas não havia, nem limão.
- Vai ter que ser assim mesmo – ela disse.
- Na próxima vez, tenho certeza que vai pensar nisso. Tenho certeza.
Aquele garoto, ou rapaz, estava passando dos limites da sua paciência. E era tão prepotente, com a certeza de que ela faria tudo que ele estava pedindo.
- Não sou sua emprega – ela disse, azeda, cruzando os braços e vendo ele colocar quatro torrões de açúcar no chá e mexendo com a colher. Ela observou que ficaria quase um melado, não chá.
- Eu sei que não – ele disse, ainda sorrindo – Mas, acredito que como boa anfitriã deveria ter isso em sua casa. Ninguém nunca lhe ensinou a receber as pessoas em casa?
Ela tentou se recordar daquilo. Sua mãe era uma boa anfitriã. Sempre recebeu visitas e fazia jantares maravilhosos. Não era elegantes, como se ela fosse da alta sociedade, mas ela se preocupava com o que poderiam falar dela. Mas, não era algo que ela tivesse conseguido passar para Helena. Ela estava alheia a tudo isso, então sua mãe parecia ter desistido de ensinar qualquer coisa. Afinal, até seu pai parecia dizer que eram apenas formalidades que Helena não precisaria aprender, afinal, era um artista. E não estavam mais no período em que as mulheres deveriam servir aos homens e cuidar de suas casas. Ele tinha um pensamento além do seu tempo, mas sua mãe não. Fora criada para ser uma boa esposa por sua mãe. E seria sempre assim.
- Eu não me importo com isso – ela disse, dando de ombros.
- Deveria se importar. As pessoas precisam se sentir bem na sua casa – ele comentou, bebendo o chá – Até que não está tão r**m. Mas, voltando ao assunto, se você fosse até minha casa, eu iria cuidar para que você tivesse o que quisesse. E se não tivesse a mão, iria tentar agrada-la de todas as maneiras possíveis.
Ela arqueou a sobrancelha.
- Isso tem a ver com seu modo estranho de hospitalidade? – ela perguntou, zombando dele.
- Não. Hospitalidade tem mais relação com ser educado e deixar as pessoas confortáveis na sua casa. Mas, para você, eu ofereço outras coisas.
O coração dela de repente, começou a bater mais forte e suas bochechas coraram. Ela não sabia em que sentido ele estava falando. Mas, parecia estar flertando.
- Está dando em cima de mim? – ela perguntou, um pouco ultrajada. E se sentindo quente por dentro.
- Eu pareço estar? – ele perguntou, por trás da xícara – Isso não está bom – ele olhou para o líquido dentro da xícara, com o nariz enrugado – Poderia me dar um copo de água?
Ela percebeu que ele evitou o assunto. Mas, não deu tanta atenção a isso. Apenas pegou um copo de vidro dentro do armário e serviu água do filtro. Entregou para ele, que bebeu quase de uma vez só.
- Não quero ofende-la, mas o chá estava intragável – ele disse, fazendo uma careta.
- Já ofendeu – ela disse, dando de ombros e pegou a xicara, despejando o líquido escuro, parecendo café. Depois, colocou dentro da máquina de lavar, com a colher.
Pode ver que ele estava a observando atentamente. Parecia estar analisando-a. Seus olhos eram parecidos com os do homem do seu sonho, ou pesadelo, que a empurrava do penhasco. E a via morrer, sem o menor remorso. Mas, haviam diferenças. Daniel parecia ser mais novo que o homem. E mais gentil. Ou quase. Era petulante e arrogante.
- O que está olhando? – ela perguntou, irritada.
- Você tem olhos verdes bonitos – ele comentou, sem estar abalado com a grosseria dela. Ela corou ao ouvir sua resposta – E lembro que trocamos mensagens muitas vezes. O que mudou, Helena?
- Não sei – ela respondeu sincera – Só não gosto de você.
- É mesmo? – ele sorriu, zombeteiro – Não gosta da minha aparência? Ou não gostou de se sentir atraída por mim?
- Está dando em cima de mim de novo. Qual é seu problema? – ela reclamou. Mas, sua respiração denunciava que suas palavras mexerem com ela. E estava errática.
- Pelo modo como desvia o olhar. Como suas bochechas ficaram vermelhas, quando disse que faria tudo que quisesse. E agora, dizendo que está atraída por mim. E está – ele estava satisfeito.
- Não estou. Eu nem te conheço – ela retrucou, tentando manter a calma ao respirar. Aquele garoto a tirava do sério.
- Conhece. Passamos muito tempo conversando online – ele insistiu – Eu gostei de você. Da forma que conversamos. Da sua sinceridade. Onde está Helena por trás da fachada agressiva e desdenhosa? Eu gostaria de vê-la de novo.
- Só foi uma conversa tola – ela desconversou – E você não veio aqui para falar sobre meu trabalho?
- Eu já cumpri essa parte. Só preciso saber se você aceita ou não. E você não me disse sim. Além disso, preciso fazer o seu contrato.
- Entendi – ela disse – Então não temos mais o que conversar.
- Pelo contrário, acredito que temos muito a conversar, Helena – ele insistiu – Você nunca pensou em como eu era, por trás do anonimato? Bom, eu já sabia como você era. Seu irmão me mostrou uma foto sua. Confesso que pensei que você era mais alta. Mas, sua altura é ideal.
Ela corou, desviando o olhar, como ele havia dito que ela tinha feito. Se sentiu uma i****a. E sim, ela passara tardes pensando em como ele seria.
- Olha, não há mais nada para ser tratado. Se não se importa, eu quero que você vá embora.
Ele assentiu.
- É claro, vou voltar com o contrato. Logo sua arte será exibida na galeria. Vamos abrir em San Diego – ele disse, sem estar irritado com ela ou triste por ela rechaça-lo tanto – Me acompanha até a porta, Helena?
Ela assentiu, se sentindo m*l por ser tão m*l educada com ele. Fazia isso sempre. Era brusca e fugia do contato humano, sempre que poderia fazer isso. Eles saíram da cozinha, que ficava no térreo da casa. Não havia uma porta, apenas um arco separando a entrada daquele cômodo. Em segundos, estava abrindo a porta para ele. E Daniel ficou na varanda, parecendo querer falar algo.
- Olha, me desculpe por hoje – ela disse, sem saber o motivo para se sentir culpada – Eu só não te conheço direito.
Ele apenas sorriu e puxou a mão dela, dando um beijo em seu dorso e soltando. Ela ficou confusa com o gesto.
- Não há problema. Apenas estamos nos conhecendo, Helena. E estou ansiosa para vê-la novamente. Até breve.
- Até – ela disse, com a voz fraca. Ele poderia ser irritante, mas também sabia surpreenda-la.
*
O telefone de Daniel tocou, assim que ele colocou os pés na calçada. Ele suspirou, cansado. Manter a fachada de bom moço não era algo que gostava, apesar de ter gostado da companhia de Helena. Ter conversado com ela antes de conhece-la, por mensagem, os aproximou. Algo que não deveria ter acontecido. No final, ele ficaria muito m*l se a perdesse. Mas, família era família. Sempre em primeiro lugar. Sempre sugando sua alma. Ele riu, com desgosto. E verificou a chamada. No identificador mostrava: Diablo maldito. Uma piada interna para seu irmão Vincent.
- Alô? – ele disse, sem a menor vontade de conversar com ele.
- Conseguiu falar com ela? – Vincent perguntou.
- Como você sabe que já terminou a conversa? – ele zombou.
- Porque seu celular tem um GPS – ele respondeu, no mesmo tom – Falou ou não?
- Sim, ela vai entrar para nossos negócios – ele disse.
- Perfeito. Ela ainda é virgem? – Vincent perguntou.
- Essa pergunta me faz pensar que sou um pervertido – Daniel zombou, irritado com a frieza do irmão – E que tenho imã para saber sobre isso. Como é que vou saber?
- Precisa saber. Ela precisa ser virgem. Ou não poderemos continuar o ritual – ele explicou, demonstrando irritação – Descubra se ela tem um namorado, qualquer coisa. Seduza-a se for preciso. Mas, ela precisa vir até nós.
- Por que simplesmente não a raptamos? – ele perguntou. E isso revoltou seu estomago. Estava cansado daquilo.
- Porque, seu grande i*****l, a energia dela tem que ser nossa por vontade própria. Por isso, seria muito melhor se ela se apaixonasse por você – ele explicou, com frieza – E não tente me provocar, Daniel. Sabe que você é o lado mais fraco. Papai não se importa se você gosta ou não disso que fazemos. É tudo para manter nossa vida. Nossa força. E essa garota é filha de Merida. Ela achou que poderia esconder seu bem mais precioso, mas acabou perdendo para nós. Ótima hora para você ir para Paris e conhecer seu amigo...como é o nome dele, Ethan?
- É Elliot, i****a. Agora, me deixe em paz um segundo, sem cobranças.
Ele desligou o telefone, com raiva. Desejando espatifa-lo no chão. Como ele faria para aquela garota se apaixonar? Ele não tinha estomago para isso. Estava cansado de carregar o fardo e ver tanto sofrimento. E algo que o estava perturbando era sonhar com ela, antes de conhece-la. Era como se eles se comunicassem. Ele tentava alcança-la nos sonhos, mas Vincent a tirava dele, com seu olhar sádico. Ele não entendia aquilo. Ela tinha o rosto da jovem que conhecera, anos atrás, mas então, se transformava em Helena. Ele não suportava isso. Não sabia se conseguiria ir adiante. Mas, família era família. O sangue era tudo. E talvez, sua alma já estivesse condenada para sempre.