O intervalo parecia nunca chegar, mas quando o primeiro ato se encerrou, Henrietta tentou sair do camarote, mas teve a mão segurada por Robert.
- Pode ir, eu já vou até o saguão – Robert disse a Janet e Jasper.
Ela o fitou, sem entender. Estava desconfiada do que viria a seguir. Lady e lorde Bedford saíram do camarote e Henrietta o fulminou com o olhar, soltando sua mão do aperto dele.
- O que pensa que esta fazendo? Preciso voltar e falar com o senhor Miller – ela disse, entredentes.
De fato, deveria voltar, ou geraria um escândalo. Como saiu a noite com um cavalheiro e seus amigos e depois, apareceu em outro camarote, de outro cavalheiro? A reputação dela seria manchada. E também, sua dama de companhia estava no outro camarote e devia estar preocupada.
- Eu não acredito que seja uma boa ideia a senhorita estar ao lado daquele cavalheiro, senhorita Henrietta. Ele não é de boa família. Não sabemos as origens dele e ele pode ser uma ameaça a sua integridade – cada palavra que ele dizia, deixava-a mais irritada.
Ela se levantou impetuosa.
- Pois, pouco me importa sua opinião, milorde!
Henrietta saiu do camarote, sem que ele tivesse tempo ou reação para fazer qualquer movimento para pará-la. Ela caminhou rapidamente até o saguão, onde estava sendo servindo bebidas e se encontrou com Miller, que parecia taciturno. Quando ele a viu, deu-lhe um sorriso treinado. Mary Ann a fitava com um olhar exasperado.
Não havia nenhum sinal da viscondessa e do visconde de Snowden. Eles não haviam comparecido ao primeiro ato e ela não os viu no mar de pessoas que ali estavam, aguardando o segundo ato da peça.
- Senhorita, eu acreditei que iria voltar logo, mas o primeiro ato terminou e a senhorita não voltou ao camarote – John disse em uma voz preocupada, mas seus olhos não demonstravam isso. Estavam frios.
Ela sentiu um arrepio estranho, como se ele pudesse representar perigo a ela. Mas, tudo que ele fez foi ser um cavalheiro. Apenas sentiu algo estranho ao estar presa com ele no camarote, mesmo com Mary Ann ao seu lado. Ele pousou sua mão na dela e a bajulou, dizendo o quanto ela estava bonita aquela noite. Ela se sentiu sufocar pelo toque dele. Comparou seu toque ao de Robert e percebeu que não se sentia confortável ao lado de Miller. Robert despertava nela algo entre raiva e paixão inflamada. John a deixava com medo.
- Eu sinto muito, senhor – ela disse, temerosa de magoa-lo – Mas, encontrei uma conhecida no corredor e ela insistiu em ver com ela a peça.
- Ah, sim? – ele disse, com ironia – Eu acredito que essa pessoa seja muito importante, para me deixar sozinho. E quem seria?
Seu tom a deixou desconsertada e ela sentiu seu corpo tremulo. Por que estava com tanto medo de um homem? Ora essa. Ela era Henrietta. Deveria se impor, mas sentiu suas costas enrijecidas sobre o olhar atento do cavalheiro. Sua dama de companhia, Mary Ann, parecia tão desconfortável quanto ela.
- Seu nome é Janet Collins. E viscondessa de Bedford – ela respondeu, tentando se impor diante do tom hostil de John – E peço sua licença, mas irei me juntar a eles. Vamos, Mary Ann?
Ela se virou, sem esperar uma resposta, mas John a interceptou, segurando-a pelo braço. Ela virou a cabeça por cima do ombro, com um olhar impaciente. E deparou-se com um olhar intenso sobre ela.
- Não deve ir agora. Acredito que eu a tenha convidado para ver a ópera. Em outro momento pode se reunir aos seus amigos. Tenho certeza que lady Bedford irá entender – ele disse, com a voz calma. Mas, seu olhar dizia que estava contrariado – E realmente quero que fique, senhorita. Quero ter tempo para que possamos nos familiarizar.
- Ora, mas podemos fazer isso em outro momento – ela disse, soltando-se do aperto dele.
- Eu não iria embora, se fosse à senhorita – John disse, em tom baixo e ameaçador – Seu pai não gostaria disso. Ele me pediu expressamente para corteja-la.
Então, tudo isso era movido pelo interesse do pai dela? Ora, mas ela não iria ser um peão. Não iria se casar ou ser cortejada por quem ela não queria. Ela se virou, com um olhar duro. Ele a fitou com um arquear de sobrancelhas. Era muito bonito e elegante, mas soberbo.
- Senhor, eu insisto que pare com seu cortejo. Sinto que somos incompatíveis – ela disse, em tom baixo, para que não fosse ouvida. Mas, estavam sendo observados por algumas pessoas que notaram a atmosfera tensa entre eles.
Um garçom passou com taças de champanhe e John pegou duas, oferecendo uma a ela. Ele sorriu, sem parecer afetado por suas palavras. Ela aceitou a taça, mas não bebeu o conteúdo.
- Eu não sou de desistir fácil de algo que quero senhorita. E sei o que desejo. Com o tempo, podemos nos entender perfeitamente.
Ela se forçou a não revirar os olhos. Iria revidar, mas sentiu a presença de alguém atrás dela. E o olhar de John parecia ter se modificado para fúria.
- Espero que volte ao nosso camarim, senhorita Henrietta. Janet está esperando pela senhorita – Era Klyne. Mas, aquele homem não percebia a cena que estavam sendo protagonistas?
Contudo, ela se virou, agradecida para ele, mesmo com medo que os outros falassem deles. Não suportava ficar mais um minuto ao lado de Miller.
- Estou indo para lá agora mesmo. Apenas estou me despedindo do senhor Miller – ela disse, com uma falsa amabilidade – Senhor Miller, agradeço pela noite. Mary Ann, vamos?
A dama de companhia se pôs a andar e Henrietta apoiou a mão no braço estendido de Robert. Eles caminharam em silêncio, até o camarote dos Bedford, que ainda estava vazio. Mary Ann se sentou nos bancos de trás. Robert a guiou para sentar-se nos bancos da frente. Os dois ficaram lado a lado, enquanto ela bebericava no seu champanhe.
- Quero agradece-lo pelo que fez por mim hoje – ela disse.
- Não fiz nada demais. Apenas percebi que Miller não é um cavalheiro. Tente não se aproximar demais dele – Robert disse, em tom neutro.
- Ah, é claro – ela disse, em um tom irônico – Milorde zela por minha segurança demais, não acredita?
Mary Ann tossiu ao ouvir aquele comentário irônico.
- Eu me preocupo com a senhorita, pois nos conhecemos previamente – Robert disse, sem alterar seu tom neutro – E é amiga de Anne. Muito importante para ela. Então, é importante para mim.
- É claro que sim – Henrietta zombou.
Ele a fitou com um olhar intenso e aproximou os lábios do ouvido dela, causando arrepios em todo seu corpo.
- Em breve iremos conversar o quanto é especial para mim, senhorita – ele disse, em tom baixo e aveludado.
Henrietta estava quente demais, de repente. Talvez, fosse o champanhe. Ela respirou profundamente, tentando reordenar seus pensamentos e as batidas do seu coração. Logo, não precisou ficar sozinha com Robert. Lorde e lady Bedford haviam voltado ao camarim. O segundo e último ato se iniciou. Henrietta tentou prestar a atenção na ópera, mas era difícil com a presença de Robert pairando ao seu lado. E dessa vez, ele deixou ela sentada do lado que de um assento vazio. Então, ela sentiu sua mão buscar a dela na escuridão. Ela permitiu seu toque sobre seus dedos enluvados. Ele acariciava a palma de sua mão, deixando-a com o ar presos nos pulmões.
Aquela noite realmente fora a mais longa e penosa para Henrietta. Não era por Robert ser desagradável. Mas, por ela ter uma forte atração por ele.