Capítulo 17

2298 Palavras
Por mais que amasse a ópera de Rossini e a história do conto de fadas Cinderela, Henrietta não pensava na história de Angelina e seu sofrimento ao lado de uma família exploradora. Ela simplesmente estava envolvida demais pelo toque da mão de Robert na sua. Estava mesmo apreciando seu carinho? Seria possível estar tão envolvida por um homem tão odioso? John Miller não fora nem um pouco atrevido em seus gracejos como Robert. Mas, ela confiava mais no libertino no que em um homem de negócios que se mostrou mais cavalheiro que o visconde. Era estranho para ela ter aqueles pensamentos, mas, ao estar aquela noite sozinha com John no camarote de lorde Snowden, ela não sentia a mais remota confiança nele. Nem em sua mentira de que lorde e lady Snowden não puderam comparecer. Deviam ser muito amigos de John para permitir que ele usasse seu camarote. Mas, ela não conhecia o cavalheiro em questão. Nem sabia do que ele era capaz. Além dos seus olhos serem tão parecidos com os de um homem que vira uma vez na vida. Mas, seria impossível, pois o rapaz que vira era nada mais, nada menos que o mensageiro de Jenkins. Era Johnny e fora ele quem entregou o bilhete de Jenkins, pedindo que Henry o encontrasse em East End. De fato, Jenkins apenas queria extorquir dinheiro da família Collins. E se aquele rapaz que entregara fosse algum parente de John Miller? Poderia ser possível. Eles tinham os mesmos olhos azuis e o formato do rosto. A única diferença estava na idade. John era maduro e a lembrança que Henrietta tinha de Johnny era de um rapaz na faixa dos vinte anos. Contudo, seu medo não estava relacionado a um garoto de recados. Na verdade, era na forma como John conversava com ela, como se fosse seu dono. Como se de alguma forma, seu pai tivesse feito um acordo de casamento com ele. O que parecia ser, devido as últimas palavras que ele disse aquela noite, no saguão do teatro. Que o pai de Henrietta pediu para John a cortejar. E ela não estava disposta, de maneira alguma, a se casar com ele. Ou com qualquer cavalheiro. Se tivesse que escolher, com certeza seria o conde Chester. Ele parecia mais confiável de todos os homens na Grã-Bretanha. Enquanto ela sentia o toque de Robert em sua mão, ela observou os outros camarotes com seu binóculo. Pode ver lady Katherine em um camarote e ao seu lado estava seu enteado, cinco anos mais novo, o atual lorde Ashbourne. E a esposa dele, lady Ashbourne. Em outro camarote, pode ver até mesmo o conde de Chester. Mesmo que estivesse escuro, ainda era possível enxergar o interior dos camarotes, mesmo que muito pouco. - Esta apreciando a ópera, senhorita? – Robert perguntou, bem próximo ao ouvido dela. Henrietta se sobressaltou e apertou a mão dele, com mais forte que deveria. E ele fez algo indecente, beijou a base da sua orelha. Ela sentiu todo o seu lado esquerdo do corpo se arrepiar devido ao toque gelado dos lábios dele contra sua pele quente. - Henrietta, tem um aroma tão doce – ele sussurrou, a deixando ainda mais quente por dentro – Quero-a tanto. Por favor, me diga que posso leva-la embora? Deixe-me prova-la. Ela não sabia o que responder. Ele era tão impetuoso. Indecoroso. Além do mais, Janet e Jasper poderiam estar ouvindo. Mas, observou que Janet havia pulado uma cadeira com seu marido e estava mais afastada deles. Por Deus, estavam dando espaço para os dois? Seria uma artimanha de Janet para junta-la a Robert? Não, de jeito nenhum. Ela não poderia se deixar prender. Nem ao menos acreditar que um dia Robert iria desposa-la. Havia também o fato de que ele era um libertino. Com toda certeza, ela sofreria ao seu sua esposa. Então, com esse pensamento ela disse em tom baixo: - Afaste-se agora, ou vai ter consequências – ela tentou empregar um tom de ameaça. Ela mesmo se inclinou para o lado, para longe dele. Escutou o muxoxo baixo dele. Contudo, sua mão ainda estava envolvida na dele. O que era confortante e uma tortura ao mesmo tempo. - Não vejo desgostar das minhas atenções, senhorita. Diga-me, o que a deixa tão insegura em relação a mim? Jamais iria ferir sua dignidade e honra. Ele parecia falar a sério, mas ela sabia muito bem que as intenções dele não eram honrosas. Um cavalheiro jamais diria ou faria o que ele fez. Normalmente, eles eram frios e tão sérios em suas intenções que Henrietta chegava a ficar estafada pela conversa monótona. Então, compreendeu que com Robert, ela se divertiu. Lembrou-se de todas as vezes que dançaram juntos. Que tiveram conversas espirituosas. Até mesmo ele teve espirito esportivo ao ver que Henrietta estava pisando em seus pés de propósito nas danças e apenas sorria, sem ao menos vexa-la em público. Suas discussões eram privadas. E se alfinetavam de forma discreta. Nunca em nenhum momento ele passou dos limites na frente de outras pessoas. E naquelas semanas ele estava sendo implacável em sua perseguição, mas nunca a comprometeu na frente de ninguém. Começou a sentir um remorso ainda maior por ter publicado aquele livro. Se ele soubesse, iria voltar com fúria contra ela. E ao mesmo tempo, ela não queria perder sua atenção. Tudo estava tão confuso em sua mente. O homem que acreditava que ele era, não estava ali. Não aquele libertino que fazia m*l as damas virginais. Ele nunca a forçou a nada. - Robert, isso tem parar – ela disse, próximo ao seu ouvido. - O que devemos parar? – ele perguntou, em tom baixo, puxando a mão dela que segurava e beijou seu dorso enluvado. Ela sentiu-se mole de repente, como se estivesse prestes a desfalecer – Diga-me, querida? O que eu preciso parar? Por que parar algo que estava indo tão bem? Por que não aproveitamos um a companhia do outro? - Porque isso seria indecoroso. E todos pensaram que está me cortejando – ela esclareceu, ainda perto do seu ouvido. Não queria que lorde ou lady Bedford escutasse, muito menos Mary Ann. - Mas, podemos nos ver diante de muitas pessoas, como conhecidos. Se disserem que estou a cortejando, não precisamos negar ou nem confirmar nada. E posso busca-la, sem que ninguém veja, para que possamos ter alguns momentos privados. Prometo cuidar zelosamente da sua reputação. E não estou pedindo nada além de beijos inocentes. Aquele pedido era indecente. Contudo, Henrietta estava expectante. Se no início do seu debute, ela pensava que seria muito errado um cavalheiro propor isso a uma dama, com os pensamentos que ela havia adquirido de que as mulheres tinham direitos iguais, tudo parecia muito excitante. Mas, havia o medo de ser enganada. De ser descartada. Ela ainda tinha seu orgulho. - É melhor não – ela tentou ser firme ao dizer. - Está sendo covarde, querida – ele provocou. Ela se sentiu ultrajada e desafiada ao ouvir aquilo. - Não sou uma covarde – ela disse, entredentes – Sou muito corajosa. - Então, eu a desafio a aceitar minha proposta. Na verdade, eu a desafio a uma coisa ainda mais perigosa. Ela engoliu a seco. - E o que seria esse desafio? - Eu a desafio a dançar comigo a meia noite. Não...é muito fácil. Poderíamos fazer isso em um baile. Na verdade, eu a desafio a dançar comigo ao amanhecer. Ao amanhecer? Ele havia perdido o juízo. Ela não poderia sair antes do amanhecer de casa, sem ser vista. Na verdade, ela saíra depois que o sol nascera, para protestar perto de Westminster, reivindicando os direitos das mulheres. Não seria tão difícil assim. - E onde seria essa dança, milorde? – ela perguntou, em tom zombeteiro. - Poderíamos dançar em Hyde Park – ele sugeriu e ela ficou mortificada. Haviam aqueles que acordavam muito cedo para cavalgar. Eles seriam vistos, com toda certeza – Ou podemos dançar a beira do rio Tamisa. - Ora, mas isso é loucura. Como acha que ficarei quando alguém nos vir? Seria arruinada – ela disse. - Eu correrei esse risco. Se formos flagrados, eu me casarei com a senhorita. * Henrietta ainda podia sentir o toque da mão de Robert na sua. O toque dos seus lábios na base da sua orelha. Sua proximidade. Tudo isso, enfim, não deixava pregar os olhos. Precisou ouvir muitas coisas de Mary Ann, quando chegou em casa. Para sua sorte, seu pai já estava dormindo. Mas, ele não lhe diria nada, afinal, ele havia concordado que ela fosse a ópera com John Miller. Mas, ele não sabia que no final, havia passado a noite com visconde de Klyne. O que seria um salto enorme na classe social da família Harrison. Apesar de estarem relacionados a lorde Melton, não era o suficiente. Eles ainda não era tão respeitados assim. Contudo, ela não se importava com isso. Era seu pai que parecia um pouco ressentido. Depois de ouvir a bronca de Mary Ann, quanto ao decoro e ao fato de que John Miller não era o homem correto para uma dama como ela, afinal, ele parecia ser grosseiro, Henrietta pode ser deixada em seu quarto sozinha. E pensou no que sua dama de companhia dissera. Miller não era o companheiro ideal. Mary Ann havia frisado isso. Ela lhe disse: - Ele não me passa uma sensação de confiança, senhorita. Além do mais, ele é um homem de negócios. A senhorita deveria ascender socialmente. Contudo, ela não parou por aí em seu sermão. Ela lhe disse que nem lorde Klyne era ideal para ela. - Ele é um libertino, senhorita. Um homem indecoroso. Ele a fitou com lascívia em todas as vezes que estiveram juntos. Eu conheço os desejos dos homens, senhorita. Posso não ter tido um marido, mas sei muito bem diferenciar um homem honesto de um homem depravado. E ele o é, em todos os sentidos. Ora, mas Mary Ann nunca fora casada. Como ela sabia de tantas coisas? Era o que Henrietta perguntou a ela, várias vezes. Mary Ann era mais velha que Henrietta. Ela viveu em outras casas senhoriais e observou de perto o comportamento dos dândis de Londres. Sabia muito bem como todos eram. Já tivera que, infelizmente, ser a dama de companhia de uma senhorita. A senhorita Harris. E o seu irmão, Colin, era um libertino que já trouxera suas amantes para mansão Derby. E infelizmente, Mary Ann já o tinha visto com uma dessas mulheres em sua biblioteca, quando abriu a porta. Fora uma cena chocante para uma jovem que nunca havia se deitado com um homem. Ela não deu os detalhes a Henrietta. Mas, disse que uma mulher que queria se dar o respeito, não deveria fazer nada com um homem em uma biblioteca. Teria que ter relações com seu marido, em uma cama, em um quarto fechado aos olhos do mundo. Henrietta ria daquelas histórias. Lady Katherine lhe contava tudo acerca do envolvimento entre um homem e uma mulher. Ela passou a ter outros olhos para aquilo e perceber que não era tão vergonhoso, nem pecaminoso, como Mary Ann a fazia acreditar. Na verdade, ela ansiava para ter aquele tipo de relação, mas não tinha a menor coragem. E ainda era romântica. Desejava um homem que a amasse e que ela o amasse. Somente iria se entregar a ele. Contudo, aquele sonho estava longe de se realizar. Ela havia conhecido a maioria dos cavalheiros elegíveis de Londres. Nenhum deles despertara nada a não ser tédio. Contudo, o único que poderia despertar algo era Robert. Seria despertar, é claro, o seu pior e sua paixão. E ele não seria o cavalheiro ideal para ela, com certeza que não. Quando ela havia conseguido dormir, já precisava acordar. Já eram cinco e meia da manhã. O sol ainda não havia nascido e ela havia prometido a Robert que o encontraria. Ela se levantou, sem fazer barulho e correu para o armário. Estava ansiosa para dançar com ele ao amanhecer. Era divertido para ela quebrar algumas etiquetas sociais. Para passar despercebida, ela escolheu o vestido matinal de cor verde clara e um manto com touca, de cor cinza. Ela se vestiu apressadamente, apenas amarrando os cabelos em um coque deselegante. Seus cachos estavam revoltos, mas isso pouco importava. Ela colocou a touca do manto sobre sua cabeça e saiu do quarto, sem fazer barulho. Desceu as escadas pé ante pé, sentindo o chão de madeira ranger sobre seus pés. Infelizmente, não havia como não fazer barulho. Mas, ninguém estava acordado àquela hora. Além do mais, a casa dela tinha poucos empregados. Não era uma mansão. Era apenas uma casa de dois andares com seis quartos. Ela conseguiu chegar a porta dos fundos, a entrada dos empregados e contornou o quintal, passando pela roseira. Foi então que viu a carruagem parada em frente à sua casa. Era uma carruagem comum. Ela hesitou em seguir até lá. Acreditou que Robert viria com a sua carruagem, a da família. E talvez, não fosse ele. Além do mais, ainda estava bastante escuro e não havia sinal de claridade do céu. As estrelas ainda pontilhavam o firmamento. E somente era possível enxergar tudo devido as postes de lâmpadas a gás, do lado de fora. Ela chegou mais perto, apenas para ver quem era a pessoa que ocupava a carruagem. O cocheiro estava sentado, parecendo dormir, pois estava com a cabeça recostada na parede do veículo de forma tranquila, segurando as rédeas. Ela observou por entre o portão que as janelas da carruagem estavam cerradas. Não poderia ver nada. Mas, então a porta foi aberta, revelando Robert, que estava sentado, segurando a maçaneta da porta. - Já desistiu? – ele perguntou. E foi ali que ela soube que ele seria sua ruina.
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