Capítulo 18

2214 Palavras
Henrietta dormia tranquilamente. Por um momento, ela pensou que nunca poderia sair daquela situação de dançar com Robert nas trilhas de Hyde Park, sem ser vista. Mas, não era tão perigoso quanto ela havia imaginado. Ele pediu ao cocheiro que parasse em uma parte afastada do parque e os dois adentraram a trilha. E ali, ele dançou com uma valsa, enquanto o sol amanhecia. O dia era cinzento, então não foi tão glorioso como ela poderia ter imaginado. Afinal, dançar ao amanhecer deveria ser um evento mágico. Contudo, a vida real e as circunstancias não permitiam isso. Então, ela teve as barras da saia enlameadas devido ao fato que havia chovido aquela madrugada. Suas botas estavam cheias de terra também. Mas, apesar de todo aquele desastre, ela havia se divertido com ele. Até mesmo permitiu que ele a beijasse na volta, dentro da carruagem. Além de ele tentar passar dos limites do decoro. O beijo nunca seria inocente com Robert. Mas, quem disse que ela se importava? Ele estava sendo uma distração bem vinda no meio da sua vida monótona. Ela não tinha mais ideais tão românticas para o casamento. Se ao menos pudesse aproveitar sua liberdade, antes de se casar, ou melhor, não se casar. Seu intento era permanecer solteirona e morar em um chalé respeitável em um canto remoto da Inglaterra. Poderia desenhar, pintar e viver com uma dama de companhia. Poderia até mesmo ser Mary Ann. Batidas apressadas na porta do seu quarto vieram cedo demais. Henrietta estava em sonho muito vivido com Robert, onde ele fazia muito mais que beijar. E eles estavam em sua cama, com o dossel das cortinas fechadas. Ele dizia o quanto ela era bela e o quanto ele queria cada parte do seu corpo. O quarto parecia incendiar somente com aquelas palavras e com seus toques, mas a porta fora aberta abruptamente. - Senhorita, acorde – ela escutou a voz de Mary Ann a despertando e a afastando de Robert. - Ó Deus – ela murmurou, sentindo areia sobre os olhos. Ela acreditava que ainda era muito cedo para ser acordada. É claro que as cortinas do dossel da cama estarem fechadas corroborava para que ela tivesse a sensação de que ainda era madrugada. - Senhorita, são dez e meia da manhã. Precisa fazer seu desjejum – Mary Ann disse, abrindo as cortinas. O sol incidiu da sacada do quarto de Henrietta fazendo-a colocar o travesseiro em seu rosto, para tapar sua visão – Senhorita, precisa urgentemente se aprontar. - Para que? – ela perguntou, com a voz abafada pelo travesseiro. - Seu pai gostaria de conversar com a senhorita. Ele parece bravo – ela respondeu, com a voz temerosa – Me ameaçou demitir. Se não fosse pelo senhor Miller, estaria na rua. - O que? – ela exclamou, jogando o travesseiro longe. Ela se sentou, bruscamente, sentindo-se tonta pelo movimento. Ajeitou os cabelos atrás da orelha e viu o semblante da dama de companhia. Ela parecia ter chorado, pois seus olhos e nariz estavam vermelhos. E pequenas ranhuras estavam sobre suas bochechas. Como se tivesse chorado muito. - Ó Mary, meu conte tudo – ela deu batidinhas na cama. Mary Ann olhou por cima da ombro, para a porta aberta e a fechou, trancando-a por dentro e sentando-se ao lado de Henrietta. - Senhorita, John Miller é um homem muito estranho. Primeiramente, ele contou ao seu pai o que houve na noite anterior. Disse que não tinha tempo a perder com uma jovem tão impetuosa, que escolhia andar em péssima companhia. Henrietta sentiu o sangue ferver nas veias ao ouvir aquilo. - Escutei isso, pois eles falavam muito alto do escritório. E depois, seu pai me convocou, perguntando como eu havia permitido que a senhorita estivesse na companhia de lorde Klyne. Ele nem ao menos sabia da reputação tão devassa do homem. O senhor Miller havia dito coisas tão horríveis sobre o visconde, senhorita. Disse que ele era um devasso, que deflorava jovens em jardins privados de mansões respeitáveis. E que participava de orgias – ela tapou a boca, ficando com as faces avermelhadas – Ó, senhorita, eu sinto muito por dizer algo tão impróprio. Henrietta deu de ombros. Afinal, ela já ouvira coisas semelhantes sobre ele, mas não estava de fato se importando mais. Começava a duvidar sobre aqueles fatos. Não seria mentiras e o boato de pessoas que não tinham o que fazer? - Continue, Mary – ela pediu. - Ó, sim. Eu fui ameaçada a ser despedida. Fiquei com tanto medo, mas então, o senhor Miller interveio, dizendo que lorde Klyne fora incisivo em levar a senhorita com ele e que eu nada tinha culpa do sucedido. Que deveria ser poupada. Seu pai o ouvira, como se ele falasse a verdade. Eu temo senhorita, que ele queira casa-la com esse senhor. E por mais que seja grata ao senhor Miller, reafirmo mais uma vez que ele não é o cavalheiro ideal para a senhorita. Se ele realmente se importasse com seu bem, jamais diria ao seu pai o ocorrido de ontem à noite. Afinal, nada m*l lhe acontecerá e lorde Klyne fora um cavalheiro. Apesar dos olhares que lhe dirigiu. Henrietta sentiu o estomago embrulhar assim que ouviu sobre o seu possível casamento. Aquilo não poderia ser. Ela não iria se casar com um completo estranho. E com um fofoqueiro. Ele não era nada justo em competir pela mão dela. - E o que devo fazer, Mary? Devo descer? – ela pediu orientação. - Sim, sim. Seu pai a está esperando com o senhor Miller – Mary Ann respondeu, com um olhar apreensivo. Seus olhos verde água demonstravam o medo que parecia sentir. E isso deixou Henrietta ainda mais insegura. Seu pai nunca fora um homem intempestivo. Sempre fora paciente com ela. O que estava errado agora? – E prometo senhorita, estarei ao seu lado. Ele vai leva-la para passear em Hyde Park. Estarei com a senhorita. Isso a fez se perguntar se deveria se preocupar com John. - Ele parece ser tão perigoso assim para querer estar ao meu lado, Mary Ann? – Henrietta perguntou, com o estomago revolto. - Não posso afirmar, senhorita. Mas, ele tem uma aura estranha. E quando sinto que alguém não é bom, tudo é confirmado em seguida. Talvez, até seu visconde seja mais brando que John Miller. Ela ignorou o fato de que Mary Ann disse que Robert era dela. Afinal, ele não era. Não era seu pretendente, noivo ou marido. * Após fazer a toalete e colocar um vestido de musselina azul clara, com mangas curtas, com um chapéu de palha, com fita rosa, luvas brancas de renda para combinar em um sapato de pano bege, além de uma sombrinha para protege-la do sol que fazia do lado de fora, ela desceu. E desceu com o coração aos pulos. Estava delicada e meiga propositalmente, para demonstrar que não havia feito nada de errado na noite anterior e que estava de acordo com os planos do seu pai. Qualquer que sejam aqueles planos, ela pensou consigo mesma. Mas, esperaria para estar a sós com ele para findar o acordo que ele tivesse feito com Miller. Sabia muito bem que homens de negócios poderiam ser implacáveis. Com certeza, seu pai prometeu ela em casamento e John apenas estava reclamando o que ele acreditava ser dele. Mas, Henrietta não seria dele de forma alguma. Ela era dela mesma. E depois que conseguisse voltar as graças do seu pai, iria deixar bem claro aquilo para John. Ela entrou na sala de jantar, que tinha dose lugares. Ali estava seu pai, na ponta da mesa e ao lado dele, John Miller. Ele estava elegantemente vestido com roupas pretas. Ele parecia não gostar de roupas em tons coloridos, como os cavalheiros londrinos. Contudo, ele era charmoso, com o rosto livre da barba, os olhos azuis penetrantes e os cabelos negros, como azeviche. Ela parecia cada vez mais a semelhança dele com o mensageiro de Jenkins. E sentiu certo medo. Se eles fossem irmãos, seria possível que Jenkins estivesse relacionado a John Miller? Era de se pensar. - Bom dia, meus senhores – ela disse, com amabilidade. John assentiu, com um sorriso que não chegou aos seus olhos. Já o pai de Henrietta estava com o olhar voltado para o jornal Hamilton. E ao seu lado, o jornal Times repousava, dobrado. Henrietta escolheu o outro lado da mesa, em frente a John. Queria ficar ao lado do seu pai e não ter que enfrentar aquele homem estranho, que parecia estudar cada movimento seu. Parecia dizer com os olhos que ela era sua propriedade. - Papai. Como o senhor está? Dormiu bem? – ela perguntou, ainda sem se servir. O café da manhã já estava posto no aparador. Havia arenque defumado, bolinhos com açúcar polvilhado, ovos mexidos, bacon, suco de laranja, um bule de chá inglês, manteiga e pão. - Eu deveria estar bem melhor – ele disse, sem olha-la – E estou preocupado com sua reputação, Henrietta. Ele usava um tom sério, sem ao menos olha-la nos olhos. Ela fulminou John, que se recostou na cadeira, dessa vez, sorrindo de forma aberta. Ela pensou consigo mesma que ele era um desgraçado manipulador. Se Robert era um aproveitador dos momentos, como ele havia dito a ela, John era o que cria as ocasiões e orquestrava ao seu bel prazer. Como em tão pouco tempo, ele conseguiu transformar a cabeça de seu pai? Ele sempre fora gentil com ela. - Pai, não há nada a se preocupar. Pelo outro lado, podemos nos preocupar com algumas coisas e pessoas que nos associamos – ela fitou John deliberadamente. Ele lhe brindou com um sorriso ferino. Seus olhos brilhavam. Parecia gostar da provocação dela. E isso deixou Henrietta revoltada. Tanto que sua perna se mexeu de forma involuntária. Foi então, que ela chutou ele por baixo da mesa. Ele soltou um grunhido de dor. O chute fora direto no joelho. E por ele ter pernas compridas, ela havia conseguido alcançar o objetivo, mesmo sem desejar fazer isso. Ela mordeu um sorriso, vitoriosa. - O senhor está bem, senhor Miller? - ela perguntou de forma bajuladora. - Perfeitamente bem - ele respondeu, entredentes. Seu olhar era mortal. - Pai, o senhor não vai mais falar comigo? Fiz algo de errado? - ela perguntou, voltando sua atenção a ele. - Considerando que a senhorita me deixou sozinho na ópera para ficar na companhia de um libertino, é claro que fez algo grave - John respondeu por seu pai. Ela o fitou com raiva. Como ele se atrevia a falar assim com ela? - Pai? - ela o chamou, ignorando a alfinetada de John. - Sim? - ele baixou o jornal a fitando com complacência. - Pai, o senhor disse sobre estar preocupado comigo. Mas, não há nada de errado comigo. Eu estou muito bem e minha reputação está intacta. O pai dela negou com a cabeça com um ar solene. - Não está, querida. Veja, eu sei que é inocente quanto aos homens. Por isso, não vou brigar com você sobre isso. Apenas espero que se afaste de lorde Klyne. Ele tem uma reputação terrível e isso poderia mancha-la. Henrietta bufou. - Eu apenas me associo com ele devido a Anne Collins. Minha melhor amiga. - Então, trate de se afastar, se ele estiver por perto - O pai de Henrietta disse, em um tom que não admitia ser contrariado e voltou a atenção ao jornal - E tome cuidado. Seu nome foi associado ao de lorde Klyne na ópera, no jornal Hamilton. Para sua sorte, eles colocaram os nomes do lorde e da lady Badford. Já é r**m o suficiente seu nome estar atrelado ao daquele homem. Henrietta se perguntou como a senhora Hamilton era tão rápida em conseguir notícias. Mas, ela tinha amigos na nobreza que lhe forneciam todas as informações que ela precisava saber sobre a sociedade. E lady Katherine era uma delas. - Tudo bem, papai - ela se resignou. Mas, de fato, não faria nada do que ele estava pedindo. - Ótimo. Tome o café, pois o senhor Miller irá levá-la a um passeio - ele disse. Henrietta fitou John com raiva. Ele apenas deu de ombros, como um sorriso vitorioso, por sua vez. - Eu tenho compromissos hoje - ela disse. - Pois, adie - o pai dela disse de forma brusca, sem tirar o olhar do jornal - O senhor Miller é um homem ocupado e está aqui em um momento que deveria estar cuidando do seu clube. - Não há necessidade disso - Henrietta protestou. - Está tudo bem senhor Harrison. Virei outro dia. Deveria ter combinado com a senhorita Henrietta - ele disse, em tom de desculpas. Mas, seus olhos demonstravam impaciência. - Ora, não se desculpe, John. Henrietta vai - dessa vez, o pai de Henrietta olhou para os dois, sério. - Não vou. Tenho um compromisso - ela insistiu, exasperada. - Você vai. Ou pode esquecer suas amigas sufragistas, Henrietta. E toda sua liberdade de ir e vir. Seu pai não poderia estar falando sério. Ele parecia um déspota. Ela piscou algumas vezes, para não chorar e desviou o olhar. - Tudo bem, eu irei. - Excelente - o pai de Henrietta disse, voltando ao jornal.
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