Robert apenas tomou algumas doses de whisky com quem estava no White’s aquela hora da noite. Já passava das onze quando ele resolveu se levantar da sua poltrona e se despediu de lorde Marcs. Foi então, que ouviu a voz aguda de lorde Beaumont. Aquele homem era estranho e corpulento, com uma voz fina. Ele conversava com o senhor Langford. Os dois pareciam zombar de alguém. Robert não teria parado se não tivesse ouvido o nome de John Miller. E Robert sabia muito bem que era aquele homem e não deixaria que ele desposasse Henrietta, nem em seus sonhos.
- O senhor Miller estava cortejando a senhorita Daisy Farrington, outra noite – comentou lorde Beaumont, em tom de deboche ao colega – E hoje estava tentando a sorte com a filha do editor Harrison. Aquela jovem é intratável e geniosa. Mas, suas curvas são uma visão.
- Miller não vai conseguir entrar para nobreza, por mais que tenha apoio da sociedade. Ele nunca iria se casar com uma dama de boa estirpe. E se casar, com certeza uma mulher correta ela não é – Langford fora mordaz em seu comentário.
Robert se aproximou dos cavalheiros, sem dar boa noite. Beaumont estava esparramado sobre sua poltrona. Sua barriga protuberante aparecia por baixo da camisa branca de o colete verde floresta que usava. As roupas o deixavam com a aparência de ser mais corpulento do que era.
- Lorde Klyne, boa noite – ele o cumprimentou, efusivamente.
Afinal, Robert era respeitado entre os cavalheiros e conhecido por seus feitos. Mesmo que fossem grandes mentiras sobre sua pessoa.
- Lorde Klyne – Langford acenou com a cabeça.
Robert os fitou com desdém. Nem ao menos os cumprimentou e se apoiou em sua bengala, com um olhar frio. Beaumont se encolheu diante do olhar e Langford não sabia o motivo para hostilidade do visconde.
- Não se atreva a pensar na senhorita Harrison novamente, Beaumont – Robert ameaçou, mas sua voz estava calma.
- Ora, mas não estávamos falando nada demais da dama em questão – Beaumont disse com um olhar inocente e riu com o companheiro ao lado – Apenas estávamos falando o quanto ela é formosa.
O olhar de Robert era puro gelo. E Beaumont sentiu que havia errado no seu comentário.
- É bom saber que a senhorita Harrison está fora do seu alcance. É protegida da minha família. Tanto a de Klyne e a de Bedford. Se eu souber que está a sondando, farei com que se arrependa.
Ele estava se virando, quando escutou Langford perguntar, com zombaria:
- Ela é sua amante, Klyne?
Robert se virou, com um sorriso gélido. Os dois cavalheiros sentados nas poltronas de couro se encolheram, como covardes. Os cavalheiros que estavam àquela noite observaram a cena, esperando uma boa luta, que não veio, afinal, ali era um local para pessoas civilizadas.
- Espero que estejam avisados. Ela é amiga do meu primo e da esposa dele. Então, é parte da família. E família é muito importante para mim. Faço qualquer coisa por eles, inclusive matar.
Ele saiu do clube, pisando duro e batendo com força a bengala. Os dois homens interpelados por lorde Klyne não sabiam o que dizer. Aquele homem sempre fora taciturno, apesar de atraente e com uma conversa fácil, quando ele assim desejava. Logo começou as apostas entre os cavalheiros. E fora colocada no livro de apostas o tempo que demoraria para Klyne se casar com a senhorita Harrison, pela forma apaixonada que ele a defendera.
*
Robert acordou cedo no dia seguinte, disposto a deixar de pensar em Henrietta, afinal, ele jamais se casaria, a não ser para ter um herdeiro. E nada melhor do que se casar com uma mulher que não sentisse absolutamente nada e ela também. Com Henrietta existia um arroubo de paixão que não desejava sentir, pelo fato de não desejar ser controlado por esse sentimento. Ele estava disposto a dar seu coração a Anne, e tinha medo que desse sua alma a Henrietta, como nunca pensou que daria a uma mulher novamente. Então, ele não seria pisado novamente, como foi pela única noiva que teve, a senhorita Georgina Ricci. Nunca mais parecia por isso, nem iria perder noites em claros ou ter vontade de morrer por uma mulher. Não valia o risco. Por isso, as tratava com cinismo, para que nenhuma se apaixonasse por ele. Além do mais, não acreditava muito nas mulheres. Pensava que todas fossem interesseiras. Atualmente, ele havia mudado um pouco, ao ver a sinceridade em Anne e como ela tratava seu marido. E percebeu nela uma amiga. Talvez, fossem poucos que valessem o esforço, contudo, ele não estava disposto a sofrer mais uma vez.
Seu valete veio em seguida ajudá-lo a se vestir. Logo, ele fez o desjejum em seu quarto, afinal, não havia ninguém naquela mansão para compartilhar com ele qualquer refeição e ele não se afeiçoava aos empregados, por mais que eles tivessem cuidado dele quando criança. Talvez, o mordomo e a cozinheira. Os dois tinham apresso por seu mestre e nunca o deixavam, apesar dos boates que corriam sobre sua pessoa. Muitos acreditavam que Robert fosse um sádico que batia nas suas amantes e que as trazia para sua mansão. Contudo, eram mentiras, calunias inventada pela sociedade, pelo fato de que seu pai era um homem inconsequente que matinha muitas amantes e espalhava a todos que seria assim a vida toda. Não negava o quanto era libertino. E a mentira contada sobre eles aumentava e sua fama caia. Eles eram m*l vistos, apenas pelos maus passos do seu falecido pai.
Robert olhou uma última vez para escadaria da sua casa. Tudo era tão luxuoso e vazio. Ele tinha vontade de vender todas as propriedades e viver em um pequeno apartamento, mas todos que dependiam dele estariam desempregados. E ele mantinha tudo pelo fato de que poderiam manter. Além do mais, havia parentes demais e eles viriam visitá-lo e sempre o faziam. Alguns, como a irmã de sua mãe, acreditavam que ele era um banco que poderia fornece-lhe dinheiro quando bem aprouvesse. Contudo, Robert era duro com todos e eles o chamavam de sem coração. Se ele não fosse duro, iriam depenar o patrimônio todo e todos ficariam pobres. Como ele poderia dar tudo a todos, sem pensar nas consequências dos seus atos? Infelizmente, ele sabia como o dinheiro poderia cegar as pessoas, inclusive fazê-las tomar decisões corruptas e matar por isso. Robert esperava que ele nunca fosse afetado por isso. Por enquanto, apenas tinha dores de cabeça para ver os livros razões das propriedades relacionadas ao título e com seus negócios de tecidos, no interior da Inglaterra e Escócia. Ele não era t**o e já investia seu dinheiro em fabricas de tecido. Sabia que iria precisar se acostumar com a modernidade. Eram outros tempos e por mais que ainda pudesse viver dos arrendamentos de terra, precisava mudar e investir em negócios lucrativos, além de trabalhar. Não era nem um pouco ocioso, como seus pares, que viviam apenas do dinheiro que as terras lhes forneciam.
Saiu de casa, com a garoa fina e rumou para Westminster. Ficou surpreso por ver um grupo de sufragistas na esquina, com cartazes, pedindo direito de voto e direito a ir a universidade. Robert fingiu não ver nada disso e as ignorou. Quase teve uma apoplexia ao ver Henrietta entre elas, com uma touca marrom cobrindo seus cabelos, vestida com simplicidade. Apenas uma camisa branca, por dentro de uma saia rodada, marrom. E por cima da camisa, um paletó cinza. Ela havia perdido todo seu charme e elegância. Parecia uma senhorita comum. Aquilo que ela estava apoiando, a causa sufragista, era muito perigosa para sua reputação. Então, ele se preocupou por ela. E entrou saiu da carruagem e foi até ela, decidido.
- Senhorita Henrietta – ele a cumprimentou – A senhorita tem alguns minutos?
- O senhor veio nos escutar? – uma dama de cabelos escuros, usando óculos de tartaruga o fitou, com os olhos sérios – Queremos direito a voto. Além de é claro, de ingressar na universidade.
Ele mordeu a bochecha, tentando se conter. O que aquela maluca estava pedindo?
- Estou aqui pela senhorita Harrison. É muito importante meu assunto com ela – ele esclareceu, se apoiando na bengala, elegantemente.
Sabia que se atrasaria para a sessão na Câmara dos Lordes, mas precisava dispersar aquela pequena multidão. Muitas já as fitavam com estranheza. E ele pensou que algum guarda poderia prendê-las por perturbação a ordem. Sabia dos movimentos na França, mas ali era a Inglaterra. Totalmente conservadora. E não desejava tirar Henrietta da cadeia. Mas, a tiraria se fosse preciso.
- O senhor precisa mesmo conversar? – a dama perguntou, em tom de deboche.
Foi então, que ele perdeu a paciência e a puxou pela mão, sem escutar os gritos indignados das damas e de Henrietta. Abriu a carruagem que ainda estava lá, com o cocheiro, o senhor Anton e colocou Henrietta dentro, fechando a porta.
- Leve ela para a residência dos Harrison, Anton – ele pediu.
- Sim senhor – o cocheiro assentiu, puxando as guias, para guiar os cavalos e entregar no trafego.
O local estava cheio de carruagem e ele esperava que Henrietta não fosse tola de desembarcar com o veículo em movimento. Ele seguiu para a câmara dos lordes, sem ao menos escutar o quanto estava sendo alvejados pelas damas sufragistas, que olharam a situação com raiva. Como lorde Klyne se atrevia a ser daquela maneira tão bruta? Ele era marido dela por acaso?
- Vamos tentar tirar Henry de lá – Lucinda disse, vendo que a carruagem andava devagar. Ela poderia saltar, talvez.
- Tenho certeza que Henry vai dar um jeito – lady Katherine garantiu – Agora que já chamamos a atenção, vamos guardar nos cartazes, antes que sejamos presas, meninas.
Elas ouviram lady Katherine e enrolaram os cartazes. Aquela manhã, era Jane, Emma, Lucinda, Amy, Henrietta e lady Katherine que vieram com os cartazes, para chocar a sociedade. E elas seriam noticia na primeira página, do jornal Times e do jornal Hamilton. A senhora Hamilton já tinha a manchete pronta para o dia seguinte.
“Grupo de sufragistas parou o transito das sete às oito da manhã, em Westmister, exigindo direitos das mulheres”
E realmente, elas causaram alvoroço entre aqueles que passavam. Muitos a julgaram. Por estarem de chapéu com aba grande, seus rostos não eram discerníveis. Infelizmente, Henrietta não teve o mesmo cuidado com seu rosto. E ela estava dentro da carruagem em movimento após ser colocada dentro do veículo, sem qualquer consideração da parte de lorde Klyne. Ela queria o estapear. E faria isso em breve. Como a carruagem andava devagar, ela abriu a porta e saltou no chão de pedra. Havia um transito pesado àquela hora da manhã e teve que tomar cuidado ao atravessar a rua para chegar à calçada. Quase que patas de cavalo a acertaram, além de rodas de carruagens. Os condutores gritavam com ela por ser estúpida e ficar no meio da rua, mas ela não os ouviu.
Conseguiu chegar perto das suas amigas, que estavam indo em direção a um café. E ficou ao lado delas, enganchando no braço de Lucinda.
- Ora, ora, nossa heroína voltou – Jane brincou.
- Eu nunca iria obedecer Klyne – Henrietta debochou do homem, propositalmente- Quem ele pensa que é?
- Um homem apaixonado – lady Katherine apontou e as damas vaiaram – Ora, mas é o que parece ser. Ele a fitou com tanto cuidado. E já vi esse olhar no meu falecido marido. Sei do que estou falando.
- Mas, ele não é um homem bom, Kate – Jane esclareceu – Ele é um libertino.
- E dos piores. É como o pai, um deflorador de damas virgens – Emma disse, com um risinho.
- Ora, mas que palavras são essas, senhorita? – Lucinda provocou.
- Palavras de uma mulher livre – Emma disse, em voz alta.
Outras damas que passavam fitaram Emma com um olhar julgador. Emma fez cara feia para elas.
- Quero voltar a Paris. Ao menos lá não somos tão julgadas – ela comentou.
- Eu gostaria de conhecer Paris – Amy comentou, sonhadora – Ver a Notre Dame, o Arco do Triunfo...
- A Ópera Populaire – Jane complementou – Que tal fazermos uma viagem para lá, quando a temporada acabar? Afinal, somos obrigadas a ficar por aqui, por causa dos nossos pais.
- Eu teria o prazer de acompanhá-las – Katherine disse – E posso financiar a viagem.
- Esplendido – as damas disseram em uníssono.
Henrietta estava feliz por tê-las como amigas. Elas se entendiam, se compreendiam e sonhavam juntas. Infelizmente, apenas sonhavam. Elas seriam forçadas a se casar um dia e terem filhos. Aquelas que não precisavam se casar teriam um grande privilégio, mas seriam duramente julgadas por seus pares, como solteironas. Mas, elas poderiam erguer a cabeça, com firmeza, sem ter medo de esmorecer. Tinham umas as outras e fizeram um pacto que se casassem, não deixariam seus maridos as controlarem e continuariam amigas.
O grupo de mulheres sufragistas chegou ao café mais próximo e pediram um tabuleiro inteiro de torta de morango, com chá preto para acompanhar. Ali se comportaram comedidamente, para não chamar a atenção, afinal eram damas da sociedade e teriam problemas com seus familiares se fossem vistas se comportando tão indecorosamente. O que era muito injusto para elas, que apenas desejavam ser livres. Era o que Henrietta pensava, consigo mesma, enquanto tomava seu chá preto. Pensava até mesmo em Robert e seu modo de agir com ela. Primeiro, ele havia a beijado na noite anterior, com tanto ardor, que parecia prestes a despi-la em uma carruagem e movimento. E pela manhã, queria protegê-la ou impedi-la de protestar. Como ele era confuso sem suas ações. Já ouvira dele que o matrimonio não importava e que uma dama deveria ter o direito de se casar se quisesse, ou beijar o homem que desejasse. Mas, na pratica, ele parecia não acreditar nisso, quando a viu se expressar em publico.
E ela mesma pensava na sua proposta indecorosa. De ser sua amante. Talvez, não fosse tão r**m, desde que não ultrapassassem demais a relação. Ela não desejava ter filhos e somente queria sentir o que Katherine e Anne disseram sobre o que um homem e uma mulher faziam na cama. E que havia várias formas de se satisfazer sexualmente, sem engravidar ou até mesmo, deixar de ser virgem. Parecia uma boa ideia para ela, enquanto tomava seu chá. Não parou de pensar em Robert aquela noite e o desejava como nunca. Contudo, se lembrou do livro que publicara. Se ele soubesse o que ela fez, ele nunca a perdoaria. Ela temia isso, pois estava começando a gostar da ideia de tê-lo mais perto, mesmo que fosse seu amante. Afinal, não desejava mais se casar, como desejou aos dezessete anos.
*
- Tem certeza que posso entrar? – Henrietta perguntou, seguindo com Anne, por dentro das instalações do hospital.
Era o hospital Collins, fundado com o nome de Henry, seu fundador. E ali se tratava tanto doentes mentais, como pessoas que sofreram acidentes, ou tem alguma doença fisiológica, além de pessoas que necessitavam de cirurgias. Henry havia conseguido juntar uma grande equipe de médicos e fazer o local crescer em menos de um ano. Ele acreditava que poderia melhor ainda mais, mas estava a trabalhar nisso.
- Sim, pode vir – Anne assentiu – Aqui são as enfermarias – ela apontou para a esquerda – Para frente, aonde devemos chegar, é a ala das pessoas com doenças mentais.
Henrietta suava frio por dentro. Nunca viu ninguém com doenças mentais. Só ouvira do seu pai que era uma situação horrível e vergonhosa. Que pessoas assim eram dignas de pena. Henrietta não sabia o que pensar sobre isso, afinal, nunca viu nada parecido. Mas, Henry falava delas como pessoas com direitos e deveriam ser tratadas com respeito e dignidade. E já havia dito o quanto sentia desprezo por hospitais que maltratavam os seus pacientes, os tratando com se fossem animais, usando enguias para dar choques e banhos frios, para recuperar a sanidade dos pacientes. Ele havia explicado que terapia do hospital era música sendo tocada por pessoas que se dispunham a isso, afinal. Anne fazia isso, todas as tardes, com outro músico a acompanhado. Raoul Favre, um músico francês, que havia se mudado há dois anos para Londres, trabalhar em consertos musicais em Londres, se dispôs a ajudar Henry, pois achou interessante o seu método. Ele havia comprovado que a música acalmava os pacientes nervosos. Então, Anne tocava o piano de parede e o senhor Favre tocava o violino.
Henrietta adentrou a ala dos doentes mentais e viu que os enfermeiros já haviam deixados os pacientes prontos para que Anne pudesse tocar o piano. Alguns deles pareciam alheios a tudo, outros tinham olhares bestiais. E ali estava uma dama que Henrietta não esqueceria. Era a lady viúva Klyne. Ela tinha cabelos escuros, ralos e olhos azuis. Ela tinha um olhar sem vida, com seu vestido cinza matinal. Os seus cabelos outrora cacheados e volumosos eram poucos em volta da sua cabeça. Henrietta respirou fundo para não chorar.
Henrietta observou o ambiente calmo pela música que Anne tocava, junto do senhor Favre. E ela observou a sala enorme e espaçosa, que tinha janelas francesas e uma varanda, para um jardim, que estava bem cuidado, com flores e árvores ao redor. Havia até um chafariz e bancos do lado de fora. Tudo fora pensado para deixar os pacientes calmos e sentindo-se em casa, não dentro de uma prisão. Henrietta esperava ver pessoas jogadas ao chão, gritando, esperneando, até mesmo babando, como o seu pai havia dito. Esperava até mesmo ver pessoas amaldiçoando ou falando sozinhas. Henry havia lhe dito que realmente, haviam esses pacientes que agiam de forma incontrolável, mas se fossem tratados bem, iria se recuperando de suas manias. Contudo, todos estavam estranhamente quietos, envolvidos pela música doce e comovente. De fato, Henrietta sabia ser alguma composição de Beethoven, mas ela não saberia dizer qual.
Foi então, que sentiu a mão alguém sobre o seu ombro.
- É bonito, não é? – ela escutou a voz de Robert.
O coração dela palpitou e ela sentiu uma estranha quentura percorrer seu corpo. Não sabia como se portar com ele ali tão perto.