Capítulo 13

2156 Palavras
Robert perguntou a Henrietta se ela achava bonita a sinfonia que estava ouvindo sendo executava por Favre e Anne. E não havia uma resposta melhor para aquilo, apenas um embevecimento por vê-los tocar de forma tão perfeita e harmoniosa. Henrietta não era envolvida com a música. De fato, por ser pai não a levar tanto a ópera, ela não tinha uma preferência por música clássica. Ela estava sempre mergulhada em suas próprias reflexões, nos livros e na sua escrita. Nunca pensou que a música poderia envolver tanto a alma de uma pessoa. E pode ver que os pacientes estavam envolvidos pela música, calmos e passivos. Ela também se sentia assim. Até mesmo esqueceu das desavenças que tinha com Robert. Após a execução da música acabar, os pacientes se dispersaram do lado de fora, pois o dia estava agradável. Não estava garoando mais e o sol havia aparecido por entre as nuvens. Henrietta resolveu sair ao jardim e ver o pátio externo do hospital. Podia ouvir a voz de Robert atrás de si. Ele conversava com Anne e o dois discutiam o progresso da mãe dela. A viscondessa viuva de Klyne estava sentada no chafariz, quieta, com um olhar fixo em um ponto. Sua expressão era apática e ela não olhava para ninguém ao seu redor. Henrietta pensou que poderia cumprimenta-la. Pelo menos há quase cinco anos, ela vira aquela dama elegante em um baile e fora apresentada a ela. Lady Klyne nunca demonstrou sinais de loucura naquele tempo e era uma dama distinta, que sabia conversar. Henrieta se perguntou o que poderia ter acontecido com ela. Henrietta deu alguns passos para chegar até lady Klyne, mas se assustou no caminho, com um paciente correndo. Ele colidiu com ela, a derrubando no chão. Henrietta ficou congelada, deitada de costas, olhando para o céu, enquanto o paciente corria, rindo sem parar. Ele foi contido por enfermeiros, enquanto Henrietta foi ajudada por Robert a se levantar. Ela se sentia humilhada pela queda e não olhou nos olhos de Robert. Sentia o corpo dolorido e os cotovelos ardiam. - A senhorita está bem? - Robert perguntou, a segurando pelo braço. Parecia genuinamente preocupado. - Sim, eu estou bem - ela respondeu, desviando o olhar e corando. Ela se sentia tão envergonhada, mas não era sua culpa ter sido empurrada. Anne chegou perto dela, com um olhar igualmente preocupado. - Eu sinto muito Henrietta. Os pacientes ficam agitados as vezes. Deseja ir para casa? - Sim - Henrietta assentiu. - Eu a levarei - Robert propos, ainda segurando o braço dela e enganchando no arco do seu cotovelo. - Não há necessidade. Eu posso tomar uma carruagem - Henrietta tentou se afastar dele. Mas, Robert a puxou para si. - Robert? - a voz da viscondessa viuva pode ser ouvida. Henrietta desviou o olhar de Robert, que estava preocupado para a mãe dele, que estava sentada ainda no chafariz e parecia ter reconhecido o próprio filho. O olhar dela era distante, como se não o visse ali, tão perto. - Mãe? - Robert perguntou, surpreso e se aproximou dela com Henrietta ao seu lado - A senhora está bem? A viscondessa viuva assentiu levemente, labendo os lábios e olhando para o filho profundamente. Depois, olhou para Henrietta, sem demonstrar nenhum reconhecimento. - Vamos sair para tomar chá? - ela perguntou - Seu pai não voltou para casa ainda. Quem é essa dama? Henrietta franziu o cenho e olhou para Robert, que comprimia os lábios e olhava fixamente para mãe dele. Anne entrou no campo de visão de Henrietta e estava atenta, com os braços para trás. Mas, não disse nada. - Nós vamos sim, mãe - ele respondeu, sem traço de zombaria - Acredito que papai deve voltar logo - Henrietta franziu o cenho, sem entender. O pai de Robert morreu há quase cinco anos. Então, por que ele estava mentindo para ela? O que havia de errado com a viscondessa? - E essa aqui é a senhorita Henrietta Harrison. É minha amiga. Henrietta imediatamente se sentiu m*l por ele classifica-la daquela maneira. Ela publicou um livro para calunia-lo, mesmo que não tivesse colocado seu nome nele. E ali estava ali, enfrentando problemas familiares e confiando nela, a tratando como se fosse sua amiga. Ela se sentia péssima e uma pessoa r**m por ter publicado o livro. Se pudesse voltar atrás, iria tirar o romance de circulação. A viscondessa viuva encarou Henrietta, com os olhos curiosos e a mediu, como se estivesse em um salão de baile e ela fosse julga-la. Ela deu um sorriso, parecendo gostar do que viu. - Meu filho, ela seria uma excelente esposa. Sabe que já tem trinta anos e precisa se casar, não sabe? Henrietta prendeu a respiração ao ouvir isso. E não entendeu o motivo da mãe de Robert acreditar que ele ainda tinha trinta anos. Até mesmo Henrietta que não era tão intima de Robert sabia que ele já tinha trinta e seis anos. Ela olhou de soslaio para Anne, que estava quieta. E ela observou que Robert estava com uma expressão atordoada. Ele apertou o braço de Henrietta em volta do seu, como se procurasse apoio. Ela apertou seu antebraço e sorriu para ele, tentando encoraja-lo. Ele sorriu fracamente para ela. - Mãe, ainda estou conhecendo Henrietta. Não queremos assusta-la, queremos? - ele perguntou, de forma natural, mas era visivel que estava desconfortável. A mãe dele parecia estar senil. Ela piscou seus olhos azuis para ele e depois sua expressão se tornou apática novamente. - Mãe? - Robert perguntou, baixinho. Ela não pareceu ouvi-lo, ou reconhece-lo. A viscondessa viuva olhou para o chão e parecia desorientada. - Onde está meu marido? - ela perguntou, em tom baixo, depois olhou para os lados - Onde ele está? William? Ela parecia desesperada e confusa. Se levantou, se desequilibrado. Robert foi rápido ao se soltar de Henrietta e puxa-la para si. - Mãe, estou aqui - ele disse, abraçando-a e acariciando seus cabelos. Ela tentou se soltar, freneticamente. - Socorro, me solte. Me solte - ela tentava se desprender dele - Will! Socorro! Logo os enfermeiros vieram e Robert não queria soltar sua mãe, mas foi puxado por Anne e Henrietta. Ele estava com um olhar espantado para ela, enquanto sua mãe se debatia nos braços dos enfermeiros. Eles a arrastaram para dentro do hospital, pela varanda aberta. - Will! Socorro, me ajude! - ela gritava e se debatia. Henrietta desviou o olhar e fitou os próprios pés. Sentia tanta pena da viscondessa. Não compreendia o que estava acontecendo ali. Então, foi que percebeu que Robert estava tremendo ao seu lado. Ela o fitou e percebeu que lágrimas escorriam dos seus olhos. Sentiu a compaixão invadir seu peito e tentou abraça-lo, mas ele se soltou dela e de Anne, dando passos firmes, com sua bengala e seguindo pelo pátio externo do hospital. A saída do hospital também poderia ser feita por ali. Henrietta fitou Anne, procurando respostas. Ela suspirou, com os olhos tristes. - Você quer saber o que estava acontecendo, não quer? - Anne perguntou. - Sim, eu não estou entendendo nada. O que houve com a mãe de Robert? Com Anne, ela se atrevia a chamar o visconde de Robert. Para outras pessoas, ela ainda o chamava de lorde Klyne, mas durante aquele um ano que precisou conviver ao lado dele, não conseguia pensar nele como o visconde de Klyne. Eles já se conheciam há tanto tempo e mesmo que tenham se ignorado propositalmente, conheciam um ao outro muito bem. Ou ela pensou que o conhecia. Não sabia tanto sobre sua mãe, nem oque aconteceu com ela. Estava acometida pela loucura? - A mãe de Robert sofre há muito tempo, Henry - Anne começou a falar e puxou Henrietta para que se sentasse em um banco, perto de algumas árvores - Ela vem tendo lapsos de memória. Hora está no presente, hora está no passado. Ela as vezes esquece quem é Robert. Parece não ver que esta dentro de um hospital e muitas vezes acorda agitada, perguntando por que a prenderam aqui? As vezes ela conversa lucidamente com seu filho, entendendo os motivos por estar aqui. Muitas vezes a visitei e ela estava conversando sozinha, dizendo ter visto seu marido. Por vezes é agressiva. O que se pode dizer, no caso dela, segundo os médicos é que ela esta senil e que parece estar perdendo o contato com a realidade. Ela parece esquecer das coisas mais simples sobre sua vida e sobre as pessoas ao seu redor. Henrietta assentiu, sentindo pena de Robert. Ter uma mãe doente não devia ser fácil e isso poderia afetar sua reputação. Não que ela o estivesse julgando, afinal, não seguia o que a sociedade pregava. Mas, seus pares falavam dele pelas costas. Falavam sobre sua mãe louca e seu pai depravado. Não faziam questão de esconder seu desdém por Robert, contudo, fingiam aprecia-lo e eram hipocritas na frente dele. - Pobre Robert...eu preciso ir atrás dele, Anne - ela disse, se levantando do banco. Anne segurou a mão dela, negando com a cabeça. - Não faça isso agora. Robert está sensível e pode interpretar m*l esse gesto - ela tentou avisar. - Mas...ele esta m*l. Precisa de um amigo - Henrietta tentou argumentar. Anne a fitou com seus olhos azuis e gentis. - Você o considera um amigo agora, Henrietta? - ela perguntou, com um sorriso. - Eu...er...não é...deixe para lá isso. Eu preciso ir agora. Até mais! Ela soltou a mão da de Anne e saiu do pátio externo, seguindo para a saída do hospital. * Anne viu sua amiga correr, como se sua vida dependesse disso e deu um sorriso. Era visível que Henrietta e Robert mudaram a relação deles de forma drástica. E só fazia um dia que ela ficou em Sussex, para ver Jasper e Janet. Algo estava mudando entre os dois, de fato. Henrietta se preocupar com ele era um sinal de que tinha empatia por Robert. E ele tê-la nomeado como sua amiga para a mãe dele foi uma atitude que ela não esperava que ele tivesse. Afinal, aqueles dois pareciam se odiar sem reservas. Ela viu Henry se aproximar no pátio externo e ele sorriu para ela. Sentou-se ao lado da esposa e puxou sua mão, para beija-la. - Ainda está aqui, querida? - ele perguntou. - Estou pensando no que houve essa tarde - Anne esclareceu, entrelaçando os dedos nos de Henry. - E gostaria de compartilhar comigo? - ele perguntou. Anne explicou todo o sucedido no pátio e Henry estava pensativo, com a mão no queixo. - Infelizmente, a viscondessa viuva de Klyne não ira recuperar sua sanidade. E ela parece estar perdendo a memória. Robert terá que aceitar que sua mãe nunca mais será a mesma. Venho notado que ela esta mudando há pelo menos um ano e meio, como se esquece de coisas do passado dela. Antes, eu acreditei que ela apenas tivesse melacolia e as visões do pai de Robert, mas parece que a situação esta cada vez pior. Ele parecia triste e derrotado, de repente. Soltou a mão de Anne e colocou suas mãos sobre as temporas. - Eu não sei o que fazer por ela, Anne. Não sei o que fazer por nenhum desses pacientes, para ser sincero. Posso apenas aliviar seu sofrimento, mas não curar suas mentes - ele disse, com desalento. - Henry, eu tenho certeza que você encontrará uma saída para isso - Anne tinha muita fé no seu marido. Contudo, ele era apenas um cirurgião que tentava compreender as doenças mentais. Não era algo fácil e cada caso que ele se deperava, parecia não ter qualquer solução. Ele encontrava paliativos aos seus pacientes com a música, a pintura e também percebia certa melhora quando eles praticavam algum exercício, além de banhos de sol, quando havia a possibilidade. Mas, isso não curava suas mentes. Alguns pacientes conversavam com ele, relatando seus problemas e pareciam mais lucidos, outros, ele parcebera que não tinham absolutamente nada. Eram apenas melancólicos e não pareciam querer viver. Para esses, era necessário tomar grande cuidado com o ambiente e como objetos que pudessem ser perigosos para sua vida. E havia casos raros de pacientes que apresentavam demência e estavam com os movimentos do corpo debilitado, ou aqueles que nada tinha em sua constituição fisíca e mental, mas seus parentes queriam se livrar deles a qualquer custo. De fato, a maioria dos pacientes era deixada no hospital, assim como em vários por Londres, para viver até o dia de suas mortes, pois a família os considerava um peso. Henry estava frustado, pois pensou que ao abrir um hospital e cuidar pessoalmente dos doentes, poderiam ajuda-los, mas sentia que nada poderia ser feito. Talvez, na questão do tratamento, ao menos ele os tratava com respeito. Ao menos isso ele poderia fazer para seus pacientes. Na questão da cura, ele não via ainda uma saída. Mas, não poderia esmorecer.
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