Capítulo 10 - Medo constante.

1357 Palavras
Luana Silva A energia do baile tava no auge, o som do DJ fazia o chão vibrar, e eu e as meninas não parávamos de dançar e rir. O calor do lugar, misturado com o gosto doce da bebida, fazia tudo parecer mais intenso, mais vivo. Carol tava toda animada, tentando me convencer a dançar com um cara que não parava de olhar na nossa direção, enquanto Yasmin ria, segurando o copo dela. — Lu, olha pra lá. O cara tá te secando há horas! Vai lá, mulher! — Carol insistia, me empurrando de leve. — Relaxa, Carol. Tô de boa. Deixa ele aí, se quiser que venha falar comigo. — Respondi, rindo, enquanto tomava mais um gole. De repente, algo me incomodou. Um movimento diferente no meio da multidão. Algumas pessoas começavam a sair do baile apressadas, outras cochichavam entre si. Uma sensação estranha tomou conta de mim, como se algo estivesse fora do lugar. — Gente, vocês tão vendo isso? — Perguntei, apontando discretamente para as pessoas que se afastavam. Yasmin franziu o rosto, percebendo o mesmo. — Tá estranho mesmo... Será que rolou alguma coisa lá fora? — Melhor a gente subir pro camarote. — Sugeri, segurando Carol pelo braço, que ainda tentava dançar. — Ai, Luana, que exagero! Mas tá, vamos logo. — Ela reclamou, mas me acompanhou. Enquanto subíamos as escadas, vi minha mãe, Dona Vera, descendo apressada. O rosto dela tava pálido, os olhos brilhando de preocupação. — Mãe? O que foi? Aconteceu alguma coisa? — Perguntei, sentindo o coração acelerar. Ela parou na minha frente, segurando meu braço firme. — O BOPE invadiu o morro, Luana. Teu pai... Ele levou um tiro no braço. As palavras dela foram como um soco no estômago. Senti o chão fugir por um instante, a música do baile se transformando em um ruído distante. — Como assim? Onde ele tá? Ele tá bem? — Disparei as perguntas, a voz saindo mais alta do que eu queria. — Ele tá vivo, já tá sendo cuidado. Mas a gente precisa ir agora. — Ela disse, apertando meu braço. — Eu vou com você. — Respondi sem pensar, a preocupação substituindo qualquer outra emoção. Yasmin e Carol me olharam com preocupação, mas não disseram nada. Foi K9, o pai da Carol, quem apareceu naquele momento, junto com Marta. — Vamos, a gente dá uma carona. Não dá pra perder tempo. — Ele disse, já descendo as escadas. Eu segui minha mãe, descendo rápido, enquanto o som do baile ainda ecoava atrás de mim, agora tão distante quanto as risadas de alguns minutos antes. Dentro do carro, o silêncio era pesado. Marta tentou puxar assunto, mas ninguém parecia no clima. Meu pensamento tava só no meu pai, na confusão que provavelmente tava rolando no morro. O coração apertado, a respiração rápida. A gente precisava chegar logo. O carro subiu o morro devagar, desviando das pessoas que lotavam as ruas. O som de vozes agitadas, algumas gritando ordens, outras chorando, preenchia o ambiente. Cartuchos de balas brilhavam sob a luz fraca dos postes, espalhados pelo chão como lembretes do confronto que havia acabado de acontecer. O cheiro de pólvora ainda pairava no ar, misturado com o de fumaça e suor. Quando chegamos à casa, desci apressada, quase tropeçando nas escadas. Minha mãe me seguia, mas eu nem olhei para trás. Tudo que eu queria era ver meu pai e ter certeza de que ele estava bem. A sala estava cheia, mas eu ignorei todos e fui direto para o quarto dele. Lá, encontrei dona Neide, uma amiga da família e enfermeira, terminando de fazer o curativo no braço dele. Meu pai estava sentado na cama, sem camisa, o rosto fechado, e o olhar cheio de raiva. O sangue seco no chão e na camiseta rasgada ao lado dele fez meu estômago revirar. — Pai! — Chamei, me aproximando rapidamente. — Tô bem, Luana. Não precisa fazer essa cara. — Ele respondeu, tentando soar calmo, mas o tom dele transbordava irritação. — Bem? Olha o seu braço! O que aconteceu? — Insisti, olhando para o curativo que dona Neide terminava de ajustar. — Eles vieram preparados, com um plano certinho. Pegaram metade da carga e ainda derrubaram cinco dos nossos. Eu mesmo só escapei porque o tiro pegou de raspão. — Ele falou, gesticulando com a mão boa, enquanto Neide dava um tapinha no ombro dele pra pedir que ficasse quieto. — Melhor não se mexer tanto, Barão. O curativo tá fresco. — Ela disse, com um tom firme, mas cuidadoso. — Foi sorte. Mas não foi qualquer um que atirou em mim, não. — Meu pai continuou, ignorando o aviso dela. — O desgraçado tinha um olhar que... Sei lá. Parecia familiar. Mas eles tavam todos encapuzados, só dava pra ver os olhos. Meu coração apertou ao ouvir isso. Quem seria? O que poderia ter feito ele reconhecer um olhar em meio a tanto caos? — Pai, você precisa descansar. Fica calmo, por favor. — Pedi, tentando aliviar um pouco a tensão no ar. Ele suspirou, olhando pra mim com aquele olhar pesado que sempre carregava depois de algo assim. — Descansar? Difícil, filha. Não vou sossegar enquanto não descobrir quem foi que liderou essa invasão. Mas você tá certa. Já fiz tudo que podia hoje. — Ele disse, finalmente deitando com cuidado, enquanto dona Neide arrumava os materiais dela. Depois de ver que ele estava mais calmo, me despedi e subi para o meu quarto. A tensão no morro parecia ter me seguido até ali. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro, e deixei a água quente cair no meu corpo, como se pudesse lavar o peso daquele dia. Enquanto trocava a roupa por um pijama, me sentei na beira da cama e olhei ao redor do quarto. Era bonito, confortável, cheio de coisas que qualquer pessoa desejaria. Mas, no fundo, tudo isso só me lembrava do preço que pagávamos para ter essa vida. Me deitei, o olhar perdido no teto. Será que as coisas poderiam ser diferentes? Como seria a minha vida se meu pai não fosse o dono do morro? Talvez eu estivesse estudando em outro lugar, vivendo uma rotina comum, sem tanto medo, sem tantas perdas. Mas essa não era a minha realidade. Suspirei, fechando os olhos, tentando empurrar esses pensamentos pra longe. Eu precisava dormir, precisava estar forte para o que viria no dia seguinte. Afinal, no morro, a gente nunca sabia o que o amanhã guardava. Ainda deitada, peguei o celular no criado-mudo. A tela piscou, iluminando o quarto escuro, e lá estavam dezenas de mensagens no grupo “As Brabas”, que eu tinha com Carol e Yasmin. Yasmin: “Lu, tô aqui sem conseguir dormir. Como tá seu pai? Melhorou?” Carol: “Amiga, qualquer coisa fala, tá? A gente desce aí se precisar!” Um sorriso fraco escapou, mesmo no meio de toda a confusão. Elas sempre foram assim: intensas, leais. Digitei rápido, sem querer prolongar o assunto. Eu: “Oi, meninas. Obrigada por se preocuparem. Ele tá melhor, foi só de raspão. Tá irritado, mas vocês conhecem meu pai. É mais raiva que dor. Tô cuidando dele, tá tudo bem.” Carol: “Ainda bem! Qualquer coisa, me liga.” Yasmin: “Sério, Lu, se precisar de alguma coisa, é só chamar. E, pelo amor, tenta descansar, tá?” Eu: “Vocês também, tá? Amanhã a gente conversa. Beijo, amo vocês!” Carol: “Te amo, braba! Agora vai dormir, hein!” Yasmin: “Te amo! Qualquer coisa, liga.” Desliguei o celular e o deixei de lado. Por um momento, aquele grupo e o carinho delas me fizeram sentir um pouco mais leve. Pelo menos eu tinha pessoas incríveis na minha vida. Suspirei, me ajeitando debaixo do lençol. A noite estava quente, o som do morro lá fora continuava: conversas baixas, passos, risos nervosos de quem tentava fingir que nada tinha acontecido. Fechei os olhos e tentei deixar minha mente esvaziar. Hoje havia sido longo demais, e amanhã provavelmente não seria mais fácil. Precisava de forças, precisava de um pouco de paz, mesmo que só por algumas horas.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR