Capítulo 9 - Missão.

1418 Palavras
Murilo Costa A noite era fechada, o céu carregado de nuvens pesadas que escondiam a lua e as estrelas. O clima perfeito para uma operação como essa. Eu e os outros estávamos no ponto de observação, cada um no seu posto, misturados às sombras que nos engoliam. Estávamos vestidos completamente de preto, máscaras cobrindo nossos rostos, deixando apenas os olhos à mostra. Cada movimento era calculado, cada som ao nosso redor era analisado. O rádio no meu ouvido deu o primeiro sinal. — Carregamento confirmado. Caminhão entrando na favela. Olhei através do binóculo. O veículo vinha devagar pela viela principal, escoltado por três motos e um carro mais velho à frente. A rua tava vazia, provavelmente por causa do baile na Penha. Eles sabiam o que estavam fazendo. A presença reduzida de moradores diminuía o risco de chamar atenção ou de acertar inocentes. Dei o comando pelo rádio. — Equipe, em posição. Sem erro. Caminhamos pela mata ao redor do morro, o som abafado dos nossos passos se misturando ao farfalhar das folhas. Cada um sabia exatamente onde deveria estar. Duas viaturas estavam estrategicamente posicionadas na base do morro, prontas pra reforço ou evacuação caso a coisa ficasse feia. A tensão era palpável. O ar parecia mais denso enquanto esperávamos o momento certo. O caminhão parou em uma pequena clareira entre becos apertados. Vários homens surgiram do nada, saindo das sombras como fantasmas. Reconheci Barão de longe. Ele tava no comando, claro. A postura, o jeito como ele gesticulava, era o retrato de um homem que tinha controle de tudo ali. — Iniciamos no meu sinal. Alvo prioritário: a carga — sussurrei pelo rádio. Os homens começaram a descarregar o caminhão. As caixas eram grandes, pesadas, marcadas apenas com números e códigos. Armamentos, com certeza. — Agora! — comandei. O primeiro tiro foi silencioso, cortando o ar e atingindo um dos homens que carregava a carga. O caos se instaurou no mesmo instante. Nós avançamos, saindo das sombras como predadores, armas apontadas, gritos de comando ecoando pelo beco estreito. — BOPE, caralh0! Ninguém se mexe! Mas eles não iam se render tão fácil. Os tiros começaram a ser disparados de ambos os lados. O barulho ecoava como trovões, o som se misturando aos gritos e ao barulho de passos apressados. Vi Barão se movendo ao fundo, gritando ordens, mas sempre protegido pelos seus soldados. Mirei nele, a mira laser encontrando o braço dele por um instante. Respirei fundo, o dedo firme no gatilho. Disparei. O tiro atingiu o braço dele de raspão, e eu vi o sangue manchar a camisa branca que ele usava. Barão cambaleou por um instante, mas continuou correndo, protegido por seus homens. — Caralh0! — xinguei baixo. A troca de tiros se intensificou. Conseguimos neutralizar alguns deles e avançar até o caminhão. Um dos meus parceiros arrombou as caixas, confirmando nosso objetivo. — São as armas. Bora pegar o que der e cair fora! Pegamos o máximo que conseguimos, enchendo nossas mochilas e mantendo a cobertura uns dos outros. Mas os homens de Barão começaram a cercar a área, os tiros vindo cada vez mais de diferentes direções. A vantagem inicial tava sumindo. — Recuar! Recuar agora! — gritei no rádio. Com as mochilas cheias e os nervos à flor da pele, começamos a recuar em direção ao ponto de evacuação. A chuva de balas parecia não ter fim, mas conseguimos sair do perímetro e alcançar a segurança relativa da mata. Quando finalmente estávamos fora de alcance, paramos pra respirar. A tensão ainda vibrava no ar, mas tínhamos conseguido. Olhei pras minhas mãos sujas de terra e sangue — não o meu, mas isso não importava. — Tá ferido capitão? — um dos colegas perguntou, ofegante. Olhei pra ele e depois pro caminho por onde vi Barão sumir. — Não, e vocês estão bem? Todos confirmaram, então seguimos para as viaturas, indo para o batalhão. Por dentro eu estava satisfeito em ter feito aquele desgraçado sangrar. Chegamos ao batalhão pouco antes do amanhecer. O silêncio no interior da viatura era carregado, mas não de derrota. Era o silêncio de quem sabia que tinha feito a diferença naquela noite. Assim que estacionamos, os policiais de plantão vieram nos encontrar, alguns já com carrinhos de transporte para recolher a carga. — Conseguiram o quê? — perguntou um deles, ajeitando o coldre enquanto olhava pra mochila que eu carregava. — Parte das armas. Metralhadoras, pistolas e umas granadas. Eles tavam bem equipados — respondi, entregando a mochila para ele. — E o Barão? — outro perguntou, já sabendo a resposta pelo meu olhar. — Ele escapou... mas levei um pedaço dele — respondi, seco, enquanto caminhava até a mesa onde as armas começavam a ser organizadas e catalogadas. A equipe do plantão iniciou o trabalho rapidamente, abrindo as mochilas, retirando as armas e conferindo os detalhes. Tudo seria reportado e guardado como evidência. Eu observava de longe, os olhos fixos na mesa cheia de metal frio e pesado. "É um começo", pensei. Depois de garantir que todo o equipamento tinha sido entregue e que os relatórios seriam preenchidos, me despedi dos colegas. — Boa noite... ou bom dia, sei lá. Fizeram um bom trabalho — disse o comandante da noite, com um sorriso cansado. — Valeu, chefe. Vou pra casa. Preciso de um banho e de umas horas de sono. Caminhei até o meu carro, sentindo o peso do cansaço começar a se instalar no corpo. Mas por dentro, uma fagulha de satisfação me mantinha alerta. Eu sabia que tinha enfraquecido o Barão, mesmo que só um pouco. A cada passo que dava contra ele, sentia que tava mais perto de derrubar o reinado que ele construiu. Dirigi pela cidade quase deserta, o dia começando a clarear no horizonte. O silêncio do carro era bem-vindo, um contraste com a tensão e o caos da noite anterior. Chegando em casa, fui direto pro banheiro. O chuveiro quente lavava não só a sujeira da noite, mas também a adrenalina que ainda corria pelas veias. Quando terminei, vesti uma bermuda e uma camisa básica, seguindo pra cozinha pra preparar algo rápido. Um omelete e um café forte bastariam. Depois de um banho quente e um jantar/café da manhã simples, me sentei no sofá da sala com o celular na mão. Queria apenas distrair a mente, mas a lembrança da noite ainda pulsava em mim. A adrenalina de estar tão perto de acertar o Barão ainda corria nas minhas veias, mas eu precisava relaxar. Abri as redes sociais sem pensar muito, rolando o feed sem prestar muita atenção. Até que um story me chamou atenção: Luana. Os vídeos foram postados há cerca de uma hora. Ela estava no baile da Penha com as amigas, a mesma turma que eu tinha visto no bar dias atrás. O primeiro vídeo mostrava as três dançando juntas no meio da multidão, Luana com um short saia jeans e um cropped que destacava a bandeira do Brasil. O cabelo longo e ondulado balançava enquanto ela ria e se movimentava com uma confiança que era difícil de ignorar. Passei para o próximo. Dessa vez, alguém a filmava de longe enquanto ela dançava ao som de um funk pesado. Luana estava sozinha no centro do vídeo, os quadris se movendo no ritmo da música, o corpo inteiro entregue ao momento. Parecia que ela não tinha preocupação nenhuma no mundo, diferente de mim, que m*l conseguia relaxar. Senti um calor subir pelo corpo enquanto assistia. A mistura de desejo e raiva por sentir isso me fez bufar. "Você tá maluco, Murilo", pensei, balançando a cabeça. Mas meus olhos não conseguiam desviar da tela. Por um momento, imaginei estar naquele baile, puxando ela pra mim, sentindo a energia dela tão de perto quanto naquele dia no bar. Fechei o celular com força e joguei no sofá ao meu lado, soltando um suspiro pesado. — Para com isso, cara. Ela não é pra você. — Falei em voz alta, como se isso fosse suficiente pra convencer minha cabeça. Levantei, peguei o prato na cozinha e lavei tudo rápido, tentando ocupar a mente. Depois, fui pro quarto e me joguei na cama. Ainda era cedo pra dormir, mas eu precisava apagar. O dia seguinte seria longo, e o trabalho de derrubar o Barão tava longe de terminar. Enquanto fechava os olhos, a imagem dela dançando ainda insistia em me perseguir. E por mais que eu tentasse ignorar, sabia que aquela garota já tinha feito algo em mim que eu não podia controlar.
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