Capítulo 8 - Baile Fervendo.

1433 Palavras
Luana Silva A casa da Yasmin tava fervendo com a energia de sempre. Música alta no fundo, cheiro de perfume misturado com o calor do secador, e as risadas das três ecoando pelo quarto. A gente tava quase pronta pro baile, mas a verdade é que o ritual de se arrumar juntas era quase tão bom quanto a festa em si. — E teu pai, Lu? — Carol perguntou, enquanto passava um batom nude e olhava de lado pra mim. — Não vai aparecer hoje no baile? Eu ri, mexendo no cabelo em frente ao espelho. — Ele disse que ia chegar mais tarde. Tá resolvendo umas paradas lá em casa. Parece que vai receber uma carga hoje, aí só depois que descarregar. Carol fez um biquinho fingido, deixando a mão cair dramaticamente no peito. — Ai, que triste! Isso significa que o Fabinho também só vai aparecer depois. Como é que eu vou sobreviver até lá, hein? Eu e Yasmin caímos na gargalhada. Yasmin, que tava arrumando os cachos com os dedos, olhou pra Carol e lançou: — Tá apaixonada, é? Vai confessar hoje ou ainda vai bancar a difícil? — Apaixonada nada, garota! — Carol rebateu, se levantando e dando uma voltinha exagerada. — A gente tá só curtindo, sem compromisso. Não tenho culpa se ele tá caidinho. — Sei... — eu e Yasmin falamos ao mesmo tempo, provocando. Carol revirou os olhos, mas acabou rindo com a gente. Era sempre assim: ela adorava bancar a despreocupada, mas a gente sabia que ela gostava de ter o Fabinho por perto. Voltei minha atenção pro espelho. Soltei o cabelo, deixando os fios ondulados caírem pelos ombros. Peguei a escova na bancada e passei mais uma vez pra ajeitar as mechas. Meu look tava pronto: short-saia jeans que valorizava minhas pernas, um cropped com as cores da bandeira do Brasil escrito Rio de Janeiro em letras douradas e um tênis branco confortável. Os acessórios brilhavam sob a luz do quarto — braceletes finos, um colar delicado e brincos pequenos. Dei uma última olhada no espelho, virando o rosto de um lado pro outro pra conferir se tava tudo no lugar. Sorri de leve. Gostava de me arrumar, mas sem parecer que tinha feito muito esforço. — E aí, tá boa ou não tá? — perguntei, jogando o cabelo pra trás e encarando as duas. — Tá um escândalo, mana — Yasmin respondeu, jogando uma almofada na minha direção. — Se eu fosse homem, já tava na tua cola agora mesmo. — Tá gata mesmo — Carol concordou, se aproximando pra olhar os brincos que eu tava usando. — Só cuidado pra não acabar fazendo alguém se apaixonar hoje. Eu ri, pegando minha bolsa pequena e dando um último retoque no gloss. O som da música lá fora aumentou, e pela janela a gente podia ver o movimento crescendo no morro. Era hora de descer. — Bora, meninas. A noite tá só começando — falei, puxando as duas pela mão enquanto saímos do quarto prontas pra conquistar o baile. A caminhada até a quadra foi rápida, mas a energia no ar já dava um gostinho do que nos esperava. O som do funk vibrava nas paredes das casas, as luzes piscavam em cores diferentes, e a rua fervilhava de gente indo na mesma direção que a gente. Subimos a ladeira com o passo acelerado, animadas com a expectativa da noite. Quando finalmente chegamos à entrada da quadra, foi impossível não notar: tava muito mais lotado do que o normal. Gente pra todo lado, de várias partes do Rio. Reconheci algumas caras conhecidas do morro, mas também tinha muita gente nova. Alguns claramente da zona sul, outros de morros vizinhos. Todo mundo junto, dançando, rindo e aproveitando a vibe. — Caramba, olha isso! — Yasmin comentou, enquanto a gente abria caminho pela multidão. — Tá cheio de boy diferente hoje. — Já percebi — respondi, rindo enquanto meus olhos passeavam pelo lugar, captando uns rostos interessantes. Tinha uns caras muito bonitos, estilosos, cheios de marra. Era impossível não reparar. Carol, sempre a mais espevitada, deu um empurrãozinho no meu ombro. — Tá de olho em quem, hein? Já viu alguma vítima? — Tô só olhando por enquanto. Mas que tá cheio de opção, tá — respondi, rindo, enquanto a gente continuava subindo em direção ao camarote. Ao chegar lá em cima, encontramos os pais reunidos, como sempre. O pai da Yasmin, conhecido como Lacoste, tava sentado no sofá de couro branco, com a perna cruzada e uma expressão de rei observando seu reino. A mãe dela, Juliana, tava ao lado, impecável como sempre, com um vestido justo que mostrava o porquê de todos os caras no morro a respeitarem tanto quanto ao marido. Do outro lado, estavam os pais da Carol. K9, com aquele jeito mais largado, bebia uma cerveja enquanto conversava com Dona Vera, minha mãe, que parecia saída de uma capa de revista, com cabelo e maquiagem impecáveis, rindo de algo que ele tinha acabado de falar. Marta, mãe da Carol, fazia um carinho no ombro dele, rindo também. — Olha as patroas chegando! — Lacoste exclamou quando viu a gente. — Vocês três juntas são um perigo pra favela. — Boa noite, tio — falei, me aproximando pra cumprimentá-lo com um beijo no rosto, junto com as meninas. — Já vieram direto pegar bebida, né? — Minha mãe comentou, olhando de lado pra mim enquanto eu me aproximava do balcão pra pegar um copo de energético com vodka. — Só um gole, mãe — respondi, piscando pra ela. Conversamos por alguns minutos, comentando sobre o movimento do baile, sobre quem tinha aparecido. K9, como sempre, soltava piadas enquanto nossas mães caiam na risada. Depois de um tempo, a música ficou mais alta, e a gente ouviu o anúncio de que MC Livinho tava chegando no palco. Eu e as meninas trocamos olhares animados. — É agora que a pista vai pegar fogo! — Carol exclamou, já pegando a minha mão e puxando. Deixamos o camarote e descemos pro meio da galera. A multidão tava agitada, e o som que Livinho soltou logo de cara fez todo mundo começar a dançar. O clima tava perfeito: luzes piscando, batida vibrando no peito, e a pista cheia de gente aproveitando o momento. Era a nossa hora de brilhar. A pista tava pegando fogo, literalmente. As luzes coloridas piscavam, o som grave do funk fazia meu coração bater no ritmo, e o calor humano deixava o ambiente ainda mais intenso. Eu e as meninas dançávamos no meio da multidão, rindo e soltando os passos que já eram quase automáticos pra gente. No meio da agitação, senti um olhar pesado em mim. Era um cara alto, moreno, cabelo bem cortado e aquele sorriso meio malandro que fazia qualquer mulher virar a cabeça. Ele tava parado perto da parede, me encarando com uma confiança que, pra ser sincera, mexeu comigo. Ele se aproximou devagar, cortando a multidão sem desviar o olhar. Parou na minha frente, bem perto, e sorriu de lado. — Tá animada, hein? — disse, puxando conversa no tom certo, sem ser forçado. — Tem como não tá? — respondi, jogando o cabelo pra trás e encarando ele de volta. Ele riu, um riso grave e envolvente, e puxou minha mão, me guiando pra um canto um pouco menos lotado, mas ainda dentro do movimento da pista. Ficamos frente a frente, e antes que eu percebesse, ele inclinou o rosto, perguntando com o olhar. Quando vi, já tava correspondendo. O beijo foi quente, cheio de energia. Ele tinha pegada, sabia o que tava fazendo, e por alguns segundos, eu me deixei levar completamente. Meu corpo tava ali, mas minha mente… de repente, o rosto dele surgiu. O homem do bar. Eu nem sabia o nome dele ainda, mas o impacto que ele teve em mim naquela noite não tinha desaparecido. O beijo, a intensidade daquele momento, a presença dele... tudo voltou com força. Minha mente se confundiu, e mesmo com os lábios desse cara novo nos meus, era como se eu estivesse revivendo outra cena. Afastei-me devagar, olhando o cara nos olhos, mas minha cabeça já tava longe. — Tá tudo bem? — ele perguntou, um pouco surpreso. — Tá, tá sim. Só... calor — menti, sorrindo de leve pra disfarçar. Ele riu, passando a mão pelo cabelo, e voltou a dançar, mas eu me afastei um pouco, fingindo ajeitar meu cropped. A confusão dentro de mim era estranha. "Que droga, Luana", pensei. "Você nem conhece aquele cara e tá aqui, presa nele. Sai dessa, garota!"
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