Murilo Costa
Dezoito anos. É tempo suficiente para transformar qualquer pessoa. Para me moldar no que sou hoje, bastaram duas coisas: disciplina e raiva.
A sala de reuniões estava quente, abafada, como quase tudo no Rio. Ventiladores de teto giravam preguiçosamente, sem fazer muito efeito, mas eu não ligava. Meu foco estava na mesa à minha frente, repleta de mapas, anotações e fotos borradas. Cada imagem era um pedaço do quebra-cabeça que estávamos montando há meses.
Enquanto esperava os outros entrarem, ajeitei minha farda. Era mais por hábito do que por necessidade. O peso dela nos ombros não era só físico, era algo maior. Carregava o emblema do BOPE, o legado do meu pai, e uma promessa que eu ainda não tinha cumprido.
A porta se abriu com um rangido, e meus colegas começaram a entrar. Homens experientes, rostos marcados pela vida nas ruas. Cada um deles sabia que o trabalho de hoje não seria fácil. Quando todos estavam sentados, levantei-me e me aproximei do quadro branco ao fundo da sala.
— Vamos direto ao ponto — comecei, a voz firme. Não era momento para rodeios. — A informação chegou ontem à noite: uma carga pesada de armamento vindo do exterior vai desembarcar aqui, no morro da Rocinha.
Um burburinho percorreu a sala. Todos sabiam o que isso significava. Não era só sobre armas. Era sobre poder, domínio, guerra.
Peguei um marcador e desenhei um mapa básico do morro no quadro.
— A entrega está marcada para amanhã, pouco antes do amanhecer. Nossa fonte informou que o transporte vai ser feito por uma van preta, que vai subir pelo lado sul do morro. A carga será descarregada em um galpão aqui — apontei para uma área próxima ao topo. — Esse lugar é bem protegido. Três acessos principais, com olheiros espalhados por toda a rota.
— E o Barão? — um dos homens perguntou, interrompendo. O tom casual dele escondia o peso daquela palavra.
Senti meu maxilar travar por um instante antes de responder.
— Ele deve estar lá. Essa carga é grande demais para ele confiar em terceiros.
Eu disse isso como se fosse apenas mais uma missão, mas, por dentro, meu sangue fervia. Treze anos. Treze anos esperando o momento de cruzar com ele de novo. E, agora, tudo indicava que estávamos prestes a nos encontrar.
Outro colega, o Tenente Souza, se inclinou para frente, os braços apoiados na mesa.
— Se ele estiver lá, você sabe que vai ser um inferno. O Barão não vai entregar nada sem luta.
— Não espero que ele entregue — respondi, encarando cada um dos homens na sala. — Mas não estamos aqui para negociar. Estamos aqui para vencer.
A tensão aumentou, mas era o tipo de tensão que a gente precisava. Cada um deles sabia o que estava em jogo. Não era só sobre interceptar armamentos. Era sobre mostrar que eles não estavam acima da lei.
Peguei uma ficha com as divisões de equipe e comecei a detalhar o plano.
— Vamos dividir em três grupos. Equipe Alfa vai subir pela entrada principal. Distração. Queremos que eles pensem que é só mais uma operação de rotina. A Beta vai pelo lado leste, pelo acesso secundário, enquanto a Charlie... — dei uma pausa, olhando para o mapa. — Vai cortar por trás. Um caminho mais difícil, mas essencial para fechar o cerco.
Os homens assentiram, sérios.
— Lembrem-se: sigilo absoluto até o momento da invasão. Precisamos surpreender, não podemos dar chance para eles fugirem com a carga.
Coloquei a ficha de volta na mesa e respirei fundo.
— E tem mais uma coisa. Se Barão realmente estiver lá, ele é prioridade. Não só porque comanda o esquema, mas porque ele é o símbolo disso tudo. Ele cai, o resto cai junto.
Minha voz ecoou na sala por um momento antes do silêncio tomar conta. Eles sabiam o que significava. Para mim, isso era pessoal. Mas, para eles, era apenas mais um dia no trabalho.
— Alguma dúvida? — perguntei, passando os olhos pela equipe.
Ninguém respondeu. Eles confiavam em mim, e eu confiava neles.
— Então é isso. Amanhã, 03h00. Preparem-se.
Os homens se levantaram e começaram a sair, discutindo detalhes entre si. Fiquei parado por um momento, olhando para o mapa. Minha mente já estava lá, no morro, entre os becos e barracos, antecipando cada movimento.
O rosto de Barão surgiu na minha memória. Não como uma lembrança, mas como um alvo.
— O jogo está virando, velho... — murmurei para mim mesmo. — Agora é a minha vez.
Depois da reunião, o plantão seguiu como sempre: relatórios, verificações e aquele silêncio denso que sempre precede grandes operações. Quando o relógio marcou meio-dia, finalmente estava liberado. O dia estava quente, o sol castigando o asfalto. Dirigi até a casa da minha mãe, onde almoçar em um dia de folga ainda era um dos poucos momentos em que eu podia me permitir esquecer, por um breve tempo, a guerra lá fora.
Ao estacionar, respirei fundo. A fachada simples da casa me trouxe um alívio familiar. Era ali que eu podia ser apenas o Murilo, o filho dela. Bati na porta duas vezes antes de entrar, sentindo o aroma de comida caseira que tomava o ar.
— Filho! — Minha mãe apareceu na sala com um sorriso caloroso. Ela era uma mulher forte, de pele marcada pelo tempo e olhos cansados, mas que ainda carregavam um brilho acolhedor.
— Oi, mãe — respondi, curvando-me para um abraço.
Ela me abraçou forte, como se quisesse expulsar qualquer preocupação do meu corpo. Era sempre assim.
— Senta, menino, o almoço já está pronto. Fiz aquele feijão com costela que você gosta.
Sorri de canto e fui até a mesa. Apesar do calor, a comida tinha um cheiro irresistível. Ela serviu os pratos, enquanto falava sobre o vizinho, as plantas do jardim e a novela da noite anterior. Eu apenas ouvia, aproveitando a pausa mental que ela sempre me proporcionava.
— E você? — ela perguntou de repente, sentando-se à mesa. — Alguma novidade no trabalho?
— Nada que eu possa contar, mãe. Coisa de sempre.
Ela suspirou, como fazia sempre que a resposta era vaga.
— Um dia ainda vou te fazer largar esse BOPE, Murilo. Isso não é vida. Olha só, não tem tempo pra nada. Nem pra me arrumar uma nora.
Engasguei com o feijão e tomei um gole de água para disfarçar.
— Lá vem a senhora com isso de novo...
— Ora, e não tenho razão? Quero netos antes de morrer, sabia? Você tá ficando velho, Murilo. Trinta e um anos! E nada.
Rolei os olhos, mas no fundo sabia que ela tinha um ponto.
— Não é tão simples assim, mãe.
— Simples era quando você namorava a Samanta — retrucou, apontando o garfo para mim. — Aquela menina era uma bênção. Por que você foi deixar ela escapar?
O nome dela trouxe um incômodo imediato. Samanta. Lembrei-me do rosto dela, do riso fácil e da paciência que ela teve comigo por tanto tempo. Até que não teve mais.
Desviei o olhar para o prato.
— Não deu certo, mãe. Coisas da vida.
— Coisas da vida? — Ela ergueu a sobrancelha, claramente não satisfeita com a resposta. — Ela era apaixonada por você. Toda vez que vinha aqui, ficava ajudando com as coisas da casa, preocupada contigo. Sei que vocês brigavam, mas isso é normal.
Normal? Lembrei-me do dia em que tudo desmoronou.
Samanta estava sentada no sofá, os braços cruzados, a expressão cansada.
— Murilo, eu não aguento mais! Você nem olha pra mim! É como se eu não existisse!
— Olha o drama, Samanta. Você sabe como meu trabalho é pesado.
— Não é o trabalho, e você sabe disso. É essa obsessão sua. Essa raiva. Esse... esse ódio que você carrega o tempo todo.
— Tá falando besteira.
Ela balançou a cabeça, lágrimas nos olhos.
— Não, eu tô falando o que você se recusa a admitir. Você não sabe viver, Murilo. Você só sabe caçar fantasmas do passado. E eu... não sou um deles.
A lembrança me trouxe de volta à mesa, onde minha mãe me olhava com expectativa, esperando que eu dissesse algo.
— Samanta merece alguém melhor, mãe — murmurei, tentando encerrar o assunto.
Ela balançou a cabeça, mas não insistiu.
— Você precisa aprender a deixar o passado no lugar dele, filho. A vida é agora.
Se fosse tão simples assim, eu já teria feito. Mas o passado era como uma sombra. Ele não ia embora só porque você queria.
— Vou pensar nisso, mãe — respondi, sem muita convicção, enquanto comia mais uma garfada.
Ela me olhou com um misto de amor e preocupação, mas mudou de assunto, falando sobre os bolos que pretendia fazer no fim de semana. Era o jeito dela de aliviar o clima, e eu agradeci.