Luana Silva
Acordei antes mesmo do despertador tocar. Era sempre assim. O som do morro começava cedo: motos roncando, vozes animadas, alguma música alta de um vizinho que, pelo visto, não sabia o que era horário. Me espreguicei na cama, sentindo o frescor do ar-condicionado. O quarto era grande, com tudo do bom e do melhor: armários embutidos, cama grande, tapete fofinho e outro detalhes. Um contraste enorme com o que eu sabia que era a realidade de quem vivia ao redor da gente.
Me levantei e fui até o espelho do banheiro, prendendo o cabelo longo e ondulado em um coque frouxo. Meu braço direito exibia uma das tatuagens que tinha feito recentemente, uma rosa discreta. Sorri de leve. Minha mãe ainda reclamava que eu era "viciada em rabiscar o corpo", mas falava isso enquanto mostrava as dela com orgulho.
Depois de um banho rápido, me vesti. Calça jeans, uma blusa justa, mas simples. Não gostava de chamar atenção demais. Peguei a mochila no canto do quarto e desci as escadas que davam direto na sala enorme da casa. O chão de porcelanato brilhava, e as cortinas leves deixavam a luz entrar. No morro, éramos os reis, e isso refletia em tudo ao nosso redor: piscina nos fundos, carros na garagem, motos potentes. Mas o preço desse luxo era o constante medo.
Minha mãe, Dona Vera, tava na cozinha. Morena como eu, cabelo sempre solto e arrumado, usando um vestido curto que destacava o corpo bem cuidado. Ela mexia em uma panela, mas parou assim que me viu.
— Vai sair sem comer nada, garota? — disse, com aquele tom mais de comando do que de pergunta.
— Vou tomar um café, mãe. Relaxa.
Ela me analisou enquanto eu pegava a xícara no balcão.
— Tá arrumadinha, hein? Algum boy na faculdade que você não contou?
Revirei os olhos, rindo. Era sempre assim, ela não perdia a chance de soltar uma dessas.
— Só vou pra aula, mãe. Tu que tá vendo coisa onde não tem.
Ela deu de ombros, voltando a mexer a panela. Nesse momento, ouvi a risada grave do meu pai vindo da varanda. Fui até lá e o encontrei sentado, lendo mensagens no celular enquanto tomava um café. Ele levantou os olhos e abriu um sorriso largo quando me viu.
— Acordou cedo, hein? Isso é porque hoje o velho aqui vai te emprestar a moto pra ir pra faculdade?
— Nem vem, pai. Eu vou com o carro mesmo. Tá achando que eu vou de moto só pra impressionar os outros?
Ele riu alto e fez sinal pra eu sentar do lado dele. Diferente do homem temido que todo mundo conhecia, comigo e minha mãe e com alguns dos meus tios ele era brincalhão, sempre arrumava alguma piada pra aliviar o peso que a gente carregava.
— O carro é bom, mas a moto é pra quem tem estilo — disse ele, piscando.
— Deixa de onda, Fabio!— minha mãe gritou da cozinha. — Deixa a menina ir como ela quiser.
Eu ri, bebendo o resto do café. Apesar do clima leve, a tensão no ar era inevitável. A gente vivia bem, tinha tudo, mas o preço disso era alto. Meu pai sempre tava com alguém em volta, segurança pra todo lado, porque a qualquer momento, alguém podia tentar atacar. E a gente sabia que esse "alguém" tava sempre à espreita.
— Vai direto pra aula ou passa em algum lugar depois? — ele perguntou, agora mais sério.
— Direto, pai. Hoje é dia de prova de farmacologia. Prometo que volto na hora do almoço.
Ele assentiu, os olhos fixos em mim, como se estivesse conferindo se eu tava mesmo segura.
— Qualquer coisa, manda mensagem. E fica de olho, Luana. Eu sei que você é esperta, mas nem tudo depende só da gente.
Dei um beijo na testa dele e peguei a chave do carro. Apesar do que as pessoas pensavam, eu era madura o suficiente pra entender a gravidade de viver no mundo que meu pai criou. Não tinha a ilusão de que o luxo ao meu redor apagava o perigo constante.
Na garagem, o carro que ele tinha feito questão de me dar brilhava, impecável. Subi nele, ajeitei o banco e saí devagar pelas ruas do morro. As crianças brincavam, as pessoas conversavam nas esquinas, mas sempre com aquele olhar atento. Aqui, ninguém relaxava de verdade.
Quando passei pela entrada principal do morro, um dos meninos que ficam na entrada, o Sorriso, fez sinal e falou um "vai com Deus". Sorri de leve e segui o caminho pra faculdade. Mais um dia, tentando equilibrar a vida entre dois mundos.
A faculdade era o único lugar onde eu me sentia, de alguma forma, normal. O estacionamento já estava lotado quando cheguei, mas consegui um lugar perto da entrada. Peguei minha mochila no banco do passageiro e segui em direção ao prédio principal.
Logo avistei Carol e Yasmin, minhas únicas amigas e praticamente irmãs de vida. Carol, minha prima de primeiro grau, era minha confidente desde criança. A gente tinha crescido juntas, compartilhando segredos e sonhos, apesar das nossas realidades muitas vezes tensas. Morena como eu, com cabelo liso por causa das escovas progressivas, Carol era uma força da natureza: extrovertida, engraçada e, claro, cheia de opiniões.
Yasmin, por outro lado, era mais discreta. Filha de outro chefão de morro, mas de um que era aliado do meu pai, ela tinha um jeito mais observador, mas não menos intenso. A pele bronzeada, o cabelo cacheado preso num coque e o sorriso tranquilo faziam ela parecer sempre no controle. Mas, por dentro, eu sabia que ela carregava as mesmas preocupações que eu e Carol.
— Tá atrasada, hein, Lu? — Carol falou, cruzando os braços e fingindo cara de brava. — Se fosse prova, já tava ferrada.
— Relaxa, mana. É só porque eu dormi dois minutos a mais — respondi, revirando os olhos.
— Dois minutos? Sei. — Yasmin riu, mexendo no celular. — Quem dorme num quarto de princesa não tem pressa mesmo.
— E quem vive num castelo de princesa? — rebati, sorrindo.
— Caralh0. Duas mimadas competindo! — Carol comentou, nos fazendo rir.
A gente entrou juntas no prédio, desviando das outras pessoas no corredor. Mesmo em uma universidade grande como aquela, era raro que três meninas do nosso mundo tivessem a oportunidade de estudar ali. Por sorte — ou destino —, escolhemos o mesmo curso e seguimos inseparáveis.
Na sala de aula, sentamos no fundo, como sempre. Era nosso lugar estratégico pra fofocar antes da professora chegar. Yasmin tirou o estojo da mochila, enquanto Carol abria um pacote de biscoitos.
— Então, o que vocês tão achando da matéria de hoje? — Yasmin perguntou, fingindo ser séria.
— Que eu preferia tá na piscina lá de casa. — Eu suspirei, jogando o cabelo pra trás.
— E eu preferia tá num churrasco com aquele boy da turma de Administração — Carol respondeu, arrancando risadas de mim e Yasmin.
Mas, por mais que a gente brincasse, havia algo que unia a gente de um jeito diferente. Vivíamos vidas cheias de privilégios e perigos. A gente sabia que ninguém, além de nós três, entendia o que era viver entre o luxo e o medo constante.
O sinal tocou, e a professora entrou na sala. Focamos na aula, mas eu sabia que o dia não terminaria sem alguma novidade ou história pra compartilhar com as meninas. Com elas, pelo menos, eu podia ser quem realmente era, sem precisar usar a máscara de “filha do Barão”.