Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – Antes da Última Chuva
Lia
Dizem que o fim do mundo não chega com explosões, mas com silêncios.
Com a água parando de correr pelas torneiras. Com as ruas vazias mesmo em plena segunda-feira. Com o céu ficando cinza, não por nuvens, mas por ausência de cor.
Eu senti antes de acontecer. Não foi um sonho premonitório, nem um aviso divino. Foi um incômodo na pele, como uma roupa colando no corpo num dia abafado demais. Um pressentimento que arranhava por dentro. O mundo estava prestes a parar de girar e ninguém parecia notar — ou talvez notassem, mas preferiam ignorar.
Na escola, todo mundo ainda fingia que éramos invencíveis. Que os boletins de racionamento eram boatos. Que os protestos na capital não passavam de rebeldia adolescente. Mas eu via nos olhos dos professores — aquela sombra que ninguém conseguia disfarçar. E quando minha mãe me abraçava forte demais à noite, eu sabia que ela também sentia.
Foi nos últimos dias antes da última chuva que eu vi Noah pela primeira vez em anos.
Ou melhor, foi quando me permiti lembrar dele.
Ele era o tipo de garoto que os outros não sabiam catalogar. Não era o mais bonito — embora houvesse algo no modo como seus olhos pareciam carregar segredos que fazia as meninas segurarem o olhar por tempo demais. Não era o mais inteligente — mas as respostas dele tinham o tipo de lógica que te fazia questionar tudo o que os professores diziam. E ele não pertencia a lugar nenhum. Nem ao time de futebol, nem aos nerds, nem aos rebeldes. Noah Black era um ponto fora da curva, solitário por opção, perigoso por natureza.
Eu observava ele do fundo da sala. Sempre em silêncio. Sempre com aquele olhar distante, como se já estivesse vivendo num mundo diferente do nosso — talvez o mundo que viria depois.
Naquele ano, uma única vez nossos mundos colidiram. E mudou tudo.
Foi uma terça-feira à tarde. Eu tinha ficado depois da aula para terminar um projeto no laboratório de ciências. Quando saí, a escola estava vazia. O céu parecia ameaçar desabar, mas eu não tinha guarda-chuva. Apertei o passo. Estava quase na esquina quando eles surgiram — dois caras, encapuzados, nervosos, armados com mais do que palavras.
Um deles puxou minha mochila. O outro tentou me prender contra o muro. Meu grito morreu na garganta.
E então, do nada, ele apareceu. Noah.
Não lembro exatamente como aconteceu. Só lembro do som seco de um soco. Do grito de um dos agressores. Da forma como o corpo de Noah se movia com precisão violenta — como se tivesse sido treinado para aquilo. Em segundos, os dois estavam no chão, gemendo, e ele me segurava pelo braço, os olhos cravados nos meus como um aviso: não grita, não pergunta, só corre.
Corremos. Não parei nem quando minhas pernas queimaram. Só parei quando ele parou. Num beco, escuro, úmido, atrás da oficina do Sr. Moretti.
— Você tá bem? — ele perguntou. A voz grave, mas não fria. Havia algo nela... quebrado.
Assenti, sem conseguir falar. Meu coração parecia tentar sair pela boca.
Ele me encarou por um instante. Depois soltou meu braço como se tivesse se queimado. E desapareceu.
No dia seguinte, não foi à aula. Nem na semana seguinte. Nem nunca mais. O diretor anunciou que ele havia se transferido. Boatos correram soltos — prisão, gangue, reabilitação. Mas nada concreto.
Eu nunca soube a verdade.
Nunca soube por que ele me salvou.
Nunca soube o que viu em mim para arriscar.
Só soube que, desde aquele dia, minha vida ganhou rachaduras.
E agora, anos depois, sentada no sofá rasgado do que restou da nossa sala, rodeada por silêncio, lembrando dele, tudo parece voltar com uma nitidez assustadora.
A chuva não caiu mais depois de julho.
As prateleiras do mercado esvaziaram em dias.
A energia foi cortada.
A internet virou uma lenda.
A comunicação entre cidades, um sussurro de rádio que ninguém mais consegue captar.
Faz seis meses que o céu está seco. E meu corpo também.
Mas algo mudou hoje.
Pela primeira vez em semanas, ouvi passos além dos meus. Pesados, decididos, não os arrastados dos infectados, nem os furtivos dos saqueadores.
Foi um som antigo. Um som humano.
Me levantei devagar, pegando o canivete do meu pai. Não é muito, mas é o que tenho. O som veio da direção da antiga drogaria. Pela fresta da janela quebrada, vi uma sombra.
Alta.
Ampla.
E então ele entrou na luz.
Meu coração parou.
Noah.
Não como eu lembrava.
Mais forte. Mais duro. Os traços do rosto esculpidos pela dor. A barba por fazer. Os cabelos mais longos, presos num nó improvisado. As roupas em farrapos, mas seu corpo ainda carregava aquela presença. A presença de quem sobreviveu a coisas que não tem nome.
Ele não me viu. Ainda.
Mas eu vi.
E em meio à ruína, pela primeira vez em muito tempo, senti algo dentro de mim tremer.
Não era medo.
Era desejo.
Era fúria.
Era o que ficou suspenso por todos esses anos.
Porque mesmo com o mundo em colapso, algumas histórias ainda exigem seu desfecho.
E a nossa... A nossa começou no fim.