Capítulo 2 – A Primeira Ruína

1045 Palavras
Noah O som dos meus próprios passos me irrita. Ecoa demais. Essa cidade morreu e esqueceu de se enterrar. As fachadas estão apodrecendo. Os postes pendem como cadáveres suspensos, e o asfalto fede a ferrugem e desespero. O ar está parado, denso, como se o tempo tivesse prendido a respiração e não soubesse se devia continuar. Caminho por instinto. Sempre por instinto. O rastro do que fui, do que fiz, do que perdi, está cravado em mim como um ferrão. Você não sobrevive ao fim do mundo sendo bom. Você sobrevive sendo mais rápido, mais c***l, mais disposto a perder o pouco de humanidade que ainda tem. Eu perdi a minha há muito tempo. Ou talvez nunca tenha tido. O armazém surge como uma cicatriz no horizonte. As portas estão semiabertas, rangendo com o vento fraco. Não espero encontrar nada útil. Mas entre a fome e a solidão, às vezes a busca é só um lembrete de que estou vivo. Meu canivete está na mão. Sempre está. E a arma presa na cintura. Aprendi cedo demais que confiar no silêncio é pedir pra morrer. Entro. Poeira. Restos de caixas destruídas. Vidros no chão. Rastros de sangue seco. Nada novo. Nada que me abale. E então eu vejo. Movimento. Rápido. Preciso. Instinto. Corpo agachado. Silhueta conhecida. Ombros finos. Postura defensiva. Mãos firmes demais para alguém fraco. E olhos. Olhos que eu nunca esqueci. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois de me convencer que esquecer era questão de sobrevivência. Lia. O nome dela me atravessa como uma faca. Ela não mudou. Mas ao mesmo tempo... mudou sim. O rosto está mais maduro, menos suave, mas ainda tem aquela expressão de silêncio que sempre me intrigou. Como se pensasse mais do que dizia. Como se escondesse coisas que ninguém nunca se deu o trabalho de procurar. Ela me vê. Congela. E por um segundo, só existe aquilo: o espaço entre nós. Repleto de tudo o que não dissemos, do que deixamos quebrar, do que nunca começou, mas queimava mesmo assim. — Noah? — a voz dela é baixa, como se o som fosse sagrado demais pra profanar o momento. Não sei o que esperava. Uma arma apontada? Um grito? Talvez o silêncio. Mas ela fala meu nome como se ele ainda tivesse importância. Como se eu ainda fosse alguém. — Lia. — respondo. Minha voz soa diferente. Raspada. Crua. Cheia de coisas que não cabem num nome. Ela se afasta meio passo. Mas não é medo. É reação. Um instinto entre fuga e sobrevivência. Eu reconheço — já vivi isso. — Achei que estivesse morto. — ela diz. — Estive. — respondo. Por dentro, sim. Por fora... bem, isso depende do dia. Ela me observa com cuidado, os olhos vasculhando cada pedaço meu. Como se tentasse entender no que me transformei. Como se procurasse o garoto que conheceu — ou que achou que conhecia. Mas ele não existe mais. — O que você está fazendo aqui? — ela pergunta. — Procurando por comida. Ou respostas. Tanto faz. — dou de ombros. Mentira. Eu só andava. Só vagava. Não tinha direção, não tinha objetivo. Até agora. Ela abaixa o canivete. Não completamente. O bastante pra dizer que não vai me atacar, mas não o suficiente pra esquecer onde estamos. É esperta. Sempre foi. — Você está sozinho? — ela pergunta. Engraçado. Essa pergunta dói mais que qualquer facada. — Sempre estive. — respondo. Mentira de novo. Já tive gente. Já tive um lar, ainda que instável. Já tive uma irmã. Um grupo. Um erro. Todos mortos agora. Porque eu não soube protegê-los. Porque eu sou uma praga. Onde chego, tudo cai. Ela engole em seco. E por um momento o ar pesa entre nós. Ela se vira e começa a remexer umas caixas. — Tem uma lata de feijão quase cheia. — diz. — Posso dividir. Dividir. Depois de tudo. Depois de anos. Depois de desaparecer sem uma palavra. Ela ainda oferece comida. Por isso ela sempre foi perigosa pra mim. Ela faz eu querer ser alguém que eu nunca consegui ser. Me aproximo devagar. Não por desconfiança. Mas porque meu corpo aprendeu a não ocupar espaços demais. A não invadir. A não permanecer. — Obrigado. — digo. Ela se senta no chão, cruzando as pernas, e abre a lata com uma faca cega. O cheiro é horrível. Mas é comida. Sento ao lado dela. Distância segura. Segura o bastante pra fingir que não importa. Curta o bastante pra me torturar. — Você sumiu. — ela diz, encarando a lata. — Tive que sumir. — respondo. Ela vira o rosto e me olha. — Você me salvou... e depois fingiu que eu não existia. Sinto a lâmina dessa frase me cortar por dentro. Mas eu mereço. E ela tem razão. — Se eu tivesse ficado, teria te destruído junto. — murmuro. Ela balança a cabeça, um sorrisinho irônico nos lábios rachados. — E acha que o mundo fez melhor? Boa. Essa doeu. Ela me passa metade da lata. Comemos em silêncio. O tipo de silêncio que carrega peso demais. Me pego observando as mãos dela. Os dedos com pequenos cortes. As unhas curtas. A pele firme. É a mão de alguém que lutou. Que resistiu. Que não se rendeu. E eu me odeio por achar bonito. — Onde está ficando? — ela pergunta, ainda sem me encarar. — Um porão. Três ruas daqui. Seguro por enquanto. Ela assente. Silêncio de novo. Até que ela suspira. — Eu pensei em você. Todos esses anos. — Devia ter me esquecido. — digo. Ela finalmente vira e me encara. — Não consegui. E isso... Isso me desmonta. Por que não conseguiu? Por que eu? Eu sou só o garoto que desapareceu no beco. O homem que não conseguiu salvar ninguém. A ruína antes da ruína. — Lia... — minha voz falha. Ela se levanta. — Tenho um lugar também. Um andar de cima, atrás de um ferro-velho. Seguro o bastante. Você pode vir, se quiser. Só hoje. Eu a olho. Ela não está oferecendo abrigo. Ela está oferecendo uma chance. Uma chance de consertar. Ou destruir de vez. — Eu vou. — digo. E ela assente. Sem sorriso. Sem promessa. Só aquele olhar. Aquele maldito olhar que ainda me faz sentir humano.
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