Capítulo 3 – Abrigo de Carne e Ferro

1136 Palavras
Lia Noah anda como se fizesse parte da própria ruína. Silencioso, letal, atento. Como se estivesse pronto para matar ou morrer — e talvez não se importasse com qual dos dois viesse primeiro. Ele caminha alguns passos à frente de mim. Nunca muito distante, nunca perto demais. Como se o espaço entre nós fosse uma zona neutra, um terreno minado entre o passado e o presente. À nossa volta, o mundo continua desabando. Um sussurro de aço retorcido, fumaça estagnada e o som metálico do vento cortando escombros. — Estamos quase lá — aviso, com a voz mais firme do que me sinto. Ele só assente com a cabeça. Não fala muito. Nunca falou. Mas mesmo o silêncio dele é barulhento. Pesa. Ressoa em mim com uma frequência estranha, quase... íntima. O abrigo fica no topo de um antigo ferro-velho, escondido atrás de placas de alumínio e carcaças de carros fundidos pelo tempo. Um improviso que se tornou refúgio. Não é bonito, nem confortável. Mas é o que tenho. E mais do que isso — é meu. Quando empurro a porta de ferro para que ele entre, algo dentro de mim hesita. É e******o. Mas é real. Esse lugar nunca teve outro corpo além do meu. Nunca teve outro cheiro. Outro som de respiração. Mas agora tem. Agora tem ele. Noah entra sem dizer uma palavra, os olhos varrendo o cômodo como se esperasse emboscadas nos cantos. É automático, animal. O instinto de quem aprendeu a sobreviver na base do trauma. E eu reconheço esse tipo de olhar porque... eu também carrego um. A diferença é que o dele é mais escuro. O meu tem rachaduras. O dele é blindado. — Você pode se sentar ali. — aponto para o velho sofá encostado na parede. — Ele ainda aguenta meio corpo sem afundar. Ele dá um meio sorriso. Raro. Dolorido. E perigoso. Aquele sorriso não foi feito pra acalmar. Foi feito pra me desarmar. E funciona. Ele se senta, o corpo grande ocupando espaço demais. Os ombros largos, os músculos tensos sob o tecido rasgado da camisa preta. As mãos entrelaçadas, com cicatrizes que contam histórias que ele provavelmente nunca vai dividir. Vejo os olhos dele pousarem em mim. Por um segundo — apenas um segundo — ele me olha como homem olha mulher. Não como sobrevivente vê outra alma perdida. Mas como um homem faminto por algo que ainda não entende. E minha pele responde. Como se reconhecesse nele algo que me pertence. Ou algo que sempre desejei pertencer. Eu me odeio por isso. Mas não consigo evitar. — Eu não trouxe você aqui por pena. — aviso. — Eu sei. — ele responde. — Você nunca foi movida por pena. Sempre foi fogo quieto. Engulo em seco. Ele se lembra. De mim. De como eu era. De como fingia não notar quando ele passava pela escola, os olhos perdidos, o corpo todo dizendo "não se aproxime". Eu via. Eu sentia. E queria, mesmo sem saber o que exatamente queria dele. Agora eu sei. Mas o querer não é mais simples. Não depois de tudo que o mundo quebrou em nós. — Por que sumiu? — pergunto, sabendo que talvez a pergunta seja uma faca. Ele abaixa os olhos. E quando fala, a voz é baixa, grave. Arranhada como se cada palavra fosse feita de areia. — Porque se eu ficasse, teria te puxado pro mesmo inferno que me engoliu. — E você acha que isso me impediu de cair? — rebato, sem raiva. Só dor. — O mundo caiu com ou sem você, Noah. Silêncio. Ele passa a mão pelos cabelos, soltos agora, selvagens como ele. E por um momento, deixa transparecer uma exaustão que não tem a ver com cansaço físico. É outra coisa. Um peso na alma. E eu quero tocá-lo. Não com pena. Com necessidade. Quero saber se ele ainda é real. — Você matou alguém? — pergunto, a voz mais baixa que gostaria. Ele não reage. Não se choca. Só me olha. Os olhos negros. Profundos. Perigosos. — Já matei por necessidade. — diz. — E por vingança. — E dorme com isso? — Não durmo. — responde. A resposta me corta. Porque carrega verdade. E porque, no fundo, entendo. Não há sono leve depois do colapso. Só pesadelos acordados. Me aproximo devagar, sentando na cadeira enferrujada que fica diante dele. O vento lá fora sopra com um gemido grave. Parece que até o mundo segura o fôlego. — Você mudou. — digo. Ele sorri, mas o sorriso é sombrio. — Você não. — Eu mudei sim. — rebato. — Mas continuo tentando fingir que ainda sou humana. — Isso é o que te faz diferente, Lia. Meu nome na boca dele soa como pecado. Como oração. Como promessa. — E você? — pergunto. — Ainda sente? — Sinto demais. E é isso que me destrói. O silêncio volta. Mas não é mais vazio. Agora está cheio de nós. De tudo que queremos dizer e não sabemos como. De tudo que queremos fazer... e ainda não temos coragem. Meu olhar cai para as mãos dele. Grandes. Fortes. Marcadas. Mãos que poderiam destruir. Ou salvar. Ou ambos. — Você quer ficar aqui? — pergunto. — Mais do que hoje? Ele ergue os olhos. Me encara como se tentasse entender até onde pode ir. — Se eu ficar, você vai aguentar quem eu sou agora? — Vai depender se você ainda tem algo do garoto que me salvou naquela noite. Ele não responde. Mas os olhos dizem mais do que qualquer palavra. Ele ainda está lá. Enterrado. Mas vivo. E talvez seja por isso que meu corpo se incline para frente. Que meus dedos toquem de leve os dele. Que minha respiração se altere quando ele não recua. Ele fecha a mão sobre a minha. E o toque é simples. Mas devastador. Porque é carne. É calor. É vida. E depois de tanto tempo de gelo por dentro... isso é tudo. — Você não precisa fingir força comigo. — digo. — Não estou fingindo. Estou me segurando. E quando ele diz isso, a tensão entre nós se torna quase insuportável. Mas eu não cedo. Ainda não. Ainda é cedo demais. Ou tarde demais. — Tem um colchão ali no canto. — digo, me afastando devagar. — É seu por hoje. Se quiser ficar mais... a gente vê depois. Ele assente. Mas antes que eu possa sair do cômodo, ele fala: — Lia? — Sim? — Obrigado. Por não me tratar como um monstro. Respiro fundo. — Ainda estou decidindo o que você é. E fecho a porta atrás de mim. Com o coração batendo como se eu ainda acreditasse que isso — nós dois, nesse abrigo de carne e ferro — possa ser o início de alguma salvação. Ou a queda final.
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