Noah
O colchão fede a mofo e abandono. A parede atrás das minhas costas descasca como uma pele doente, e o vento entra por frestas invisíveis, cortando como lâminas finas.
Mas é o melhor lugar onde já dormi em meses.
Não por conforto. Mas porque, do outro lado da porta, está ela. E isso muda tudo. Ou piora tudo.
Lia. Ela me olha como se eu ainda tivesse salvação. Como se o garoto que a tirou daquele beco ainda vivesse aqui dentro.
Mas ele morreu. No exato momento em que pisei no barracão da milícia e deixei que me marcassem. Não com tatuagens. Mas com ordens. Com armas. Com sangue.
A noite está escura demais para o que resta do mundo. A lua não apareceu, e os sons lá fora não são mais os de animais — são os de homens perdidos demais para voltar.
E eu estou a poucos passos deles.
Mas Lia... Lia tem cheiro de fogo calmo. Tem olhos que veem o que ninguém mais vê. E é por isso que eu preciso manter distância.
Porque se eu tocar nela... Se eu ceder...
Eu destruo.
Eu tinha dezessete anos quando entrei para eles.
Não por escolha.
Por sobrevivência.
Depois de desaparecer daquela escola, depois de deixá-la com os olhos arregalados e as mãos tremendo, eu fui direto para o único lugar onde não precisava explicar meus impulsos violentos: os Barracos.
Chamavam assim o acampamento da milícia que controlava o setor sul da cidade. Metade bandidos, metade patriotas fracassados, todos armados e famintos por controle.
Eu era só mais um garoto com raiva demais e amor de menos.
Eles me ensinaram a atirar. A desmembrar corpos. A interrogar sem sujar as mãos. A matar com eficiência.
E eu fui bom. Rápido. Letal.
Eles me chamavam de o Silêncio. Porque eu não falava. Eu apenas fazia.
Mas em cada rosto que caía sob minhas mãos, Lia aparecia na minha cabeça. Lia olhando para mim no beco. Lia me vendo não como um monstro, mas como alguém.
E por isso... eu fugi. Na primeira chance. Roubei munição, dois pacotes de suprimentos e desapareci.
Deixei corpos para trás. E uma sentença de morte se me encontrassem.
Desde então, nunca parei. Cidade após cidade. Grupo após grupo. Perdendo tudo. Até me tornar o que sou agora: Um fantasma com cicatrizes demais pra merecer outra chance.
Mas agora tem ela.
E ela me faz sentir demais.
Eu ouço passos leves no cômodo ao lado. Ela acordou. E, por Deus, eu sei que não deveria, mas... me levanto.
Saio sem fazer barulho. Meus pés descalços no chão de cimento gelado. Me aproximo da porta entreaberta e vejo.
Lia está sentada no chão, com as pernas dobradas, um cobertor jogado sobre os ombros. O rosto iluminado por uma vela quase consumida. E ela está chorando.
Silenciosamente. Como quem aprendeu que o som é um convite ao perigo.
Meu peito aperta. Não pelo choro. Mas porque sei como é engolir dor com a garganta seca.
— Lia — chamo, a voz saindo antes que eu possa impedi-la.
Ela ergue os olhos, rápido. Surpresa. Mas não assustada.
— Você devia estar dormindo — diz, limpando o rosto com o dorso da mão.
— Não consigo. Não com você aqui... assim.
Ela hesita. Depois suspira.
— Pesadelos.
Assinto. Me aproximo devagar e me sento ao lado dela. A vela tremula. E o silêncio entre nós é diferente do de antes. Não é tenso. É íntimo.
— Quer me contar? — pergunto.
Ela balança a cabeça.
— Todos estão mortos. Meu pai, minha prima, até o cachorro... Eu tento lembrar do som da risada deles, mas só ouço gritos agora. — Ela ri, um som sem humor. — Eu me odeio por isso. Por esquecer as coisas boas.
— Você não esqueceu — digo. — Elas só estão escondidas atrás do trauma.
Ela me olha. Longo. Profundo.
— E você? O que esconde?
Ah, Lia...
Tudo.
Mas agora não posso mentir.
— Eu matei por raiva. Por prazer. Por ordem. — Minha voz falha. — E cada vez que fazia isso, pensava em você. No que você veria em mim se soubesse.
Ela não recua.
Não grita.
Não chora.
Ela estica a mão.
E toca o meu rosto.
Um gesto simples.
Mas eu estremeço.
— E o que vejo agora? — ela pergunta.
Engulo em seco. Seguro o pulso dela.
— Um homem que está tentando se lembrar como não destruir tudo que toca.
Ela sorri. Mas não é alegria. É dor.
— Talvez eu seja mais forte do que você pensa, Noah.
E eu quero acreditar.
Quero.
Mas quando encosto minha testa na dela, quando fecho os olhos e inspiro o cheiro da sua pele, percebo que a maior ameaça aqui... sou eu.
Minha boca encontra a dela sem pedir.
Ela não recua.
Ela se entrega.
E o beijo é tudo o que o mundo não é mais: quente, verdadeiro, vivo.
Mas eu quebro primeiro.
Me afasto. Levanto. Ando até a parede oposta, com os punhos cerrados.
— Você não entende, Lia... Eu não posso...
— Não pode ou não quer?
— Eu fui treinado para matar. Para apagar sentimentos. Eu sou veneno. E você... — viro pra ela, com os olhos ardendo — você é a única coisa que ainda me faz sentir como homem. E por isso, eu não posso ter você.
Ela se levanta.
Caminha até mim.
— Então não me tenha. Mas não me empurre. Porque se tem uma coisa que aprendi nesse mundo quebrado... é que a dor só vale a pena quando você decide com quem vai senti-la.
Fico sem palavras.
Sem defesas.
E então ela me abraça.
Não como quem consola.
Mas como quem escolhe.
E eu... Eu deixo.
Por uma noite. Por um instante.
Porque o inverno lá fora pode ter levado tudo... Mas aqui dentro, com ela... Talvez, só talvez, ainda reste algo a ser salvo.