Lia
O céu escurece de um jeito que não é natural. É denso. Grosso. Radioativo. Tem cheiro de metal queimado e morte.
Noah para de andar primeiro. Ele ergue o rosto como um animal selvagem captando o perigo antes de nós, humanos, percebermos. Ele fareja o ar, observa o horizonte e diz: — Vai cair uma tempestade.
Eu já sabia. Meu corpo também sabia. Minhas entranhas se reviravam desde manhã, o tipo de presságio que aprendi a não ignorar. Mas ouvir isso dele, em voz baixa e tensa, é como um selo de alerta cravado na pele.
— Quanto tempo a gente tem? — pergunto.
Ele olha em volta. Ruas vazias, telhados partidos, prédios que já não são prédios. Só carcaças.
— Minutos. No máximo.
Corremos.
Ele me puxa pela mão, e o toque é firme. Quente. Como se, por um instante, nada mais existisse além dos nossos corpos tentando escapar do que vem atrás.
O céu abre com um rugido.
Relâmpagos não brilham mais. Eles explodem.
E a chuva que cai agora não é água. É dor líquida. Goteja ácido. Queima onde toca.
Encontramos abrigo numa casa despedaçada no fim da rua. Uma antiga construção com as janelas estouradas, móveis virados e memórias espalhadas pelo chão. Mas o teto ainda está inteiro. E isso basta.
Trancamos o que podemos. Nos encolhemos no canto da antiga sala de estar, o cheiro de mofo misturado ao ozônio lá fora.
Noah está suado. Ofegante. Perfeito.
E eu odeio o que sinto por ele.
Porque não deveria querer alguém que se esconde atrás da própria escuridão. Não quando o mundo lá fora tenta me matar todos os dias. Não quando qualquer fraqueza pode ser a última.
Mas mesmo assim... Eu quero.
Ele senta no chão, encostado na parede. Os olhos fechados. Os braços cruzados. Como se o simples fato de respirar fosse uma escolha difícil.
— Já passou por isso antes? — pergunto.
Ele abre os olhos, devagar. Me encara. E assente.
— Três vezes. Da última vez, vi uma mulher desmanchar a pele aos poucos tentando atravessar sem proteção. Ela gritava, mas não havia ninguém pra salvar. Só eu. E eu não fiz nada.
Engulo o nó na garganta.
Ele continua.
— Aprendi que, às vezes, salvar alguém significa dar um tiro. Rápido. Limpo. Antes que a dor consuma tudo.
Ficamos em silêncio.
A chuva bate no telhado com força. Estilhaça o mundo lá fora em respingos venenosos. Mas aqui dentro... há calor.
Há ele.
— Você nunca foi um monstro pra mim. — digo.
Ele vira o rosto pra mim. Confuso.
— Mesmo quando você desapareceu. Mesmo quando boatos diziam que tinha sido preso. Ou que estava em uma gangue. Ou morto. Eu... — paro. Inspiro. Solto. — Eu ainda pensava em você.
Ele não fala.
Então eu continuo.
— Quando a escola virou um deserto emocional, você era a única coisa que fazia meu coração acelerar. Eu não te conhecia, mas observava. Os desenhos rabiscados no canto das suas folhas. O jeito como você fechava os olhos quando o professor gritava. E... o modo como andava. Sempre como se carregasse algo muito maior que os próprios passos.
Meus olhos ardem, mas não paro.
— Eu sabia que você não era comum. E, Deus, como eu odiava ser invisível pra você.
Ele se levanta de onde está e caminha até mim.
Me encara de cima, com aquele olhar que parece esculpir.
— Você nunca foi invisível, Lia. Eu só... não podia olhar. Se eu olhasse, eu ia querer. E se eu quisesse, eu ia tomar. E se eu tomasse, eu não ia devolver.
Meus pulmões falham.
Ele se ajoelha.
— Eu via você todos os dias. Quietinha no fundo da sala, com aquele caderno cheio de poemas que você achava que ninguém lia. Eu lia. Toda vez que você deixava escapar uma página, eu via.
Ele se aproxima.
— Você era minha fantasia. A única coisa limpa que eu não podia sujar.
— E agora? — sussurro. — Você ainda quer?
— Você não faz ideia.
E então ele me beija.
Não é gentil.
Não é lento.
É fome. É dor.
É desejo empilhado em anos de silêncio e renúncia.
Minha boca responde como se sempre tivesse sido feita pra ele. Minhas mãos encontram os ombros dele, o calor, a firmeza. E meu corpo... Meu corpo diz sim antes que minha mente tente impedir.
Ele me puxa para o colo. Me encaixo como se já soubesse o lugar. E por minutos — longos, febris, absurdos — eu esqueço que o mundo lá fora está em ruínas. Que temos sangue nas mãos. Que não existe amanhã garantido.
Porque ele está aqui.
E agora.
E eu nunca me senti mais viva.
Ele quebra o beijo, ofegante. Suado. Ardendo.
— Se eu te tocar de verdade, não volto atrás.
— Então não volta.
Ele encosta a testa na minha.
— Eu tenho cicatrizes que não cicatrizaram.
— Então me deixa tocá-las.
Ele me beija de novo.
E cada parte minha grita por mais.
Mas então o vento uiva mais forte. E a parede estremece.
A realidade volta com gosto de ferro.
A tempestade ainda não passou.
A guerra lá fora não espera paixões.
Ele me segura pelos ombros.
— Não aqui. Não assim. Você merece mais do que pressa entre paredes quebradas.
Sorrio, sem humor.
— Acha mesmo que vai haver um "depois", Noah?
— Vou fazer haver.
E, por algum motivo e******o e maravilhoso, eu acredito.
Ele me ajuda a levantar.
A gente se abraça no canto mais seco da casa.
E, enquanto a chuva tóxica consome o que sobrou lá fora, aqui dentro duas almas quebradas encontraram, por um segundo, algo parecido com abrigo.
Algo parecido com amor.