Lia
Ele foge até quando fica.
É um dom dele — desaparecer mesmo estando diante de mim. Pode estar com os olhos fixos nos meus, com o corpo colado no meu, com a respiração pesada contra minha pele… e ainda assim, estar a milhas de distância.
Noah se esconde debaixo das próprias ruínas. Como se estivesse convencido de que me poupar da verdade fosse uma forma de me amar. Mas amar em silêncio também é uma forma de covardia.
E eu estou cansada de correr atrás de fantasmas quando o mundo já virou um cemitério.
A noite cai sem promessa de amanhã. Lá fora, o céu desabou num manto opaco, sem estrelas, sem lua. Aqui dentro, a tensão entre nós se arrasta como fumaça presa num quarto fechado. E o silêncio... esse maldito silêncio entre nós... virou uma prisão.
Eu me levanto da cama improvisada e caminho até ele. Noah está sentado no chão, desmontando uma arma como se ela fosse a única coisa no mundo capaz de entendê-lo. Como se as peças frias de ferro fossem mais confiáveis que minha pele quente, minha boca entreaberta, meu amor não dito.
— A gente precisa conversar. — digo.
Ele não levanta os olhos. Continua girando o tambor do revólver com precisão obsessiva.
— Agora não, Lia.
— Agora sim. Eu não vou continuar me deitando ao lado de alguém que dorme com o corpo, mas me evita com a alma.
Ele para.
A tensão em seus ombros denuncia tudo o que ele não diz.
— Você me olha como se me amasse. — continuo, dando um passo à frente. — Me toca como se precisasse de mim. Mas depois... depois se cala como se eu fosse só um erro de cálculo no seu plano de sobrevivência.
— Não é isso. — ele responde, sem firmeza.
— Então o que é, Noah? Fala. Me dá algo além desse silêncio.
Ele solta a arma com um suspiro. E, finalmente, me olha.
Aquele olhar. c***l de tão honesto. Quase me faz recuar. Quase.
— Eu tenho medo de você me amar, Lia. — Por quê?
Ele se levanta. Caminha em círculos. Como uma fera em conflito entre atacar ou fugir.
— Porque quando alguém me ama, morre.
Aquilo entra em mim como um estilhaço. Mas eu não desvio.
— Eu estou aqui. Ainda viva. Ainda com você. E não importa quantos monstros vivam dentro de você, eu os conheço. Eu os reconheço.
— Você não entende. — ele diz, a voz falhando. — Eu carrego gente morta nos ombros. Gente que confiei, que me confiou. Eu não sei amar sem ferir.
— Então aprende. Aprende comigo. Com isso que temos. Porque se você acha que pode continuar me tocando como toca e depois se esconder, você está enganado.
Ele fecha os olhos.
— Eu não queria te amar. Mas eu amo.
As palavras saem como um soco. Secas. Partidas. Verdadeiras.
— Eu amo você, Lia. E isso me destrói. Porque você me vê. E eu... eu nunca fui visto sem ser odiado depois.
Meus olhos ardem. Mas não choro.
Ele está tremendo. E então... ele desmorona.
O corpo grande e forte escorrega até o chão. Os cotovelos apoiados nos joelhos. O rosto nas mãos. Os ombros tremendo com o esforço de não quebrar. Mas ele quebra mesmo assim.
E eu vou até ele.
Ajoelho. Abraço. Envolvo. E ele chora. No meu colo. No meu peito. Pela primeira vez.
As lágrimas dele queimam minha pele como confissão.
— Você não precisa ser forte o tempo todo. — sussurro, beijando o topo da cabeça dele. — Não comigo.
Ele levanta o rosto. Os olhos vermelhos. O rosto molhado.
— Eu sou quebrado, Lia.
— Então quebra comigo. E depois a gente junta os pedaços.
Ele me puxa.
O beijo é desesperado. Feroz. Não há delicadeza. Só necessidade.
Suas mãos arrancam minha camisa com pressa. Meus dedos abrem os botões da calça dele com fúria. Não somos cuidadosos. Somos vorazes.
Ele me joga no colchão e se deita sobre mim. Seu corpo pesado. Firme. Perfeito.
Quando ele entra em mim, é como se tudo finalmente fizesse sentido.
— Você é minha redenção e minha perdição. — ele sussurra contra meu pescoço.
Meus dedos cravam nas costas dele enquanto nossos corpos se movem num ritmo primitivo. Não há medo. Não há contenção.
Só nós.
Os gemidos dele se misturam aos meus.
Suor. Pele. Dentes. Unhas. Tudo é misturado. Como se o fim do mundo estivesse lá fora e o paraíso estivesse aqui, entre nossos corpos.
Ele me leva ao limite.
E eu o levo ao colapso.
Gozamos juntos. Fortes. Intensos. Como se fosse a primeira. Como se fosse a última.
Ele me segura como se estivesse se afogando.
E eu me entrego como se não houvesse amanhã.
Porque talvez não haja.
Mas esta noite, nesta cama maldita, neste quarto escuro, neste mundo quebrado... Ele é meu.
E eu sou dele.
Com todas as verdades.
Com todas as dores.
Com todas as cicatrizes.