LOUISE BIANCHI
Estamos em total silêncio. Papai não olha para mim e Lucca parece perdido, até que a mamãe finalmente quebra o silêncio constrangedor.
CECÍLIA: Tudo ocorreu perfeitamente bem. Amélia é uma mulher incrível; você, minha querida, terá uma sogra maravilhosa, e isso é bem raro. Nem todas nós tivemos essa sorte.
Mamãe deixa esse comentário no ar e eu me questiono se ela e a vovó se davam bem. Minha cabeça vai explodir; há tanta coisa que não sei sobre a minha própria família que nem sei mais o que é verdade ou mentira. Desejo boa noite a todos sem muita vontade. Ainda estou aérea; hoje, literalmente, foi um dia de muitas emoções.
Tomo um banho bem demorado — meu corpo precisava relaxar — coloco um pijama confortável e me deito. Tudo o que ocorreu hoje me vem à mente como um filme acelerado, até que pego no sono.
Acordo com tanta dor de cabeça que chego a ficar m*l-humorada. Faço minhas higienes e desço para tomar café. Preciso resolver as coisas da faculdade; não posso simplesmente abandonar o curso, então preciso trancar para reabrir na hora certa. Encontro apenas a mamãe na mesa, tomando chá como se nada tivesse acontecido. Ela tem uma paz estampada no rosto que chega a me dar inveja. Desejo bom dia, pego uma maçã e aviso que estou de saída. Ela concorda, desejando-me um ótimo dia. Vou direto para a faculdade e dou de cara com Helena, que já me espera na entrada com aquela cara de quem vai perguntar tudo e um pouco mais.
HELENA: LOUISEEE!
Tomo o maior susto com ela gritando. Que mulher maluca!
— Bom dia para você também, Helena.
HELENA: Bom dia, Lou! E aí, amiga, como você está? E, se me permite o comentário: que Deus grego é o seu futuro marido! Você estará muito bem servida. Aquela cara de mau... uau, adorei!
Ela fala tudo tão rápido que demoro a assimilar.
— Ai, Helena, minha vida deu uma reviravolta. Vivi uma mentira, e o pior é que só eu vivia nela. Isso me deixa tão magoada... sabe? Eles me trataram como se eu não tivesse maturidade para entender esse mundo. E, sobre o meu marido, pelo que vi ontem, vamos nos dar super bem — para não dizer o contrário. Ele gosta de controlar as coisas e as pessoas ao redor dele, e eu detesto ser controlada. Não sei como essa loucura vai ser...
HELENA: Ai, Lou, eu imagino. Deve ser horrível se sentir enganada. Eu sinto muito, saiba que estou aqui para tudo o que precisar.
— Obrigada, amiga. Estou tão confusa! Eu idealizei minha vida baseada na dos meus pais, que eu julgava serem o casal mais apaixonado, e descubro da pior forma possível que o meu pai tem uma amante há anos e, pior, que a minha mãe sempre soube. No final das contas, meus pais são como qualquer outro casal da máfia.
Choro abraçada à minha amiga; ela não fala nada, apenas me abraça.
HELENA: Vamos, Lou, a aula vai começar. E hoje é a aula do professor bonitão.
Solto uma gargalhada sincera com o comentário.
— Ai, Lena, só você mesmo. Te amo, amiga.
Chegamos atrasadas e Helena reclama por ter perdido o início da explicação. Depois da aula, fomos almoçar no nosso restaurante favorito e passamos a tarde juntas. Eu nem sabia que estava precisando tanto disso. Agora estou me arrumando, pois deixei ser convencida pela Helena a ir a uma boate nova que inaugurou na cidade.
— Ai, Helena, já estou me arrependendo de ter vindo. Olha como esse lugar está lotado!
HELENA: Relaxa, Lou, a gente vai ficar no camarote.
— Camarote de quem, Helena? Você não me disse nada de camarote!
HELENA: Relaxa, gata, está tudo sob controle.
Meu Deus, já vi que vou me arrepender, mas já que estou aqui, vou aproveitar. Depois de casada, não sei quando verei a Helena de novo.
HELENA: Vem, Lou, vamos subir.
Chegamos ao camarote e Helena me apresenta um amigo, Luigi. Ele é bem bonito, embora nada comparado ao Caio.
LUIGI: Uau, gata, como você está linda! E quem é a gata com você?
HELENA: Luigi, essa é a Louise. Ela vai se casar daqui a algumas semanas, e hoje é a despedida de solteira dela.
LUIGI: Uhul! Deixa comigo, gata.
Luigi chama o garçom e pede três doses de vodca. Viramos tudo de uma vez e Helena me puxa para a pista de dança lá embaixo. Passamos horas dançando e bebendo; minha cabeça estava girando, eu estava suada e meus pés doíam bastante.
— Helena, vou ao bar pegar água. Você quer alguma coisa?
HELENA: Sim, quero um Campari.
— Tá bom, já volto.
Chego ao bar, peço minha água e a bebida da Lena, quando ouço aquela voz maravilhosa.
CAIO: Essa bebida é meio forte, não acha?
Tomo um susto com a voz tão perto do meu ouvido, mas logo lembro a quem ela pertence.
— Não sei, nunca bebi. Agora, se me der licença, minha amiga está me esperando.
Saio dali sem olhar para trás.
— Helena, temos que ir embora.
HELENA: O quê? Por quê? Chegamos não tem nem quatro horas, Lou! Bebe mais um pouquinho que a vontade de ir embora passa.
— Helena, o Caio está aqui.
HELENA: Que Caio, Lou?
— Caio Santoro, meu futuro marido.
Agora finalmente consigo a atenção dela.
HELENA: p**a merda, ele te viu?
— Sim, e falou comigo com aquela voz maravilhosa, mas a cara dele não estava das melhores.
HELENA: Vamos logo! Vamos pedir um táxi, amanhã peço para o Luigi buscar o meu carro.
Deixamos a boate e o táxi estava parado na porta. Assim que vou entrar, alguém me puxa e me joga por cima do ombro.
— Ei! Você está maluco? Eu estou de saia! Sou uma mulher comprometida, tira as suas mãos de mim!
Ele me joga no banco de trás do carro, segura no meu queixo e fala:
CAIO: Não parecia comprometida lá na pista de dança. Tenho certeza que, se eu me esforçasse só um pouquinho, daria para ver a p***a da sua calcinha.
Será que é uma boa hora para dizer que não estou usando calcinha? Melhor não. Deixa para lá.
Ele coloca o carro em movimento e não falamos mais nada até que durmo. Acordo com ele me tirando do carro e entrando comigo no elevador. Estou tão cansada que nem me dou ao trabalho de questionar onde estou.
— Ai, que água fria! Está querendo me matar?
CAIO: Vontade é o que não me falta. O seu pai deveria mantê-la controlada; bem que eu disse ao meu pai que você me traria problemas.
— Não te trouxe problema nenhum, senhor "gostosão". Você que veio atrás de mim! Agora me tira daqui, estou morrendo de frio.
CAIO: Isso só pode ser pagamento de dívida divina, não é possível...