CAIO SANTORO
— De onde você conhece a Maresa?
LOUISE: — Para quê, exatamente, você quer saber? Vai mudar alguma coisa no seu mundo de aparências? Você vai largá-la, por acaso? Não! Então, por que diabos insiste em saber de onde eu a conheço?
A frieza em sua voz é cortante, um contraste brutal com a entrega que tivemos horas antes. Sinto o sangue ferver, mas mantenho minha postura.
— Maresa tinha ordens expressas de minha parte para manter distância de você. Se ela teve a audácia de me desobedecer, pode ter certeza de que sofrerá as consequências.
LOUISE: — Não, Don, ela não te desobedeceu. Mas também não me importa o que você fará com ela, Caio. Eu só quero que você entenda uma coisa: eu só quero paz.
— Louise, eu nunca te fiz promessas de fidelidade. Deixei isso bem claro desde o primeiro momento. Nossa relação foi construída sobre um contrato, não sobre juras de amor.
LOUISE: — Caio, eu não estou te cobrando absolutamente nada. Até porque, quem vive fazendo ceninhas de ciúmes ridículas é você. Da minha parte, não te cobro um centavo de lealdade; deveria levar suas próprias palavras em consideração antes de falar de mim. Se não tiver nada mais importante a dizer, vou tomar um banho. Tenho uma aula para assistir.
Ela sobe as escadas com uma postura altiva, quase intocável, e eu a deixo ir. Não há nada a ganhar discutindo agora; a sede da máfia me aguarda, e os problemas lá são reais e letais.
ENZO: — Mais um carregamento foi interceptado. O terceiro este mês. Eles conhecem cada detalhe: a rota, o horário exato, a quantidade de homens na escolta. Entram e saem do nosso território como fantasmas. Não é preciso ser um gênio para entender o que está acontecendo aqui.
— Há um traidor infiltrado, Enzo. E eu estou bem na cola dele. Só preciso que esse infeliz dê um único passo em falso para eu arrancar a cabeça dele. Alguém quer nos derrubar, e eu vou descobrir quem é.
As horas na sede arrastam-se sob o peso da minha tensão. Quando olho para o relógio, já passam das nove. O caminho de volta para casa é silencioso. Ao entrar, o som de risadas vindo da sala de jantar me atinge como uma nota dissonante.
— Boa noite.
HELENA: — Boa noite, Caio.
LOUISE: — Boa noite. Não esperávamos que chegasse tão cedo, já jantamos.
— Sem problemas. Já jantei na sede. Obrigado.
Subo para o quarto, troco de roupa e me jogo na cama, exausto. O peso do meu comando é brutal. Acordo com o dia cinzento, a chuva batendo contra a janela num ritmo melancólico e frio. Decido ficar em casa. O pensamento divaga, mas logo a rotina me chama. Faço minha higiene e me preparo para suar na academia.
— Bom dia, Marina. A Louise já acordou?
MARINA: — Bom dia, senhor. Sim, ela está na academia.
— Obrigado.
Entro na sala de pesos e vejo a cena: ela está na esteira, com o corpo molhado de suor e o rosto corado pelo esforço físico. É uma imagem que me trava por um segundo.
— Bom dia.
Como ela está de fones, totalmente imersa, preciso tocar em seu ombro para que perceba minha presença.
LOUISE: — Ah, oi! Nem ouvi você chegar.
— O sono não veio?
LOUISE: — Tive uma insônia c***l. Passei a madrugada inteira em claro, com mil pensamentos na cabeça.
— Imagino. O clima lá fora está carregado, essa chuva parece não ter fim. Tem planos para o resto do dia?
LOUISE: — Sim, vou sair com as meninas. A Helena está na cidade, quero aproveitar cada minuto. Tem algo acontecendo na casa dela... algo que ela ainda não teve coragem de me revelar.
— Entendi. Aproveite bastante, então. Nunca se sabe quando teremos a chance de rever alguém importante novamente.
Ela me lança um olhar desconfiado, quase analítico. Louise não é boba; ela pescou que minhas palavras escondiam um aviso, algo mais profundo e sinistro.
O dia seguiu seu curso arrastado. Ela só retornou à noite. Jantamos em um silêncio denso, quase cortante.
— Está muito cansada?
LOUISE: — Não.
— Vem, vamos assistir a um filme. Tente relaxar.
Ela aceita, e nos acomodamos no sofá.
LOUISE: — Ah, fala sério, Caio? Filme de terror?
— O que foi? Não gosta ou tem medo?
LOUISE: — Os dois, mas vamos lá. Aceito o desafio.
Dou play. A cada susto, ela reage com uma vivacidade que chega a ser cativante, até que o silêncio assume o comando. Ela ficou quieta demais. Olho para o lado e vejo que o cansaço venceu; ela adormeceu profundamente. Com cuidado, desligo a TV, tomo-a nos braços — sentindo a leveza e o calor do seu corpo contra o meu — e a levo para o seu quarto. Cubro-a com carinho e volto para o meu refúgio.
Lá fora, a tempestade ruge com uma violência incomum, trovões estilhaçando o silêncio da noite. Estou quase entregue ao sono quando ouço um chamado trêmulo, quase um sussurro.
LOUISE: — Caio? Está acordado?
— Sim... O que houve?
LOUISE: — Não consigo dormir com esse barulho. Você se importaria... se eu ficasse aí essa noite?
— Não. A cama é vasta, Louise. Cabe para nós dois, sem problemas.
Ela se aproxima lentamente, deitando-se no limite do colchão, mantendo uma distância segura. Mas o cheiro suave do perfume dela me invade, tornando-se quase uma obsessão. Ela vira de costas, mas eu não resisto; estico o braço e a puxo para junto de mim. Ela se aninha, entregando-se ao calor dos meus braços. E assim, contra todas as nossas defesas, o sono nos consome.