Eduarda narrando
Não sei explicar exatamente o que foi, mas teve um momento, ali no meio daquela sala silenciosa, com o som baixo da televisão e os brinquedos espalhados pelo chão, que eu senti que tinha conquistado o Benjamim. Talvez tenha sido o jeito que ele riu quando eu fiz uma voz engraçada imitando um dos personagens do desenho, ou a forma como ele começou a me olhar com mais confiança, como se já me conhecesse há muito tempo.
A verdade é que eu também me senti leve. Pela primeira vez em dias, talvez semanas, minha cabeça não estava completamente afogada em preocupação. Eu só estava ali… presente.
Fiquei um bom tempo brincando com ele. Depois que brincamos na pista, Montamos blocos, desmontamos, inventamos histórias completamente sem sentido, e ele gargalhava de um jeito gostoso, inocente. Eu acompanhava, deixando o peso da minha própria vida do lado de fora daquela casa.
Até que, como toda criança, ele simplesmente cansou. Foi de repente. Um segundo antes ele ainda estava empolgado, no outro já estava mais quietinho, os movimentos mais lentos, o olhar meio sonolento. Eu sorri de lado, reconhecendo aquele sinal.
— Já cansou, pequeno? — perguntei, abaixando um pouco a voz.
Ele só assentiu, esfregando o olho.
Nós dois começamos a guardar os brinquedos juntos. Eu gostei disso nele. Mesmo pequeno, ele não fez birra, não reclamou. Só foi colocando tudo na caixa, com aquele cuidado meio desajeitado de criança.
Quando terminamos, eu fechei a tampa e entreguei pra ele.
— Leva direto pro seu quarto, tá bom? Pra não ficar bagunça aqui.
Ele concordou na mesma hora.
— Tá bom.
E saiu carregando a caixa, todo concentrado na missão.
Fiquei olhando ele ir, com um sorriso leve nos lábios. Era um menino bom. Dá pra ver.
Olhei rapidamente o relógio e percebi que já era quase hora do almoço. Suspirei, me levantando e indo até a cozinha.
Abri a geladeira já imaginando o que ia encontrar… e não deu outra. As marmitinhas. Todas organizadas, etiquetadas, separadas. Claramente aquilo ali fazia parte de uma rotina bem controlada. Peguei uma delas, analisando por um segundo antes de fechar a porta.
— Certo… vamos lá — murmurei pra mim mesma.
Coloquei a comida no prato com cuidado, tentando manter tudo do jeito mais apresentável possível, tinha bastante legumes, então fiz um desenho com os legumes no prato e levei até o micro-ondas. Enquanto o aparelho fazia aquele barulho baixo, eu encostei no balcão, pensando no quanto aquela casa era diferente da minha realidade.
Tudo ali era… perfeito demais. Organizado demais. Controlado demais.
O “bip” do micro-ondas me tirou dos pensamentos, mas antes que eu pudesse abrir, o Benjamim apareceu na sala de novo.
— Já voltou? — sorri.
— Uhum.
— Vem sentar pra comer.
Ele não discutiu. Só se aproximou e subiu na bancada, sentando e ficando me observando com atenção, como se cada movimento meu fosse interessante.
Peguei uma colher na gaveta, abri o micro-ondas e coloquei o prato na frente dele.
— Pronto.
Ele olhou pra comida e depois pra mim e sorriu como se estivesse satisfeito ao ver a comida.
— Quer suco? — perguntei.
— Quero — ele respondeu, animado — mas o papai faz no batedor…
Eu demorei um segundo pra entender.
— No… batedor?
Ele fez um gesto com a mão, meio girando.
— Aquele… que faz barulho.
— Ah! Liquidificador — falei, soltando uma risadinha.
Ele abriu um sorrisinho, como se tivesse explicado direitinho.
— Isso.
Assenti, indo até a geladeira pegar alguma fruta. Enquanto preparava o suco, uma preocupação começou a crescer na minha cabeça.
Açúcar. Será que ele podia?
Fiquei alguns segundos parada, segurando a colher, olhando pro copo ainda vazio.
— Ele não pode comer certas coisas… — murmurei.
Suspirei, tomando uma decisão. Melhor não arriscar.
Peguei o adoçante e coloquei algumas gotinhas. Misturei bem e levei o copo até ele.
— Aqui.
Ele começou a comer sem reclamar de nada. Nem da comida, nem do suco. Pelo contrário, comeu tudo. Tudo mesmo.
E isso me deu um certo alívio.
Depois que terminou, limpou a boca com a mão e me olhou.
— Posso ver TV?
Sorri.
— Pode. O que você quer assistir?
— Monstro S.A!
— “Monstros S.A.”? — corrigi, divertida.
— Esse mesmo!
Peguei o controle e coloquei o desenho. Ele desceu da bancada e foi direto pro sofá, se jogando ali e se ajeitando como se aquele fosse o melhor lugar do mundo.
Fiquei observando ele por alguns segundos antes de voltar pra cozinha.
Comecei a organizar as coisas, lavar a louça que tinha. Era pouca, mas suficiente pra ocupar minha mente.
Tinha uma lava-louças ali. Chique, moderna, provavelmente caríssima. Mas eu nem me atrevi.
— Melhor não mexer no que eu não sei… — falei baixo.
Então fui no básico mesmo. Bucha, detergente e água.
Enquanto lavava, meus pensamentos voltaram com força total.
A mensagem do senhor Rafael.
Só de lembrar, meu estômago embrulhou. Eu não sabia o que esperar. Não sabia o que ele queria. Não sabia se vinha problema, bronca… ou coisa pior.
E o pior de tudo era essa espera. Sempre a espera.
Terminei a louça e sequei as mãos, indo até a sala.
Benjamim estava dormindo. Apagado. Deitado no sofá, com o desenho ainda passando, o som baixo preenchendo o ambiente. O peito dele subia e descia devagar, tranquilo.
Meu coração apertou de um jeito estranho. Aquela paz dele… Era tudo que eu não tinha. Ele é tão pequeno e pelo visto que já passa por tanta coisa.
Voltei pra cozinha, agora pensando em mim.
Abri a geladeira. Nada muito diferente. Comidas congeladas, marmitinhas dele… tudo muito planejado, muito contado.
Peguei uma das comidas congeladas pra mim e coloquei no micro-ondas.
Enquanto esperava, me sentei na bancada e peguei o celular.
E foi aí que o peso voltou de vez.
A mensagem do Sr. Roberto.
—Você tem até semana que vem.
Semana que vem. Ou eu pago… ou rua.
Engoli seco, sentindo o coração acelerar.
— Não… não, não… — sussurrei, passando a mão no rosto.
Eu precisava daquele trabalho. Precisava dar certo ali. O pior de tudo é saber que eu já comecei errado.
O micro-ondas apitou. Levantei, peguei a comida, um garfo no armário e voltei pra bancada. Comecei a comer devagar, sem nem sentir direito o gosto, olhando pro desenho que ainda passava na televisão.
Minha cabeça estava longe. Muito longe.
Foi então que eu ouvi.
O som. Saltos. Firmes. Seguros. Se aproximando.
Meu corpo inteiro ficou tenso na hora.
Virei devagar em direção à porta.
E foi quando eu vi.
Uma mulher. Linda. Impecável. Elegante de um jeito que eu não sabia nem explicar. A roupa social perfeitamente alinhada, o salto alto que gritava dinheiro, o cabelo sem um fio fora do lugar.
Ela parou ali, me olhando como se já tivesse tirado todas as conclusões possíveis sobre mim.
E então falou:
— Você deve ser a irresponsável que está dando coisas pro menino comer sem saber o que ele pode, né?
Aquilo me atingiu como um tapa.
Fiquei travada. Sem saber o que dizer. Sem saber como reagir.
Só senti meu coração disparar… e a certeza de que, talvez, tudo estivesse prestes a dar muito errado