Eduarda narrando
Meu corpo inteiro travou quando aquelas palavras saíram da boca dela, carregadas de julgamento, de superioridade… como se eu fosse algum tipo de problema ali dentro. Meu coração, que já estava acelerado por causa das mensagens e de tudo que vinha acontecendo, pareceu disparar ainda mais forte.
— Eu… — tentei falar, mas a minha voz falhou antes mesmo de sair completa.
Ela cruzou os braços na frente do corpo, me olhando de cima abaixo, analisando cada detalhe meu como se estivesse me medindo… e claramente não estava gostando do que via.
— Eu perguntei se você é a irresponsável — ela repetiu, dessa vez mais devagar, como se eu fosse lenta demais pra entender.
Respirei fundo, sentindo minha garganta seca.
— Eu só dei cereal com leite para ele, eu não sabia que ele não podia comer isso. E no almoço eu dei a comida que já estava pronta na geladeira… — falei, tentando manter a calma. — As marmitinhas dele.
Ela arqueou uma sobrancelha, dando um passo na minha direção.
— E o suco?
Aquilo me pegou.
Por um segundo, eu fiquei sem saber o que responder. A minha cabeça começou a rodar, tentando lembrar exatamente o que eu tinha feito, cada detalhe, cada escolha.
— Eu fiz natural… — respondi, mais baixo. — Sem açúcar. Só coloquei um pouquinho de adoçante.
Ela soltou um riso curto, mas sem humor nenhum.
— Adoçante? — repetiu, como se aquilo fosse um absurdo.
Senti minhas mãos começarem a suar.
— Eu não sabia… — tentei me explicar. — Eu achei que—
— Achou errado — ela cortou, firme. — Você não tem que achar nada. Você tem que seguir exatamente o que é orientado.
O silêncio que se formou depois daquilo foi pesado.
Eu abaixei o olhar por um instante, sentindo aquele peso cair inteiro em cima de mim. Não era só sobre o suco… era o jeito que ela falava, como se eu fosse incapaz, como se eu estivesse colocando o Benjamim em risco.
— Ele tem restrições alimentares — ela continuou, agora andando até a bancada e observando tudo ao redor. — Cada coisa que entra no organismo dele precisa ser controlada.
Engoli seco.
— Eu não sabia disso… ninguém me falou — murmurei.
Ela parou. Virou lentamente o rosto na minha direção.
— Ninguém te falou? — repetiu.
Balancei a cabeça, sentindo um nó se formar na garganta.
— Não…
Ela respirou fundo, como se estivesse se controlando.
— Impressionante — disse, quase pra si mesma.- e as orientações que o Rafael deixou para você foram o quê?.
O jeito que ela falou me atingiu direto.
Fiquei em silêncio, sem saber o que fazer, o que falar… se devia me defender ou simplesmente abaixar a cabeça e aceitar. Porque, no fundo, eu também estava me sentindo culpada. Vai que eu realmente fiz algo errado? Vai que aquilo podia fazer m*l pra ele?
Meu olhar foi automaticamente até o sofá. O Benjamim ainda estava dormindo, completamente tranquilo, abraçado com uma almofada, o desenho passando na televisão sem que ele prestasse mais atenção.
Pelo menos ele estava bem.
— Quem é você? — ela perguntou de repente.
Levantei o olhar pra ela.
— Eduarda…
— Eu sei o seu nome — ela cortou. — Eu quero saber o motivo de você ter aceitado esse emprego se você é tão desqualificada.
Aquilo doeu.
Respirei fundo mais uma vez.
— Eu precisava do emprego. Tô dando o meu máximo para poder cuidar dele.
Ela deu um pequeno sorriso de lado, daqueles que não têm nada de gentis.
— fazer ele parar no hospital faz parte do seu máximo?. É assim que você está cuidando dele?.
Meu peito apertou.
— Já que você não tem capacidade para cuidar dele, pode pegar as suas coisas e ir embora porque eu vou ficar com ele até o Rafael chegar.
— não, eu sei que eu errei, mas eu já entendi que ele não pode comer certas coisas e eu não vou mais ficar desatenta quanto a isso. Por favor senhora, eu preciso desse emprego.
— você não tem a menor capacidade para cuidar dele e eu não vou deixar a vida dele nas suas mãos, Então pega suas coisas e sai daqui agora ou então eu vou chamar a polícia. - respirei fundo levantando da bancada e concordei indo até a pia colocar o prato.
Peguei meu celular em cima do balcão, e Me virei olhando para o sofá vendo o Benjamin dormindo. Não queria que nada disso tivesse acontecido, mas o erro foi todo meu e agora eu preciso arcar com a consequência.
Sair da casa do senhor Rafael sentindo um aperto no coração e me lembrando das palavras da Rebeca, de que nenhuma babá tinha se dado bem com ele antes na minha mente Só via o sorriso lindo dele enquanto nós brincamos. Mas infelizmente é isso, eu cometi um erro e essa foi a consequência. Só espero que o Benjamin fique bem.
Mandei uma mensagem para a Rebeca dizendo que o emprego não tinha dado certo, e que eu já estava indo para casa. Que eu ia precisar ver para onde eu ia porque o senhor Roberto tinha me mandado mensagem dizendo que eu tinha até semana que vem para pagar o aluguel, mas como ela não respondeu eu guardei o celular no bolso e fui pra casa andando, porque o motorista me trouxe, mais eu não tinha um dinheiro para pegar um ônibus e muito menos o Uber.