Ella
O dia tinha sido longo, mas o tempo parecia passar em câmera lenta aqui. As horas se arrastavam, uma igual à outra, todas cheias do mesmo tédio sufocante. Eu ainda estava me acostumando com a prisão dourada que Pierre chamava de mansão. Não importava quantos cômodos luxuosos houvesse, eu ainda me sentia como um pássaro enjaulado. Mesmo com a ordem de poder andar por esses cômodos.
Estava deitada na cama, tentando encontrar distração em um livro que tirei da biblioteca dele, quando a porta do quarto se abriu. Olhei imediatamente, meu coração acelerando, mesmo sem querer.
Pierre entrou, trazendo consigo a força de um furacão, mas o que chamou minha atenção foi o que ele carregava.
— O que é isso? — perguntei, olhando para o vestido vermelho que ele segurava, feito de um tecido que parecia líquido, brilhante e sedutor.
Ele ergueu a roupa com uma confiança típica.
— É o que você vai usar hoje à noite.
— Hoje à noite? — franzi o cenho, confusa.
— Temos um evento beneficente. Quero você ao meu lado.
Eu me sentei, deixando o livro de lado.
— Eu não vou.
Pierre apenas riu, mas não havia humor em sua expressão. Ele colocou o vestido na cama, como se já estivesse decidido, e então cruzou os braços, me encarando.
— Isso não foi um pedido, Ella.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Eu não faço parte do seu mundo, Pierre. Não vou a nenhum evento cheio de gente como você.
Sua expressão endureceu. Ele se inclinou levemente para frente, e eu senti o peso da sua presença.
— Ella, você vai. Se precisar que eu carregue você até lá, eu farei isso. Mas saiba de uma coisa: ninguém desobedece a mim.
Eu sabia que discutir com ele era inútil. Pierre sempre conseguia o que queria. Ele tinha um jeito de transformar minha vontade em fumaça, evaporando qualquer tentativa de resistência.
Suspirei, derrotada, enquanto olhava para o vestido.
— Isso é ridículo.
Ele deu um sorriso satisfeito, aquele tipo de sorriso que fazia meu sangue ferver.
— Você vai ficar deslumbrante.
Depois que ele saiu, as empregadas vieram me ajudar a me arrumar. Enquanto eu olhava para meu reflexo no espelho, quase não me reconhecia. O vestido vermelho abraçava meu corpo de uma forma que era ao mesmo tempo constrangedora e impressionante.
Pierre apareceu mais tarde para me buscar, e meu estômago deu um nó ao vê-lo. Ele estava impecável em um terno preto perfeitamente ajustado, que destacava seus ombros largos e o poder que ele exalava sem esforço. Seus olhos percorreram meu corpo, e por um segundo, eu vi algo além de arrogância neles.
— Pronta? — ele perguntou, oferecendo o braço.
Eu o encarei, tentando não deixar minha frustração transparecer, e finalmente aceitei.
O salão estava lotado de pessoas que exalavam riqueza e poder. Havia uma opulência esmagadora em cada detalhe, desde os lustres de cristal até as mesas decoradas com flores exóticas.
Pierre cumprimentava as pessoas como um rei cumprimentando seus súditos, e eu me sentia completamente fora de lugar. Mantive-me ao seu lado, tentando não atrair atenção, mas as pessoas olhavam para mim com curiosidade.
— Relaxe — ele murmurou no meu ouvido, sua voz grave enviando um arrepio pela minha espinha. — Você está comigo.
Eu não sabia se isso deveria me confortar ou me assustar ainda mais.
A noite avançava lentamente, com discursos intermináveis e uma série de leilões beneficentes. Pierre participou de vários, sempre oferecendo quantias exorbitantes. Enquanto ele estava no palco, resolvendo as questões do leilão, eu decidi escapar por um momento.
— Vou ao banheiro — sussurrei para ele. Ele assentiu, sem tirar os olhos do que estava acontecendo.
Os corredores fora do salão eram mais silenciosos, mas o peso do evento ainda parecia me seguir. Enquanto caminhava em direção ao banheiro, senti uma presença atrás de mim.
Olhei por sobre o ombro, mas não vi nada.
— Deve ser paranoia — murmurei para mim mesma, tentando me convencer.
Mas assim que entrei no banheiro, uma mão agarrou meu braço com força. Meu coração disparou, e eu me virei, encarando um homem que eu não conhecia. Ele tinha um sorriso c***l nos lábios.
— Ora, ora, você é ainda mais bonita de perto — ele disse, com uma voz que me fez estremecer.
— Me solte! — gritei, tentando me soltar, mas ele era muito forte.
— Não tão rápido. Quero saber o que o grande Pierre Tavares viu em você.
Meu corpo entrou em pânico, e eu lutei com todas as forças, mas ele não cedeu.
A dor e o medo que senti pareciam ecoar por algum lugar, como se atravessassem o espaço e encontrassem Pierre.
Ele estava no palco quando aconteceu. Um momento ele estava calmo, e no seguinte, seus olhos ficaram vermelhos como brasas, e sua respiração se tornou pesada.
— Onde ela está? — ele rosnou para Marco, que estava ao seu lado.
Marco hesitou, mas não teve tempo de responder antes que Pierre deixasse tudo para trás e seguisse meu rastro.
O homem ainda me segurava quando a porta do banheiro foi escancarada com tanta força que quase saiu das dobradiças. Pierre entrou, seus olhos vermelhos brilhando com uma intensidade assustadora.
— Solte-a. Agora. — Sua voz era baixa, mas carregada de fúria.
O homem hesitou por um segundo, mas quando tentou reagir, Pierre estava sobre ele.
O que aconteceu a seguir foi um borrão de violência. Pierre o derrubou no chão com um único golpe, e o som de ossos quebrando ecoou pelo banheiro. Ele não parou. Suas mãos eram como armas, e o homem não teve chance alguma.
Eu me encolhi no canto, chocada e assustada, mas não consegui desviar o olhar. Pierre parecia mais um animal do que um homem, e o sangue em suas mãos era uma prova do que ele era capaz.
Quando o homem estava inconsciente, Pierre se levantou, seu peito subindo e descendo enquanto tentava recuperar o controle. Ele se virou para mim, e por um momento, seus olhos vermelhos ainda brilhavam.
— Você está bem? — ele perguntou, sua voz mais suave, mas ainda cheia de autoridade.
Eu apenas assenti, incapaz de encontrar palavras.
Pierre se aproximou e estendeu a mão para mim.
— Vamos.
Eu hesitei, mas sabia que não havia escolha. Ele me tirou dali, e no caminho de volta para o salão, ouvi-o dar ordens rápidas para seus homens.
— Levem-no para o depósito. Quero respostas.
De volta à mansão, Pierre não disse nada. Ele parecia perdido em seus próprios pensamentos, e eu não sabia o que dizer.
Finalmente, quando chegamos ao quarto, ele se virou para mim.
— A partir de agora, você não vai a lugar nenhum sem mim. Entendeu?
Eu queria protestar, mas as palavras não saíram. Tudo o que consegui fazer foi assentir.
Pierre era um homem perigoso, e eu sabia que havia muito mais nele do que eu podia entender. E agora, mais do que nunca, eu me sentia presa nesse mundo que não escolhi.