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1024 Palavras
Ella O tempo passou, mas a sensação de viver em uma prisão luxuosa não diminuiu. Dois meses haviam se passado desde que descobri a gravidez, e minha vida virou de cabeça para baixo. A barriga ainda era pequena, mas a transformação em meu corpo já começava a aparecer. Mais que isso, minha mente parecia não acompanhar todas as mudanças. Eu estava cansada. De Pierre, de suas ordens, de sua presença constante e sufocante. Ele me dizia que tudo o que fazia era para minha segurança e a do bebê, mas eu sabia que era mais que isso. Era controle. Era posse. Sem contar que tudo só piorou depois do ocorrido no banheiro. A mansão era enorme, repleta de corredores que pareciam não ter fim, mas me sentia confinada em um espaço muito menor. A presença dos seguranças em todos os cantos me fazia lembrar constantemente que, mesmo cercada de luxo, eu não tinha liberdade. — Senhora Ella, seu chá. — Marie, a governanta, entrou no quarto com uma bandeja prateada. Suspirei, acenando com a cabeça enquanto me sentava na poltrona próxima à janela. — Obrigada, Marie. Ela sorriu gentilmente antes de sair, mas eu sabia que Pierre a havia instruído a me observar. Nada escapava a ele. Olhei para a xícara fumegante, mas o cheiro de camomila me enjoava. Meu estômago dava voltas com frequência agora, e meu apetite era imprevisível. Tudo isso só fazia o peso da situação parecer ainda maior. Pierre continuava sendo um mistério para mim. Ele estava sempre por perto, sempre atento. Sua intensidade era quase esmagadora. Ele tentava ser atencioso, mas havia um abismo entre nós que ele não parecia enxergar. Era como se ele acreditasse que, por estar carregando seu filho, eu automaticamente pertencesse a ele. Naquela manhã, ele entrou no quarto sem bater, como sempre fazia. Eu já estava acostumada com sua falta de limites. — Você precisa comer melhor, Ella. — Ele disse, cruzando os braços enquanto me observava da porta. — Estou tentando — retruquei, sem olhar diretamente para ele. — Não é suficiente. O bebê precisa de nutrientes. — E eu preciso de espaço, Pierre. Ele me encarou por um longo momento, os olhos brilhando com aquela intensidade que me deixava desconfortável. — Não posso dar isso a você. — Sua voz era baixa, mas firme. Revirei os olhos, frustrada. — Claro que não. Porque, para você, tudo se resume a controle, não é? Ele se aproximou, agachando-se na minha frente para que nossos olhares ficassem alinhados. — Para mim, tudo se resume a garantir que você e nosso filho estejam seguros. Havia uma sinceridade em sua voz que me desarmou, mas eu não queria ceder. Não podia. — Você acha que segurança é o mesmo que felicidade? — perguntei, baixinho. Pierre não respondeu. Ele apenas se levantou e saiu do quarto, deixando um vazio atrás de si. Sozinha novamente, passei as mãos pela barriga ainda discreta. Era estranho pensar que havia uma vida crescendo dentro de mim, um pequeno pedaço de mim e de Pierre. Apesar de tudo, eu já sentia uma conexão com aquele bebê. Às vezes, me pegava falando sozinha, imaginando como ele ou ela seria. — Você vai ser forte, meu amor. — Murmurei, acariciando a barriga. — E vai ter uma mãe que nunca vai desistir de você. Na tarde daquele dia, enquanto estava no jardim tentando aproveitar um pouco de ar fresco, ouvi vozes vindo da entrada da mansão. Pierre estava conversando com alguém, e sua voz parecia mais dura que o normal. — Você não tem permissão para estar aqui. — Ele disse. Curiosa, fui até a lateral da casa, onde podia observar sem ser vista. Uma mulher estava parada na porta, vestida de forma impecável, com um sorriso frio nos lábios. — Não seja rude, Pierre. — Ela disse, inclinando a cabeça. — Achei que pudesse fazer uma visita ao futuro pai. Meu coração apertou. Quem era ela? E por que Pierre parecia tão incomodado com sua presença? Antes que pudesse ouvir mais, senti alguém se aproximar. — Senhora Ella, não é seguro ficar aqui fora sozinha. — Um dos seguranças me chamou a atenção, e eu rapidamente voltei para o interior da mansão. Mas minha mente continuava presa àquela mulher e ao que ela poderia querer. Mais tarde, naquela noite, decidi enfrentar Pierre. Não conseguia mais guardar tantas perguntas para mim mesma. Encontrei-o no escritório, como de costume, revisando documentos com um olhar concentrado. — Quem era ela? — Perguntei sem rodeios, cruzando os braços. Pierre ergueu os olhos para mim, aparentemente surpreso com minha abordagem direta. — Não é da sua conta. — Claro que é. — Retruquei, dando um passo à frente. — Se tem algo a ver com o nosso filho, eu tenho o direito de saber. Ele suspirou, fechando o arquivo à sua frente antes de se levantar. — Era apenas alguém do meu passado. Não tem nada a ver com você ou com o bebê. — E eu devo acreditar nisso? Pierre se aproximou, e por um momento, achei que ele fosse perder a paciência. Mas, em vez disso, ele apenas colocou as mãos nos bolsos e me olhou com seriedade. — Você quer tanto lutar contra mim, Ella, mas não percebe que estamos do mesmo lado. — Estamos? Porque, às vezes, parece que você está lutando para me manter sob controle, e não para me proteger. Ele não respondeu imediatamente. Apenas me olhou, como se estivesse tentando entender algo que nem ele conseguia explicar. Quando voltei para o quarto, me senti mais confusa do que nunca. Pierre era uma contradição ambulante: protetor, mas controlador; carinhoso, mas distante. E, apesar de tudo, algo em mim não conseguia odiá-lo completamente. Deitada na cama, com a mão sobre a barriga, fiz uma promessa silenciosa ao meu bebê. — Eu não sei como tudo isso vai terminar, meu amor. — Sussurrei. — Mas prometo que vou fazer o possível para te dar uma vida melhor. O desafio era sobreviver a Pierre e ao mundo que ele havia criado ao nosso redor mesmo que esse bebê pertence mais a ele do que a mim.
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