Pierre
O silêncio da noite era interrompido apenas pelo som do gelo batendo contra o vidro enquanto eu girava o copo de uísque na mão. Estava sentado no escritório, mas minha mente não estava ali. Não conseguia parar de pensar em Ella.
Ela era um mistério constante para mim. Desafiadora e frágil ao mesmo tempo. Eu havia jurado protegê-la, mas cada interação nossa parecia uma batalha. E, ainda assim, ela ocupava meus pensamentos de uma forma que nenhuma outra mulher jamais conseguiu.
Respirei fundo, tentando afastar a imagem dela da minha mente. Havia assuntos mais urgentes a resolver.
Mais cedo, Giulia, uma mulher com quem tive um breve envolvimento, havia aparecido sem aviso. Era algo que me irritava profundamente: interrupções. Especialmente as que vinham com intenções obscuras.
— Pierre, faz tempo que não nos vemos. — Giulia havia dito, cruzando os braços e sorrindo de forma que claramente buscava provocar uma reação.
— E deveria continuar assim. — Respondi, seco.
Ela riu, ignorando a dureza da minha voz, e deu um passo à frente.
— Ouvi falar sobre sua futura paternidade. Parabéns.
Minha mandíbula se apertou. Não gostei do tom dela, cheio de insinuações. Já bastava Renata para me tirar do sério.
— O que você quer, Giulia? — Perguntei, cansado da conversa.
Ela fingiu ofensa, colocando a mão no peito.
— Não posso visitar um velho amigo?
— Não quando o "amigo" está ocupado cuidando da própria vida.
O sorriso dela desapareceu por um momento, substituído por algo mais sério.
— Você sabe que eu sempre fui útil para você, Pierre. Só quero garantir que isso não será esquecido.
A insinuação não passou despercebida, mas eu não tinha paciência para joguinhos.
— Saia, Giulia. Não tenho tempo para fantasmas do passado.
— Tudo bem eu vou embora, más escute o que eu vou te dizer, você ainda vai vim correndo atrás de mim depois que perceber que tudo isso não passa de joguinhos.
— Se você diz. — falo seco e olho pra um dos meus homens que já entendeu o que eu quis dizer e foi atrás de Giulia.
Ella. Minha mente rapidamente se voltou para ela.
Levantei-me e fui até a janela. Lá fora, as luzes do jardim iluminavam a noite, mas minha atenção estava voltada para o quarto onde Ella estava.
Eu sabia que ela não confiava em mim. Não a culpava por isso. Minha abordagem havia sido tudo menos delicada. Mas tudo o que eu fazia era por ela e pelo nosso filho. Eles eram minha prioridade, mesmo que Ella não enxergasse isso.
Deixei o escritório e percorri os corredores da mansão. Os seguranças me cumprimentaram com um aceno, mas eu estava focado em outro objetivo.
Cheguei à porta do quarto dela e pausei por um momento. Eu nunca bati antes de entrar, mas algo me deteve dessa vez. Respirei fundo antes de abrir a porta.
Ella estava deitada na cama, com a mão sobre a barriga, aparentemente dormindo. A luz suave do abajur iluminava seu rosto, e ela parecia mais tranquila do que eu a tinha visto em semanas.
Aproximei-me silenciosamente, observando-a por um momento.
— Eu nunca quis isso para você. — Sussurrei, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir.
Algo em mim doía ao vê-la tão vulnerável. Eu sempre fui capaz de lidar com qualquer situação, mas Ella era diferente. Ela me fazia questionar minhas escolhas, minhas prioridades.
Saí do quarto tão silenciosamente quanto entrei, decidido a garantir que ela nunca fosse tocada pelas sombras que me cercavam.
De volta ao escritório, liguei para Marco.
— Preciso que monitore Renata. Ela está quieta demais, e conhecendo ela , sei que isso não é nada bom.
— Entendido, chefe. Algo mais?
— Reforce a segurança na mansão. Não quero nenhum incidente.
Marco hesitou por um momento.
— Isso tem a ver com a senhora Ella?
— Tudo tem a ver com ela. — Respondi, seco.
Marco não questionou mais nada, e eu desliguei. Ele sabia como eu funcionava: direto, sem espaço para falhas.
Passei o resto da noite revisando documentos e organizando questões relacionadas aos negócios. Mas, mesmo enquanto trabalhava, minha mente continuava voltando para Ella.
Ela me desafiava de uma forma que ninguém mais fazia. Eu estava acostumado a ser obedecido, a ter controle sobre tudo ao meu redor. Mas Ella era como um furacão. Ela não se dobrava facilmente, e, de alguma forma, isso me atraía ainda mais.
Peguei o copo de uísque novamente, girando o líquido âmbar enquanto refletia sobre tudo o que havia acontecido nos últimos meses.
Eu sabia que minha abordagem com Ella era falha. Ela precisava de mais espaço, mais liberdade. Mas a ideia de deixá-la vulnerável me deixava inquieto.
Não importava o que fosse preciso, eu garantiria que nada acontecesse a ela ou ao nosso filho.
A madrugada já avançava quando finalmente me permiti relaxar. Sentei-me em uma poltrona próxima à lareira, observando as chamas dançarem.
Eu não sabia o que o futuro reservava para mim, para Ella, para nosso filho. Mas uma coisa era certa: eu estava disposto a fazer qualquer coisa para protegê-los.
Mesmo que isso significasse enfrentar meus próprios demônios.
Ella
Desde que descobri sobre minha gravidez, minha vida tem sido um turbilhão de emoções. Entre as constantes investidas autoritárias de Pierre e a minha tentativa de encontrar alguma normalidade, eu não sabia se estava mais cansada física ou emocionalmente.
Ultimamente, porém, algo diferente começou a acontecer. Um calor estranho e crescente percorria meu corpo em ondas, deixando-me inquieta. Era algo que eu não conseguia explicar ou controlar.
Naquela tarde, enquanto estava sentada na poltrona do meu quarto, o desconforto aumentou. Tentei distrair-me lendo um livro que encontrei na biblioteca da mansão, mas as palavras pareciam desfocar diante dos meus olhos.
Minha pele estava sensível, como se cada toque do tecido da roupa fosse um estímulo exagerado. Minha respiração estava curta, e um desejo desesperado de alívio crescia em mim.
Eu sabia o que era. Durante a gravidez, algumas ômegas experimentavam uma necessidade maior de proximidade com o pai do bebê, especialmente quando ele era um alfa lupus. Era biológico, algo que eu nunca imaginei que enfrentaria.
Mas como lidar com isso quando o pai do meu filho era Pierre Tavares?
Recusei-me a pedir ajuda. A última coisa que eu queria era que Pierre soubesse da vulnerabilidade que meu corpo insistia em mostrar. Ele já era possessivo o suficiente; se soubesse disso, usaria como mais uma desculpa para controlar minha vida.
Tentei deitar na cama, abraçando um travesseiro na tentativa de acalmar a sensação de vazio que crescia dentro de mim. Mas nada ajudava. Meu corpo implorava por algo que eu não queria admitir.
Quando ouvi passos firmes ecoando pelo corredor, meu coração acelerou. Eu sabia que era ele. Pierre tinha uma presença tão forte que parecia preencher todo o espaço antes mesmo de entrar.
A porta se abriu, e lá estava ele, com sua postura confiante e aquele olhar intenso que sempre parecia enxergar mais do que eu queria mostrar.
— Você parece pálida. O que está acontecendo? — perguntou, entrando no quarto sem ser convidado.
— Estou bem. Só cansada. — Respondi rapidamente, virando o rosto para evitar seu olhar.
Mas Pierre não era t**o. Ele se aproximou, inclinando-se para observar meu rosto mais de perto.
— Está mentindo. Posso sentir que algo está errado.
Maldito senso apurado dos alfas.
— Não é nada. Por favor, só... vá embora.
Ele estreitou os olhos, claramente desconfiado. Antes que eu pudesse protestar, ele colocou a mão na minha testa. O toque, embora firme, me fez arrepiar completamente.
— Você está quente. É isso...
Eu sabia que ele havia entendido o que estava acontecendo, porque seu olhar mudou. Algo entre preocupação e um desejo primitivo surgiu em seus olhos.
— Você precisa de mim. — Ele declarou, a voz baixa, mas cheia de convicção.
— Não. Eu não preciso de nada. Eu posso lidar com isso sozinha.
— Não seja teimosa, Ella. — Ele disse, cruzando os braços. — Você está grávida de um alfa lupus. Seu corpo está reagindo como deveria. Se você continuar ignorando isso, vai piorar.
Minha raiva cresceu. Eu odiava como ele sempre parecia ter controle de tudo, como se soubesse exatamente o que eu precisava antes mesmo de eu admitir para mim mesma.
— Eu disse que estou bem! — Levantei-me da cama, tentando passar por ele, mas meu corpo não colaborou. Uma tontura repentina me fez cambalear, e Pierre me segurou antes que eu caísse.
— Isso não é algo que você pode ignorar. — Ele disse, a voz agora mais suave. — Deixe-me ajudá-la, Ella.
Eu queria gritar, mandá-lo embora, mas a verdade era que meu corpo estava clamando por ele. Cada fibra do meu ser parecia se inclinar na direção dele, buscando o conforto e o calor que ele oferecia.
— Por que você tem que ser tão irritantemente necessário? — Murmurei, derrotada.
Ele não respondeu, apenas me levou de volta à cama e sentou-se ao meu lado.
— Respire fundo. — Ele instruiu, estendendo a mão para tocar meu rosto.
O calor que emanava dele parecia invadir meu corpo, espalhando-se como um bálsamo para o desconforto que eu sentia. Eu odiava admitir, mas o toque dele era exatamente o que eu precisava.
Enquanto Pierre permanecia ao meu lado, algo mudou entre nós. Não era apenas o alívio físico que seu calor proporcionava. Havia algo mais profundo, algo que me assustava.
— Por que você está sendo tão... gentil? — Perguntei, olhando para ele.
— Porque você está carregando meu filho. E porque, goste ou não, você é minha.
— Eu não sou sua. — Retruquei automaticamente, mas minha voz não tinha tanta força.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de significado.
— Continue dizendo isso para si mesma, Ella. Talvez você acredite um dia.
Passei o resto da tarde ao lado de Pierre, sentindo o calor dele afastar o desconforto que havia tomado conta de mim. Apesar de todo o meu orgulho, eu não podia negar que ele estava certo.
Mas essa proximidade me assustava. Quanto mais tempo passava com Pierre, mais eu via além da fachada de alfa impiedoso. E isso era perigoso.
Eu não podia me permitir baixar a guarda. Não com ele.
Porém, enquanto eu observava Pierre naquele momento, com uma expressão quase calma no rosto, não pude deixar de me perguntar: será que, no fundo, ele também precisava de mim?