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1896 Palavras
Pierre Ella era uma mistura de tempestade e calmaria. Tão teimosa e resistente quanto vulnerável e encantadora. Desde que ela entrou na minha vida, minha paciência, algo que eu julgava inabalável, foi testada a cada dia. Mas, naquele momento, observando-a deitada em minha cama, frágil devido à gravidez, percebi algo que nunca havia admitido: eu me importava mais do que gostaria. As últimas semanas não tinham sido fáceis para ela. A gravidez estava mexendo com seu corpo e emoções de maneiras que nenhum de nós previa. E agora, com o calor crescente que ela sentia, tudo ficou ainda mais complicado. Eu sabia o que isso significava. O vínculo entre nós estava se manifestando, pedindo por proximidade, por minha presença. Era biológico, inevitável. Mesmo assim, Ella lutava contra isso com todas as forças, como se pudesse vencer a própria natureza. Mal sabia ela que eu também estava lutando. Enquanto caminhava pelo corredor até meu escritório, sentia meu peito apertado. Era frustrante admitir que a conexão entre nós me afetava tanto quanto a ela. O simples som da respiração de Ella era suficiente para despertar meus instintos protetores, algo que eu jamais havia sentido com nenhuma outra mulher. Eu me joguei na poltrona de couro e encarei a pilha de documentos sobre a mesa. Tentava me concentrar, mas minha mente insistia em voltar para Ella. Lembrei-me de como ela tentou resistir à minha ajuda mais cedo, mesmo quando seu corpo clamava por mim. Ela era incrivelmente forte, mas também absurdamente teimosa. Um sorriso involuntário surgiu no meu rosto. — Você está rindo sozinho agora, Pierre? — A voz de Bryan, meu braço direito, cortou o silêncio quando ele entrou no escritório sem bater. — Tenho algo mais interessante para fazer? — Respondi, tentando esconder qualquer traço de suavidade na minha expressão. Ele me olhou por um momento, desconfiado. — O relatório sobre o evento beneficente está aqui. — Ele colocou uma pasta sobre a mesa. — E também tenho notícias sobre aquele problema com Lorenzo. — Lorenzo pode esperar. — Respondi de forma seca, passando os dedos pelo cabelo. — Estou lidando com algo mais urgente agora. Bryan levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Ele sabia quando não fazer perguntas. Depois que ele saiu, fechei os olhos por um momento. A imagem de Ella novamente invadiu minha mente. Eu podia sentir sua presença na casa, como se um laço invisível nos unisse. Era algo que eu nunca havia experimentado antes. O instinto de alfa em mim queria protegê-la, cuidar dela, garantir que nada lhe faltasse. Mas havia mais do que isso. Havia um desejo, uma necessidade de estar perto dela, de vê-la olhar para mim sem medo ou raiva, mas com algo mais... algo que eu ainda não sabia nomear. Levantei-me, incapaz de ficar parado. Caminhei até a janela, olhando para os jardins da mansão. A visão do espaço vazio só me lembrou do vazio que sentia quando Ella não estava por perto. — Isso está me enlouquecendo. — Murmurei para mim mesmo. Quando decidi voltar ao quarto, encontrei Ella dormindo. Mesmo assim, o calor dela era quase palpável, como se invadisse o espaço ao redor. Sua pele brilhava sob a luz suave do abajur, e o simples som de sua respiração era suficiente para acelerar meu coração. Sentei-me ao lado dela, observando-a por um momento. Ela parecia tão frágil, mas eu sabia que sua força era incomparável. Essa dualidade me atraía de uma maneira que eu não conseguia entender completamente. Minha mão se moveu sozinha, tocando seu rosto com delicadeza. No instante em que minha pele encontrou a dela, Ella se mexeu, os olhos se abrindo lentamente. — Pierre...? — Sua voz era rouca, ainda sonolenta. — Estou aqui. — Respondi, minha voz mais suave do que eu pretendia. — O que você está fazendo? — Ela perguntou, tentando se sentar. — Cuidando de você. Ella bufou, como sempre fazia quando estava irritada, mas não se afastou. — Eu não preciso que cuide de mim. — Precisa, sim. Só não quer admitir. Ela me olhou, os olhos brilhando com algo que parecia um misto de desafio e vulnerabilidade. — Por que você faz isso? Por que age como se realmente se importasse? A pergunta me pegou de surpresa, mas eu não podia fugir dela. — Porque eu me importo, Ella. Não sei por que ou como isso aconteceu, mas eu me importo. O silêncio entre nós era denso, mas havia algo diferente nele. Era como se, naquele momento, uma ponte invisível estivesse sendo construída. — Você não é o homem que eu imaginava. — Ella finalmente disse, quebrando o silêncio. — Talvez você não tenha me dado a chance de mostrar quem eu realmente sou. Ela desviou o olhar, mas não respondeu. Eu sabia que seria um longo caminho até que ela confiasse em mim, mas naquele momento, decidi que faria o que fosse necessário para ganhar sua confiança. Ella O silêncio da noite envolvia a mansão, mas dentro de mim, um turbilhão fervia. O calor constante em meu corpo era como uma chama que Pierre conseguia controlar com um simples toque. Essa nova realidade era tão assustadora quanto o mundo em que ele vivia um mundo de segredos, violência e poder. As últimas semanas haviam sido um teste para minha sanidade. Entre os sintomas da gravidez e o vínculo crescente com Pierre, parecia que minha vida estava sendo moldada por forças muito maiores do que eu. Mas o que me deixava mais inquieta era o mundo que ele representava: a máfia. Antes de conhecê-lo, eu sabia que alfas tinham posições privilegiadas na sociedade ABO, especialmente os alfas lúpus, como Pierre. Eles eram considerados a elite dos alfas, dominantes e temidos, com instintos quase primitivos que os tornavam tanto líderes naturais quanto perigosos. Pierre era o exemplo perfeito disso. Mas não fazia ideia do quão fundo ele estava envolvido no submundo do crime. A máfia era mais do que um rumor na vida dele; era sua essência, seu legado. Descobri isso da pior maneira possível, ao flagrar conversas dele com homens que pareciam mais predadores do que humanos. Eles falavam sobre "territórios", "negócios" e "lições" que precisavam ser ensinadas a rivais. No começo, tentei me afastar, fingir que não ouvia. Mas conforme o vínculo entre nós crescia, era impossível ignorar. As informações pareciam me perseguir, como sombras que eu não conseguia evitar. - Você está bem? - A voz grave de Pierre me trouxe de volta à realidade. Ele estava na porta do quarto, me observando com um olhar avaliador. - Só pensando. - Em quê? - Ele se aproximou, os passos firmes, mas controlados, como se estivesse lidando com um animal arisco. - No que eu estou fazendo aqui. Ele parou ao meu lado, os olhos brilhando com intensidade. - Você está aqui porque é meu dever cuidar de você. Revirei os olhos, exasperada. - E eu não tenho escolha, não é? Pierre inclinou a cabeça, um sorriso perigoso brincando em seus lábios. - Não, Ella. Você não tem. No mundo ABO, os alfas eram sempre os líderes, aqueles que ditavam as regras. Betas viviam à margem, equilibrados, enquanto ômegas, como eu, eram vistos como frágeis, quase sempre destinados a se submeter. Era uma estrutura que eu odiava, mas da qual não podia escapar. Pierre, como um alfa lúpus, era o ápice desse sistema. Sua presença dominava qualquer espaço, seu cheiro carregava um comando silencioso que eu não podia ignorar. E agora, com a gravidez, meu corpo parecia conspirar contra mim, ansiando por sua proximidade, mesmo quando minha mente gritava para resistir. - Você não pode me manter aqui para sempre. - Tentei argumentar, mesmo sabendo que era inútil. Pierre riu, mas não havia humor em seu riso. - Eu posso e vou. Você carrega meu filho, Ella. Isso significa que você pertence a mim. A força das palavras dele me atingiu como um golpe. Pertencer. A ideia me revoltava, mas ao mesmo tempo, havia algo reconfortante na intensidade de sua proteção. Nos dias seguintes, Pierre me permitiu andar pela mansão, mas sempre sob o olhar atento de seus homens. Cada canto parecia exalar riqueza e perigo, com seguranças armados em cada entrada e saídas que eu nem sabia que existiam. - Quantos segredos essa casa guarda? - Perguntei a Pierre uma noite, enquanto jantávamos juntos. Ele me lançou um olhar de advertência. - Mais do que você gostaria de saber. Mas minha curiosidade não podia ser contida. Aos poucos, comecei a perceber a extensão do controle que ele tinha sobre o mundo ao nosso redor. Não era apenas poder; era um domínio absoluto, sustentado pelo medo e pela lealdade cega de seus subordinados. Certa vez, enquanto caminhava pelo jardim, ouvi uma conversa que me fez gelar. Dois homens discutiam sobre um "acordo que deu errado". - Ele mandou eliminar os três. Não podemos deixar pontas soltas. Minha respiração parou. Eliminar. A palavra era tão fria quanto a expressão nos rostos deles. - Ella! - A voz de Pierre me chamou, e eu me virei para vê-lo parado na porta, os olhos fixos em mim. Ele sabia que eu tinha ouvido. Ele caminhou até mim, seu cheiro amadeirado e dominante preenchendo o ar. - Você não deveria ouvir coisas que não são para os seus ouvidos. - Sua voz era baixa, mas carregada de advertência. - E você não deveria estar envolvido com coisas assim. - Respondi, surpresa com minha própria coragem. Pierre estreitou os olhos, mas não respondeu. Ele sabia que não podia justificar o que fazia. Apesar de tudo, era impossível negar a conexão entre nós. À medida que minha gravidez avançava, eu sentia o vínculo com Pierre se fortalecer. Não era algo que eu escolhi, mas algo que meu corpo reconhecia como necessário. Houve uma noite em que o calor em meu corpo se tornou insuportável. Era como se meu próprio sangue estivesse em chamas, e nada parecia aliviar a sensação. Pierre entrou no quarto, e eu soube imediatamente que ele sentia minha dor. Ele não disse uma palavra, apenas se aproximou e me puxou para seus braços. - Shhh, estou aqui. - Ele murmurou, sua voz como um bálsamo para meus sentidos. O toque dele trouxe um alívio instantâneo, mas também despertou algo mais profundo. Era como se meu corpo reconhecesse que ele era a resposta para tudo o que eu precisava. - Por que isso acontece? - Perguntei, minha voz trêmula. - É o vínculo. - Ele respondeu, acariciando meu cabelo. - Você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você. As palavras dele eram verdadeiras, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Conforme os dias se transformavam em semanas, percebi que lutar contra Pierre e o mundo ao qual ele pertencia era inútil. Ele era um alfa lúpus, um líder nato, e eu, uma ômega grávida, precisava de sua proteção, mesmo que não quisesse admitir. Mas aceitar isso não significava desistir de mim mesma. Eu podia ser mais do que a mãe do filho dele, mais do que uma peça no jogo de poder que ele controlava. Enquanto olhava pela janela da mansão naquela noite, fiz uma promessa a mim mesma: encontraria uma maneira de sobreviver a esse mundo, sem perder quem eu era no processo. E, talvez, encontraria uma maneira de entender o homem que tinha se tornado meu destino, por mais sombrio que ele fosse.
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