Narrado por Ella
A ideia parecia inusitada, até mesmo improvável, considerando quem era Pierre, mas não consegui resistir à vontade de tentar. Depois de tantas semanas convivendo com ele e enfrentando a intensidade de sua personalidade, algo dentro de mim pedia por um momento de normalidade. Um instante em que eu pudesse fingir que nossa vida não estava envolta em ameaças, máfia e tudo o que o mundo dele trazia.
— O que você acha de irmos ao shopping hoje? — Sugeri, um pouco hesitante.
Pierre me olhou por um instante, claramente surpreso com a ideia. Ele estava no escritório, com o semblante sempre sério, analisando papéis que provavelmente envolviam coisas das quais eu nem queria saber.
— Um shopping? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Sim, um lugar público, normal. Sem seguranças rondando por todos os lados. Eu quero... sei lá, sair um pouco, esquecer tudo isso.
Ele ficou em silêncio, como se estivesse ponderando sobre algo muito maior do que um simples passeio. Finalmente, suspirou e fechou os papéis.
— Está bem. Mas com uma condição: não me peça para carregar sacolas.
Um sorriso escapou antes que eu pudesse me conter. Ver Pierre relaxado, mesmo que por um instante, era algo raro.
No caminho para o shopping, o clima no carro estava surpreendentemente leve. Pierre não parecia tão tenso como de costume, e eu aproveitei o momento para admirá-lo sem ser pega. Ele estava com uma camisa de tecido fino que realçava seus músculos, e o relógio caro em seu pulso parecia gritar sobre o poder que ele carregava.
Chegando lá, caminhar ao lado dele era quase como andar com um rei. As pessoas olhavam, algumas murmuravam, e eu me sentia ao mesmo tempo envergonhada e orgulhosa. Ele tinha uma aura que era impossível ignorar.
— Para onde quer ir primeiro? — Ele perguntou, sua voz calma, mas firme.
— Acho que quero olhar roupas para o bebê.
Ele assentiu, e seguimos para a loja. O espaço estava repleto de peças minúsculas e fofas, e por um momento, me esqueci de quem eu era, de onde estava e do que nossa situação envolvia. Eu me senti como uma futura mãe normal, ansiosa para escolher as melhores coisas para o filho que carregava.
Pierre ficou ao meu lado o tempo todo, observando cada escolha que eu fazia. Ele parecia interessado, o que era inesperado, mas ao mesmo tempo, aquecia meu coração.
— Isso é bonito. — Ele apontou para um macacão azul com pequenos desenhos de estrelas.
— Você acha? — Perguntei, surpresa.
— Sim. Nosso filho ficará bem com isso.
Nossos olhares se cruzaram, e algo no tom dele, na maneira como falou "nosso filho", mexeu comigo. Desviei o olhar rapidamente, tentando esconder o leve rubor que sentia.
Depois de mais algumas lojas e algumas risadas sim, risadas, algo que parecia impossível com Pierre , fomos para a praça de alimentação. Foi ali que tudo desandou.
Enquanto esperávamos o pedido, uma mulher surgiu, seu perfume forte e a postura confiante denunciando que ela não era alguém qualquer. Ela tinha longos cabelos pretos e um vestido justo que parecia ter sido feito sob medida para destacar suas curvas.
— Pierre, querido! — Ela disse, ignorando completamente minha presença e se aproximando dele como se fossem íntimos.
Eu não sabia como reagir. Fiquei paralisada, tentando entender quem ela era e o que queria.
— Selene. — Pierre respondeu, sua voz neutra.
— Ah, não sabia que você andava por aqui. E com... — Ela finalmente olhou para mim, seu olhar passando por mim como se eu fosse invisível. — Ela.
"Ela?" Minha respiração travou, e senti meu coração acelerar. Quem ela pensava que era?
— Ela é Ella. — Pierre respondeu, sua voz agora mais firme.
— Ah, claro. A ômega que está carregando seu filho. — Selene sorriu, mas havia veneno em suas palavras. — Mas ainda assim, sem marca. Isso não faz dela sua verdadeira ômega, certo?
Cada palavra dela era como uma faca. Senti meu corpo enrijecer, e meus olhos começaram a arder. Não era apenas o ciúme que me consumia. Era a humilhação, a sensação de não ser suficiente, de ser apenas "a ômega qualquer".
Pierre não respondeu de imediato, e isso só piorou. Selene aproveitou o silêncio para se aproximar ainda mais, colocando uma mão no ombro dele.
— Você sabe que pode ter algo muito melhor, Pierre. — Ela disse, ignorando completamente o fato de que eu estava ali.
— Selene, basta. — Ele finalmente falou, sua voz carregada de autoridade.
Mas o dano já estava feito.
Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, me levantei e fui em direção ao banheiro. Não queria que ninguém visse as lágrimas que começavam a escorrer pelo meu rosto.
No banheiro, me encostei na parede e tentei respirar fundo. Mas era impossível. A combinação de hormônios da gravidez, a situação com Selene e meus próprios sentimentos por Pierre estavam me sufocando.
Por que aquilo me afetava tanto? Eu sabia que não deveria me importar, que meu acordo com Pierre não envolvia amor ou sentimentos. Mas a verdade era que eu estava começando a gostar dele. E isso me assustava mais do que qualquer coisa.
Depois de alguns minutos, ouvi passos. Antes que pudesse reagir, a porta do banheiro se abriu, e lá estava ele.
— Ella. — Pierre chamou, sua voz baixa, mas firme.
— Vá embora, Pierre. — Respondi, sem olhar para ele.
Ele ignorou e entrou, fechando a porta atrás de si.
— Eu não vou deixar você aqui sozinha.
— Eu não preciso de você. — Minha voz saiu embargada, traindo o que eu realmente sentia.
Ele se aproximou lentamente, e quando colocou uma mão em meu ombro, não consegui mais segurar. As lágrimas vieram com força, e ele me puxou para seus braços.
— Selene não significa nada. — Ele disse, sua voz séria. — E você é mais do que suficiente, Ella.
— Eu não sou! — Gritei, afastando-me. — Eu não sou marcada, Pierre. Eu não sou sua de verdade. Sou só a ômega que está carregando seu filho, lembra?
Ele me olhou, seus olhos fixos nos meus, e por um instante, vi algo neles que nunca havia visto antes.
— Você é minha. Mesmo sem uma marca. Você sempre foi.
Aquelas palavras quebraram algo dentro de mim. Ou talvez tenham consertado. Não sabia mais. Tudo o que sabia era que, naquele momento, estava completamente perdida. Perdida em meus sentimentos por Pierre, no mundo dele, em tudo.
Quando ele me puxou novamente para seus braços, não resisti. Porque, por mais que odiasse admitir, era exatamente ali que eu queria estar.