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1181 Palavras
Narrado por Pierre A noite estava calma, estranhamente calma, considerando o quanto minha cabeça ainda fervia com os acontecimentos daquele dia. Desde o momento em que Selene apareceu no shopping e desferiu suas palavras como uma lança, eu estava inquieto. Não estava acostumado a sentir algo assim. Em muitos aspectos, era como se todo o controle que eu costumava ter fosse fugindo das minhas mãos. Ella... Ela me deixava confuso, em um nível que eu nunca imaginei que fosse capaz de alcançar. Eu podia ter mulheres a meus pés, belas, sedutoras, sempre disponíveis. Mas, com ela, era diferente. Ela não era apenas mais uma. Algo dentro de mim sabia que Ella era especial. Não porque estivesse grávida do meu filho — isso era apenas um detalhe. Ela trazia uma essência que mexia comigo, algo que me fazia questionar cada decisão que eu tomava. Agora, estava sentado em minha enorme cadeira no escritório, observando o silêncio da sala, enquanto os papéis à minha frente pareciam se fundir em uma única massa de letras e números. Mas a verdade era que eu não conseguia focar em mais nada. Tudo o que eu queria, no fundo, era ir até ela, mostrar que... bem, mostrar que eu estava presente. Que não era apenas uma promessa vazia. Era tarde, e os homens já haviam saído para as operações da noite. Ficar sozinho não era algo novo, mas desta vez, havia uma tensão que me deixava inquieto. Eu queria entender, de fato, o que estava acontecendo comigo. Desde o dia em que a vi pela primeira vez até agora, tudo parecia diferente. — Chefe, temos um problema. — A voz grave de Bryan soou através do interfone. Exatamente o tipo de interrupção que eu precisava neste momento. — Entre. — Respondi, já sentindo o peso do que viria em seguida. Bryan apareceu minutos depois, sua expressão tão séria quanto a minha. Ele já não tinha aquele sorriso amigável estampado no rosto, e isso só confirmava o que eu já temia. — O que houve? — Perguntei, seco. — Aquele cara que estava seguindo você mais a senhoria Ella... Descobrimos que ele tem ligações com um dos grupos rivais. Estava ali para testar as nossas defesas. — Bryan me entregou um tablet, onde as informações eram claramente reveladoras. Minha mandíbula se cerrava ao ler cada palavra. Era uma provocação, claro. . Alguém estava claramente tentando mexer comigo através dela. Mas o que realmente me incomodava era o jeito como aquele homem olhou para Ella, como se ela fosse um objeto, como se não tivesse valor algum além de carregar meu filho. O ciúme, eu sabia, não era apenas um instinto possessivo. Era algo muito mais profundo. — Já identificaram o responsável por isso? — Perguntei, já sabendo a resposta, mas precisando ouvir para colocar ordem no caos. — Sim. Ele está sob vigilância. — Bryan respondeu, com os olhos alertas. — Ameaçar Ella será tratado como uma afronta direta a você, chefe. Não permitiremos que toquem nela. — Não. — Falei, baixinho. — Não vou esperar por isso. Mande os homens se prepararem. Bryan assentiu com firmeza, já preparado para executar minhas ordens. Eu sabia que meu temperamento impiedoso seria inevitável, mas não podia deixar nada passar. Ella era minha responsabilidade agora. E mais do que isso, ela me tocava de uma maneira que não conseguia ignorar. Pouco tempo depois, meus homens anunciaram que uma visita estava à minha espera. Quando olhei para a porta e a vi, não pude evitar que um suspiro escapasse. — Selene. — Disse, com a voz controlada, mas sem esconder a frieza que ela sabia muito bem reconhecer. Ela entrou com um sorriso encantador, como se ainda me conhecesse tão bem quanto antes. Mesmo depois de tudo, era como se nada tivesse mudado para ela. E, sinceramente, isso só me irritava ainda mais. — Pierre, querido. — Ela se aproximou, passando as mãos delicadamente por um dos braços da minha cadeira. — Não pensei que você ficaria tanto tempo sem dar notícias. A vida na alta sociedade não é tão divertida sem você. Minhas sobrancelhas se ergueram, mas eu me mantive em silêncio, observando cada gesto dela. — O que você quer, Selene? — Perguntei, direto ao ponto. Ela sorriu, mas sua expressão logo se tornou mais séria. Como se aquele jogo de encantos não fosse mais necessário. — Eu vejo que encontrou outra. — Seus olhos escureceram ligeiramente ao mencionar Ella. — Uma ômega qualquer que está carregando seu filho. Eu senti meus dentes se cerrando, o incômodo crescendo dentro de mim. — Ela não é qualquer coisa, Selene. Ela riu, como se estivesse diante de um garoto ingênuo. — Oh, Pierre... Ainda tão obstinado. Não vê que esse não é o seu jogo? Ela é só um peão no seu tabuleiro, um peão sem marca. Nenhuma ômega verdadeira, nada além de alguém que pode te dar um herdeiro. O ódio brotou em mim como uma chama. Como ousava desrespeitar Ella daquela maneira? — Basta, Selene. — Eu disse, de forma firme, minha voz baixa, mas carregada de ameaça. — Não venha aqui para me provocar. Não me interessa o que você tem a dizer. Ela inclinou a cabeça, como se estivesse tentando provocar uma reação, mas sabia que eu não cederia. — Fico surpresa que você se contenta com algo tão... barato. — Ela voltou a sorrir, mas o brilho no olhar dela era perigoso. — Não quero que estrague sua aliança com os outros por uma ômega que não te pertence de verdade. Eu sempre estive aqui, Pierre. Sempre estive ao seu lado quando precisou. Minhas mãos apertaram o braço da cadeira, a tensão que ela trazia começando a me enlouquecer. Não por ela, mas pela provocação. Não permitia que ninguém tocasse em quem era meu. — Como eu disse, Selene. Não me interessa. — Eu não tinha mais paciência para aquele jogo. Ela parecia chocar-se com a resposta. Por um momento, ela se manteve em silêncio, observando-me com um olhar diferente, como se finalmente entendesse que não tinha mais poder sobre mim. — Talvez eu tenha subestimado você. — Ela sussurrou, antes de se virar. — Mas ainda podemos conversar, Pierre. Nós podemos relembrar os bons tempos. Você sabe que sempre há um lugar para você ao meu lado. — Não tem nada que nos ligue mais, Selene. — Eu disse, de forma decisiva. — Apenas vá embora. Ela hesitou por um instante, como se estivesse calculando suas chances, mas então se afastou sem mais protestar. Ao sair, sua risada maliciosa ecoou pelo corredor, mas não me atingiu. Não mais. Assim que a porta se fechou atrás dela, um silêncio pesado tomou conta do escritório novamente. E naquele momento, tudo o que eu queria era garantir que Ella estivesse segura. Que ninguém, nem mesmo ela, ousasse tocar nela de novo. Porque, naquele mundo de poder, ela já era minha. E ninguém jamais a tocaria sem minha permissão. Ela era minha. Isso era o que mais me martelava. E eu faria qualquer coisa para proteger o que era meu.
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