Narrado por Ella
Eu estava sentada no sofá, enrolada em uma manta macia, observando o par de pantufas que Pierre havia deixado ao lado da porta. Já fazia semanas desde que tudo entre nós havia mudado — desde que a gravidez veio para nos unir de uma forma que nem ele nem eu conseguíamos evitar. A cada dia, o bebê se manifestava de um jeito ou de outro, e mesmo que eu tentasse ignorar o que estava acontecendo dentro de mim, o cansaço, a fome, e a saudade dos tempos normais batiam com força.
Mas hoje, eu queria mais do que apenas me sentir protegida. Hoje eu queria algo doce. Algo que me lembrasse que ainda havia pequenas coisas boas, mesmo nessa confusão em que estávamos.
— Pierre... — Chamei, com um sorriso travesso nos lábios, enquanto o observava pela janela, falando ao telefone com um de seus homens.
Ele ergueu o olhar ao me ouvir, e ao notar minha expressão, já parecia desconfiado.
— O que foi, Ella? — Sua voz, naturalmente baixa e grave, soou carregada de advertência. Ele sabia que eu estava prestes a pedir algo que poderia não agradar.
Mas eu já estava decidida.
— Você poderia fazer chocolate para mim? — Perguntei, inocente, com os olhos grandes e brilhantes, fazendo a melhor carinha de “cachorro pidão” que consegui.
Pierre arqueou uma sobrancelha, como se estivesse prestes a recusar, mas quando viu a expressão no meu rosto, um sorriso peculiar surgiu em seus lábios. Ele balançou a cabeça lentamente, como se já estivesse esperando por aquilo.
— Chocolate? — Ele se aproximou devagar, cruzando os braços, enquanto me olhava de cima. — Eu não sou cozinheiro, Ella.
— Por favor... — insisti, fazendo a expressão mais dramática que consegui. Era um pedido simples, mas ele nunca poderia resistir ao meu olhar.
Pierre bufou, mas mesmo assim começou a sorrir.
— Você tem ideia do trabalho que dá fazer chocolate? — Ele perguntou, se aproximando ainda mais, e eu segui o olhar dele, sorrindo abertamente.
— Sim... mas eu quero. — Respondi, agora me levantando devagar, aproximando-me dele enquanto tentava parecer inocente, mas ao mesmo tempo, me permitindo sentir a proximidade entre nós.
Pierre riu, soltando o telefone e finalmente entregando-se à minha petição.
— Está bem. Eu vou fazer o maldito chocolate. — Ele cedeu, mas com um leve sorriso no rosto, como se estivesse se rendendo a algo insignificante, mas que ele sabia que me faria feliz.
Fui atrás dele enquanto ele se dirigia para a cozinha, rindo baixinho. Era divertido observar como ele fazia de tudo um desafio — até cozinhar. Sempre tão impetuoso, tão sério, até nos pequenos detalhes.
Quando chegamos à cozinha, ele abriu a porta com um leve suspiro e acendeu a luz. A cozinha era grande, espaçosa e bem equipada, e era claro que ele sabia como funcionava, mesmo que nunca tivesse a necessidade de cozinhar ali. Ele me olhou de lado, ainda reticente.
— Agora você vai ter que me ensinar a fazer isso... — Ele resmungou, cruzando os braços e se apoiando na bancada.
— Não precisa de muitas coisas. Chocolate, leite, açúcar... — Falei, enquanto procurava as panelas no armário, pegando os ingredientes que sabia que seriam suficientes. — E... um toque de carinho. — Completei, com um sorriso malicioso no canto dos lábios.
Pierre me lançou um olhar profundo, mas não respondeu. Ele sabia que eu estava mexendo com ele de propósito, mas não parecia incomodado. Pelo contrário, parecia divertido. Não como um mafioso impiedoso que mandava em tudo — mas como um homem tentando impressionar uma mulher. Algo que ele fazia de maneira tão natural, mas ao mesmo tempo, tão raro.
Quando já tinha todos os ingredientes prontos sobre a bancada, eu fui até ele, de forma desajeitada, tentando abrir uma embalagem de chocolate ao leite. Pierre, com um olhar divertido, se aproximou, seus olhos claros caindo sobre os movimentos delicados dos meus dedos. Ele pegou o pacote de minhas mãos, como se estivesse fazendo um favor.
— Isso aí não é assim que se faz. — Ele disse, seus lábios curvados em um sorriso leve, quase doce.
Eu apenas sorri de volta, vendo a tensão relaxar por um instante entre nós. Ele parecia... diferente. Menos o lobo impiedoso que eu tinha conhecido no início, e mais o homem por trás da fachada.
Pierre abriu o pacote e, com calma, começou a quebrar o chocolate em pequenos pedaços, colocando-os na panela. Eu o observei atentamente, sentindo-me estranhamente à vontade. Era como se, pela primeira vez, estivéssemos apenas... sendo normais juntos. Algo que eu já não sabia se existia em nosso mundo.
— Agora o leite... — Ele pegou a garrafa da prateleira e a abriu com destreza. O líquido branco escorria devagar para dentro da panela, e eu percebia seu foco concentrado, como se de fato estivesse tentando fazer algo com precisão.
— Hm, parece que você tem mais talento do que imaginava. — Falei, sorrindo, enquanto me encostava na bancada, observando seus movimentos. Ele ergueu os olhos e me lançou um olhar, divertido, mas sem parar.
— Acho que o chocolate já vai ficar pronto só com o seu olhar. — Ele provocou, e o tom irônico em sua voz me fez rir baixinho.
Eu me aproximei devagar, sentindo o calor do ambiente se transformar em algo mais leve, mais íntimo. Pierre estava ali, diante de mim, concentrado, mas ao mesmo tempo, tão acessível que era impossível não me perder naquele momento. Ele virou-se para mim por um instante, e antes que pudesse evitar, nossos olhares se encontraram.
— Você realmente queria isso, não é? — Ele perguntou, e sua voz era suave, como se já soubesse a resposta antes mesmo de eu responder.
— Sim — murmurei, baixinho, sem conseguir esconder o sorriso que crescia em meus lábios.
Os minutos se passaram e, lentamente, a mistura foi começando a tomar forma. O aroma do chocolate derretido invadiu a cozinha, quente e doce, um perfume que transformava o ambiente de forma mágica. Pierre continuava mexendo a panela, seus movimentos precisos e firmes. Era como se a concentração dele não fosse só para o chocolate, mas para... algo além.
Então, ele pegou uma colher e, com um olhar que parecia pedir permissão, ofereceu para que eu provasse o primeiro pedaço. Seus olhos se fixaram nos meus enquanto eu levava o utensílio à boca, umedecendo os lábios devagar.
— Hm... — murmurei, ao sentir o doce invadir meu paladar, quente e reconfortante. — Está perfeito.
Pierre sorriu, satisfeito, mas em vez de retirar a colher, ele a levou para sua boca também. Devagar, os dois saboreamos o doce ao mesmo tempo, os lábios quase se tocando, mas sem de fato se encostarem.
Foi como se, naquele simples ato, tivéssemos encontrado um equilíbrio. Algo tão raro entre nós, mas que parecia tão certo.
— Agora que já fiz o chocolate, você vai precisar me dar um pagamento, sabe? — Pierre sussurrou, os olhos brilhando de forma marota.
— Hm... qual seria o pagamento? — Perguntei, brincando com ele, e ele apenas me olhou de lado, com um sorriso provocador.
— Acho que... um beijo já seria um bom pagamento. — Ele respondeu, a voz firme e sedutora, quase uma promessa no ar.
Meu coração acelerou, e eu não pude evitar. Com o sorriso no rosto, lentamente, me aproximei dele, nossas faces quase se tocando, nossas respirações entrelaçadas.
E então, nossos lábios se encontraram.
Foi mais do que um simples beijo. Foi suave e gentil, mas ao mesmo tempo, possessivo, como se ele me marcasse com cada toque. O chocolate nos envolvia, transformando o momento em algo que eu não sabia se era real. Era como se, pela primeira vez, eu sentisse que ele realmente me queria — não apenas como uma ômega carregando seu filho, mas como alguém que poderia significar algo mais para ele.
Pierre me abraçou, e eu senti seu calor, o calor de um Alpha que, mesmo com toda a força que demonstrava ao mundo, se permitia ser... vulnerável, ali, diante de mim.
Eu sabia, sem precisar de palavras, que aquele momento tinha mudado algo entre nós. Algo que talvez eu só pudesse esperar para descobrir...