16

1157 Palavras
Pierre Ela estava lá, em minha cozinha, com um sorriso tímido e um olhar cheio de expectativa. O aroma doce do chocolate pairava no ar, e por um instante, tudo parecia calmo. Até então, eu não percebia o quanto havia me perdido nesses pequenos momentos. Como se o peso do meu mundo, os negócios, as ameaças e as jogadas de poder, fossem algo menor diante daquela mulher... e do filho que ela carregava. Por mais que eu me controlasse, por mais que tentasse manter uma fachada de frieza, eu não conseguia evitar o jeito como meus olhos buscavam os dela sempre que estava perto. Não era apenas o desejo físico — eu sentia algo mais forte. Algo que me assustava porque não estava acostumado a sentir. Algo que me fazia questionar se eu, um lobo alfa, poderia realmente ser moldado pelo calor de outra pessoa. — Agora que já fiz o chocolate, você vai precisar me dar um pagamento, sabe? — Eu disse, provocador, enquanto mexia na panela, as costas eretas e os olhos atentos nela. Sempre atento a tudo. Mesmo nas pequenas coisas. Ella sorriu de lado, como se estivesse se divertindo com meu desafio. Ela realmente sabia como me desafiar de um jeito que eu não conseguia evitar ceder. Era como se ela tivesse um poder que eu nunca soube que existia. Algo que, estranhamente, vinha junto com a gravidez que ela trazia — o peso de algo que me conectava de um jeito que eu não esperava. — Hm... qual seria o pagamento? — Ela perguntou, provocando, mas seu olhar já indicava que sabia o que eu esperava. Eu me aproximei devagar, o olhar afiado, seguro. Ela sabia o que eu queria, e eu queria aquilo. Queria sentir os lábios dela novamente. Queria o calor da pele dela, e o cheiro doce de chocolate misturado ao perfume suave que eu já me acostumara a associar a ela. — Acho que... um beijo já seria um bom pagamento. — Falei, a voz baixa e firme, o tom firme, mas carregado de promessa. Ela sorriu, e antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, já estava se aproximando, o sorriso tímido preenchendo o espaço entre nós. Eu podia ver o nervosismo em seus olhos, mas também a determinação. Não era apenas um beijo. Era algo mais profundo, uma aceitação de algo que ainda não conseguíamos nomear — ou aceitar completamente. Era o beijo de duas almas que, mesmo com todas as diferenças, estavam começando a se entender. Quando nossos lábios se tocaram, algo mudou. Não foi um simples toque. Foi como se o mundo inteiro parasse, como se o tempo ficasse em silêncio por um instante. Os sentidos se afloraram, e eu senti cada pedaço dela, cada sentimento escondido que ela transmitia sem palavras. O toque suave de seus lábios me fez querer mais... muito mais. O chocolate derretia entre nós, o doce sendo compartilhado em cada gesto, cada movimento. Era como se aquele momento tivesse sido desenhado pelo destino para nos mostrar que poderíamos ser... algo juntos. Que talvez a única coisa que nos unisse não fosse apenas a gravidez, mas algo que eu ainda não entendia completamente. Mas então, algo mudou. O cheiro de outra presença, uma energia diferente invadiu onde estávamos. Ela estava ali, e eu percebi na mesma hora. — Pierre... — Ella murmurou, com um leve arrepio na voz, e foi o suficiente para eu saber que algo estava errado. Meus instintos entraram em alerta no mesmo instante. Eu me virei lentamente para a porta, e lá estava ele. Meu tio, Laurent. Os seguranças o deixaram entrar, claro. Ele era família, pelo menos no papel. Mas para mim, ele não passava de um parasita que sempre voltava quando precisava de algo. — Pierre! — Sua voz carregava aquele falso entusiasmo, mas seus olhos brilhavam com interesse. Ele deu alguns passos para dentro, sem cerimônia. — Finalmente consegui te encontrar. Sempre tão ocupado, não é? Minha mandíbula travou. — O que você quer, Laurent? Ele soltou um riso baixo, como se minha frieza não o afetasse. Mas eu sabia que afetava. — Ora, ora… que forma de tratar um parente — ele disse, pegando um morango da fruteira como se estivesse em sua própria casa. — Eu só vim conversar. Resolver um pequeno problema financeiro, digamos assim. Ella ficou tensa ao meu lado, observando tudo em silêncio. — Se está aqui por dinheiro, já sabe a resposta. Laurent bufou, jogando o morango de volta na fruteira com impaciência. — Você é tão ingrato, garoto. Seu pai teria vergonha de ver o próprio sangue tratando a família assim. Meus olhos se estreitaram. — Meu pai teria vergonha de ver um beta da nossa linhagem vivendo como um parasita. O rosto de Laurent se contorceu por um segundo, mas ele logo se recompôs, lançando um olhar afiado para Ella. — E essa aí? — Ele apontou com o queixo, o tom carregado de desprezo. — Então é verdade? Você realmente está se rebaixando por uma qualquer? O ar ficou pesado. Ella piscou, surpresa com o ataque direto, mas não recuou. Seu olhar firme mostrava que ela não deixaria aquele insulto a abalar. Mas eu sim. Antes mesmo que pudesse pensar, me movi. Em um segundo, minhas mãos agarraram a gola da camisa de Laurent, e em um movimento rápido, o prensei contra a parede. A mesa tremeu com o impacto, e o morango que ele jogara antes caiu no chão, esmagado. — Diga isso de novo — minha voz saiu baixa, ameaçadora. O cheiro do medo emanou dele, mesmo que tentasse disfarçar com um riso nervoso. — Ei, ei… calma, garoto. Eu só estava brincando. Apertei ainda mais. — Você não brinca comigo, e não insulta minha ômega. Nunca. Seu rosto ficou vermelho, e suas mãos seguraram meu pulso, tentando se soltar. — Está… está me ameaçando por causa de uma mulher? — Não. Estou avisando. Por um instante, tudo ficou em silêncio. Laurent percebeu que eu não estava brincando. Soltei-o bruscamente, fazendo-o tropeçar para longe. Ele se recompôs, ajeitando a gola da camisa amarrotada, tentando recuperar a dignidade. — Você vai se arrepender de tratar a família assim, Pierre. — Você não é minha família. Suas narinas inflaram, mas ele sabia que era melhor não continuar. — Isso ainda não acabou — murmurou antes de sair, batendo a porta com força. O silêncio se instalou. Respirei fundo, tentando controlar o impulso de ir atrás dele e terminar o que comecei. Então senti um toque suave no meu braço. — Pierre… — Ella murmurou. Me virei para ela, e seus olhos tinham algo que eu não esperava. Não era medo. Era algo mais profundo. Algo que fez meu coração desacelerar. Ela passou os dedos pelo meu braço, como se quisesse acalmar não apenas meu corpo, mas algo dentro de mim. — Obrigada. Foi só uma palavra. Mas pesou mais do que qualquer outra coisa.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR