Dulce
Ao longo dos dias, recebi inúmeras ligações de Alex, logicamente ignorando a todas. Ele teve até mesmo a cara de p*u de implorar aos meus amigos que conversassem comigo sobre eu pensar em falar com ele. O quão sínico Alex poderia ser? E por que diabos eu passei tanto tempo me iludindo?
Por mais que eu tivesse criado uma onda de ódio por ele, ainda sentia o meu peito doer toda vez que eu pensava em Alex. Ele foi de fato o homem que mais amei em toda a minha vida e eu cheguei até a pensar que nos casaríamos e ficaríamos juntos até o fim dos nossos dias. Triste conto de fadas, o príncipe encantado na verdade era um sapo.
Todos os domingos, Christian e Anahi dormiam em meu apartamento e sempre traziam, pizza, sorvete, hambúrguer e todo tipo de besteira para comermos. Era uma forma de me apoiarem num momento tão delicado como o de agora e a presença deles estava sendo extremamente importante para a minha recuperação.
Depois de mais uma noite de filmes, adormecemos em colchões postos no chão da sala.
— Mas que p***a! — acordei com o berro dado por Christian. Ele caminhava de um lado para o outro olhando a tela de seu celular.
— Algum problema? — sentei me espreguiçando.
— Desculpe por ter te acordado, Dulce. A Lola ficou doente e não pode ir até a loja hoje, fiquei de ir no lugar dela, mas acabaram de me mandar uma mensagem dizendo que uma das minhas cargas de produtos foi extraviada e eu preciso ir até a transportadora resolver. — colocou as mãos na cabeça. — Parece que vou ter que fechar as portas hoje. — Christian era dono de uma loja de produtos naturais no centro.
— Eu posso ir até a loja se quiser. — me ofereci.
— Não vai trabalhar hoje?
— Na verdade, não. Só tenho que editar algumas fotos, mas não é grande coisa, posso fazer isso enquanto cuido da loja.
— Já disse que eu te amo? — dei risada. — Aqui estão as chaves. — jogou o chaveiro para mim. — Abrimos das oito até as onze e meia e depois, das uma até as quatro. Mas pode fechar antes se quiser, sem compromisso.
— Pode deixar, Christian e boa sorte com a carga.
— Obrigado! — ele beijou o topo da minha cabeça e saiu quase correndo pela porta da frente.
Levantei, preparei um café da manhã para mim e Annie e depois de deixar tudo pronto, tomei um banho e me vesti. Quando cheguei até a cozinha, ela já estava comendo uma das panquecas no balcão.
— Bom dia, Barbie! — eu disse.
— Bom dia! Onde vai assim? Tem que ficar em casa pra editar aquelas fotos.
— Vou fazer isso na loja do Chris. Nem ele e nem a Lola podem ir hoje, então eu prometi ir pra que ele não tenha nenhum prejuízo.
— Ótimo, eu vou com você! — animou-se.
— Tudo bem. — sorri.
Terminamos o café e depois de aguardar que Anahi estivesse pronta, nós saímos direto para o centro. Abrimos a loja e colocamos os aventais que estavam sobre um cabide na entrada.
— Eu adoro essas coisinhas! — Anahi disse enquanto corria seus dedos pelos cristais das prateleiras.
— Realmente funcionam? — perguntei.
— Claro, algo de incrível sempre acontece quando uso meu colar de quartzo. — segurou o pingente brilhante em seu pescoço.
Fui para trás do balcão e peguei meu notebook da mochila, o abrindo direto no meu álbum de fotos. Anahi cantarolava pela loja, varrendo o chão enquanto dançava alegremente. No decorrer do dia, algumas pessoas apareceram, sendo atendidas de modo intercalado por mim e por Annie.
— O Christian deveria nos contratar, somos ótimas! — ela disse sentando no banco ao meu lado. — Adorei essa iluminação. — apontou para a tela do notebook.
— Bom dia! — alguém entrou na loja e eu não pude acreditar quando o vi.
— p**a merda. — Anahi resmungou com cara de tédio. — Deixa que eu mando ele cascar fora daqui. — ela ia levantar, mas eu segurei o seu braço.
— Não, eu vou! Preciso dar um fim nisso de uma vez! — levantei e fui até ele com toda a fúria que eu guardava. Parei em sua frente e cruzei os braços o encarando.
— Então, eu preciso de algumas velas aromatizantes para uma missa particular de sete dias. Qual destas me recomenda? — ele estava brincando com a minha cara? E que droga de colarinho clerical era aquele?
— O que está fazendo? — franzi a testa.
— Perdão? — olhou-me confuso.
— Já não basta ficar me ligando todos os dias e incomodando os meus amigos? Ainda vem até aqui com a maior cara de p*u nessa fantasia de padre? — dei um peteleco em seu colarinho. — Vergonha na cara é de graça, meu filho!
— Eu... — o interrompi.
— Quem te disse que eu estaria aqui hoje? Tá me seguindo? — o olhei com desconfiança.
— Deve haver algum engano. — ele deu um passo para trás, no seu rosto, uma expressão de quem está diante de uma pessoa louca.
— O único enganado aqui é você que acha que pode me meter um par de chifres e ser perdoado depois! Alex, eu fui burra por muito tempo ao seu lado, mas tudo tem limite!
— Ah! — ele começou a rir.
— Ainda ri da minha cara? — fiquei indignada. — Eu deveria chutar a sua b***a!
— Isso seria doloroso e inapropriado. — ele parecia se divertir com a situação. — Senhorita, queira deixar que eu me explique. Muito prazer, Christopher Uckermann. — estendeu sua mão para me cumprimentar, mas eu não iria cair nessa tão fácil. — Ok... — afastou sua mão. — Alexander é meu irmão, nós somos gêmeos. Eu entendo que ele possa ter agido de má fé com a senhorita e possa ter feito coisas das quais um homem não deveria se orgulhar. Não sei se ele pediu desculpas, mas em nome dele eu peço perdão.
— Que p***a de joguinho é esse?
— Dulce... — Anahi me chamou e eu me virei para observá-la. — Acabei de procurar por "Christopher Uckermann" no i********: e... — ela virou o notebook para mim, mostrando um perfil com várias fotos de missas, viagens religiosas e afins. — O perfil existe a cinco anos e tem uma foto em família onde vemos o Alex com o irmão gêmeo. — ela abriu a foto e me mostrou.
— Além disso... — o padre chamou minha atenção. — Meu irmão possui tatuagens em seus dedos, algo com uma simbologia arcaica. — estendeu suas mãos para que eu observasse que não havia nada. — Não sou o Alex.
— Meu Deus... — fiquei boquiaberta, me sentindo totalmente envergonhada por ter agido com tanto desrespeito com um padre. — Eu sinto muito, eu realmente sinto muito! — juntei minhas mãos em súplica. — Eu acabei de dar um peteleco no colarinho clerical de um padre! — coloquei a mão sobre a testa.
— Está tudo bem. — ele riu. — Não é a primeira vez que alguém me desfere palavras tão grosseiras por me confundir com o Alex. Ele nunca tem boas intenções com as mulheres. — deu de ombros.
— Por que ele nunca me falou que tinha um irmão gêmeo? Nós namoramos por três anos!
— Três anos? — arqueou as sobrancelhas. — Desculpe ser o responsável por lhe contar, mas não foi a única que ele namorou nos últimos três anos.
— O que? — fiquei séria.
— Deve ter sido por isso que ele nunca falou de mim. Bom, primeiro que ele me detesta, segundo, eu nunca concordo com as tramoias dele e sempre que puder livrar mulheres inocentes dos falsos encantos do Alex, eu o farei.
— Mas acho que eu acabaria descobrindo em algum momento. Ele também não me disse que tinha a Maitê como irmã e nós acabamos nos encontrando por acaso.
— Creio que não nos conhecemos antes porque eu acabei de me mudar de volta para a cidade. Vou servir na paróquia de Santa Cecília.
— É a que o meu pai frequenta.
— Mesmo? Que coisa incrível! Por que não vai no domingo? Tenho certeza que irá gostar do sermão e talvez você esteja precisando se livrar das más energias que o caráter duvidoso do meu irmão deixou em você.
— Confesso que eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas isso pode ser interessante. — cocei a nuca. — Enfim, velas.
O ajudei a escolher as velas e depois fomos ao caixa para o pagamento. Coloquei as velas dentro de uma sacola e entreguei para ele.
— Dulce, não é? — ele perguntou.
— Isso. — confirmei.
— Foi um prazer conhecê-la, espero vê-la na missa de domingo. E a senhorita também está convidada. — ele estendeu a mão para Annie que o cumprimentou.
— Claro! — Anahi sorriu.
— Tenham um bom dia de trabalho, senhoritas! — despediu-se.
— Obrigada, um bom dia pra você também, padre! — respondi com um aceno. Depois que ele saiu, eu e Annie ficamos em silêncio por longos segundos, até que a loira soltou uma gargalhada.
— Você ameaçou chutar a b***a de um padre! — exclamou ainda entre risos.
— Em minha defesa, foi um engano e ele entendeu isso! — revirei os olhos.
— O Christian vai morrer de rir quando eu contar!
— Mas você também achou que ele fosse o Alex. — sorri de lado.
— Sim, mas eu não olhei pra ele como se fosse soca-lo a qualquer momento. — deu dois tapinhas em meu ombro. — Ganhou seu passe de primeira classe para o inferno.
— Ai, credo! — balancei a cabeça negativamente. — O que achou do padre?
— Gentil, como todos os padres são. — deu de ombros. — E você?
— É estranho ver alguém com o rosto igual ao do Alex, mas que não é o Alex.
— E que certamente tem muito mais decência do que ele. — Annie completou e eu assenti. — Vai à missa?
— Talvez, eu não sei. Faz anos que não entro em uma igreja.
— É melhor voltar a frequentar agora que você cometeu o pecado de ameaçar um padre. — tornou a rir.
— Você não vai me deixar em paz com isso, não é? — ri junto.
— Não mesmo!
No horário de almoço, eu e Annie resolvemos comer num restaurante do shopping. Escolhemos uma mesa perto da janela e fizemos nossos pedidos. Enquanto aguardávamos, eu avistei uma morena familiar toda atrapalhada com as inúmeras sacolas que carregava.
— Será que eu verei todos os Uckermann's hoje? — resmunguei mais para mim.
— O que? — Annie virou para trás. — May! — a chamou.
— Não, não chama ela! — sussurrei, mas já era tarde.
— Amigas! — ela sentou numa cadeira ao meu lado. — Que bom que estão aqui, assim não tenho que almoçar sozinha. — sorriu. — Ai, querida, tá precisando refazer essas mechas, hein? — falou tocando o meu cabelo.
— Claro. — forcei um sorriso.
— Estourando muito os cartões do seu pai, Maitê? — Anahi perguntou.
— Ai que engraçadinha! — Maitê riu. — Na verdade, o papai resolveu me empregar para que eu mesma pague por minhas coisas. Serei a assistente pessoal dele.
— Coitadinha, vai ter que trabalhar! — fiz bico, debochando dela.
— Os dias de luta chegam para todos! — falou com orgulho. — Quais são as novas?
— Conhecemos o seu outro irmão, o padre Christopher. — Anahi disse.
— Ah, ele é um amor de pessoa, não acham?
— Quando você ia me contar que tinha outro irmão? Namorei o Alex por anos! — reclamei.
— O Christopher não morava aqui, não achei que a informação fosse relevante.
— Eu era namorada do seu irmão! — exclamei.
— Ai, calma. — ela riu. — Você não era a única namorada dele de qualquer forma.
— Isso é sério? — Anahi a olhou desacreditada. — Como você ainda se diz amiga da Dulce?
— Não me levem a m*l, Dulce você é maravilhosa e eu te amo, foi minha cunhada preferida. — segurou minha mão. — Mas o Alex é meu irmão.
— Não interessa se ele é seu irmão, ele é um i****a! — eu disse.
— Querida, não o protegi por fraternidade. Por ser meu irmão, Alex sabe coisas de mim das quais papai não iria gostar muito de saber. Não falo sobre o que ele faz e ele não fala sobre o que eu faço. — deu de ombros.
— Pessoas ricas e suas picuinhas familiares. — Anahi disse. — O padre Christopher é normal, pelo menos?
— Se ser casado com a igreja é ser normal, então sim. — sorriu. — Imagina só escolher ter uma vida de castidade?
— Eu acho admirável. — comentei. — Jamais conseguiria fazer isso, tem que ter muita força de vontade.
— E o Christopher tem. Enfim, mudando de assunto, agora que não está mais com o babaca do Alex, eu posso te contar tudo o que quiser saber. — Maitê me olhou com animação.
— Não quero saber mais nada sobre o seu irmão, pra mim ele está morto.
— Que coisa horrível de se dizer. — negou com a cabeça. — O que vão pedir? — ela pegou a ficha com nossos pedidos. — Por isso estão com essas gordurinhas a mais, e olha essa pele, Annie, tão ressecada! — tocou o rosto de Anahi. — Precisam se reeducar. — ela pegou o cardápio e deu uma rápida lida. — Garçom! — estalou os dedos para cima.
Fuzilei Anahi com o olhar enquanto Maitê pedia um prato com um nome bem complicado, mas que eu apostava que não teria gosto de nada. Anahi deu de ombros e revirou os olhos.
Aquele seria um longo almoço com Maitê deferindo críticas de uma forma suave, como se só estivesse nos ajudando a ser "melhor como ela". Era fácil estar sempre bonita e com a pele macia sendo uma patricinha mimada que nunca precisou trabalhar para se manter.