Dulce
Domingo de manhã.
Eu levantei da cama por volta das seis, fiz um café forte e sentei em minha varanda observando o resto do nascer do sol. Era uma manhã com um clima confortável e que me trouxe a sensação de precisar fazer algo, ir a algum lugar.
Olhei para o meu apartamento silencioso e me dei conta de que não teria nada para fazer além de assistir filmes e comer besteiras, como vinha fazendo em qualquer tempo livre que tinha. Eu estava me saindo bem como uma solteira que ainda não superou os chifres do último relacionamento.
Dei um longo suspiro e tornei a observar o céu. As lembranças de Alex voltaram e eu me senti triste por ele ter parado de me procurar, por mais que eu tivesse insistido várias vezes para que ele me deixassem em paz. Não era fácil viver com a ideia de que eu não poderia aceitá-lo de novo, por mais que meu corpo implorasse pelo seu toque.
Uma pequena lágrima escapou do meu olho, correndo por minha bochecha e se desfazendo em meus lábios. Eu sempre tentei ser uma boa pessoa em todos os quesitos. Uma boa amiga, uma boa filha, uma boa mulher, uma boa namorada... o que estava errado em mim? Por que não sou interessante o suficiente para que alguém queira ficar comigo e só comigo?
Enxuguei meu rosto, respirei fundo enchendo meus pulmões de ar e fechei os meus olhos.
— O problema é ele e não você. — falei para mim mesma. Tornei a abrir os meus olhos e sorri sem mostrar os dentes. Tudo isso passaria, eu tinha que acreditar.
Saí da varanda e fui até a minha cozinha, disposta a preparar um café da manhã que não fosse uma tigela de cereal doce, como nos últimos dias. Preparei algumas panquecas e fiz alguns recheios diferentes.
Depois de preparar, eu tomei um banho demorado e finalmente me sentei ao balcão para comer, ouvindo uma boa música no meu som. Curiosamente, a música que eu estava ouvido era "take me to the church", que em sua tradução literal significava "me leve para a igreja".
Olhei meu relógio de pulso que marcava sete e meia da manhã. Dali a meia hora, a missa se iniciaria e eu pensei por alguns segundos se deveria aceitar o convite recebido pelo padre Christopher ou se ficaria em casa, num domingo igual a todos os outros.
— Ok, não custa nada fazer algo diferente e eu bem que preciso respirar novos ares. — eu disse levando meu prato até a pia.
Fui até o meu quarto e escolhi uma roupa simples para usar. Um vestido azul claro que ficava um palmo acima dos meus joelhos. Nos pés, eu usei uma sandália de couro marrom, com sua tira trançada amarrada ao meu tornozelo. Coloquei uma jaqueta jeans, deixei meus cabelos soltos e peguei uma bolsinha de ombro.
Quando ia saindo de casa, dei de cara com Christian, vestindo uma roupa esportiva, prestes a ir fazer uma caminhada.
— Vai sair? — ele perguntou com a testa franzida.
— Vou à missa.
— Que? — deu risada. — Fala sério, onde vai?
— À missa. — repeti, revirando os olhos.
— E por acaso você acredita em Deus?
— É claro que eu acredito! — afirmei. — Eu só não sou muito ativa se tratando de religiosidade.
— Dulce, qual a primeira história da bíblia?
— Adão e Eva! — respondi convicta e ele negou com a cabeça. — Ué, não?
— É a criação!
— Tá, e daí? Quem lê a bíblia hoje em dia?
— Cristãos, como pessoas que frequentam missas e os padres que as realizam.
— Christian, não é como se eu fosse me converter, eu só recebi um convite e resolvi que quero ir. — dei de ombros.
— O convite do padre que é irmão gêmeo do Alex? — eu assenti. — Depois me conta como foi estar num mundo completamente estranho pra você.
— Pode deixar. — sorri de lado.
Nós dois descemos juntos até a recepção e nos despedimos no estacionamento do prédio. Eu dirigi até a paróquia onde a missa do padre Christopher seria realizada. Assim que estacionei e saí do meu carro, observei várias pessoas caminhando pela praça da igreja com bíblias e terços em mãos. Tinha realmente muita gente ali.
Entrei na igreja e quando vi uma senhorinha fazer um sinal da cruz ao passar em frente ao altar, eu imitei seu gesto, só para garantir que não iria desrespeitar a fé de ninguém. Segui até um espaço em um dos bancos, onde eu sentei e aguardei.
Já estava ficando um pouco impaciente, até que ouvi o coral da igreja começar a cantar um hino religioso. Todos ficaram de pé e eu fiz o mesmo. Da entrada, o padre Christopher entrou, vestindo uma batina, acompanhado de outras pessoas que eu deduzi que seriam coroinhas.
Assim que ele chegou ao altar, cumprimentou a todos e iniciou a leitura de uma parte da bíblia. Depois da leitura, começou a caminhar pelo altar, dando um sermão sobre os valores da família e o porquê de precisarmos entender o lado de outras pessoas, por mais que estejam em realidades completamente diferentes da nossa.
Fiquei impressionada em como ele falava bem e como suas palavras tinham um grau imenso de persuasão. Tudo o que ele dizia fazia sentido e me deixava com uma sensação de tranquilidade e aprendizado, como se eu precisasse ouvir aquilo a anos.
No geral, toda a missa foi silenciosa e até um pouco arrastada, exceto nos momentos em que Christopher falava por si mesmo, transpassando o quanto era sábio. Era encantador ouvi-lo.
— Ide em paz e que o senhor vos acompanhe. — ele disse.
— Graças a Deus! — todos os fiéis disseram em uníssono e então, começaram a levantar para ir embora.
Antes de ir embora, eu queria ir falar com o Christopher e parabeniza-lo pela excelente missa. Foi tudo muito diferente do que eu imaginei e era impressionante que eu não tivesse ficado com sono, apesar do silêncio na maior parte do tempo.
O avistei cumprimentando alguns fiéis, lhes dando apertos de mãos e apoiando a mão em suas cabeças como se os abençoasse. Ele sorria gentilmente para todos.
— Dulce! — ele sorriu para mim quando me aproximei. — Que alegria tê-la aqui!
— Resolvi aparecer e fiquei muito satisfeita com a missa, adorei a forma como a realizou, foi excelente, você usa ótimas palavras e tem ótimas opiniões. — elogiei.
— Obrigado por isso. — falou gentilmente. — E como se sentiu?
— Bem, de verdade. Acho que eu precisava ouvir a palavra de Deus. — sorri fraco.
— Términos podem ser difíceis. Tudo o que acaba deixa um vazio em nós, mas um vazio que pode ser preenchido pelo amor de Deus.
— Eu prefiro não pensar no Alex agora. — desviei o olhar, um pouco sem jeito.
— Claro, eu compreendo. O que pretende fazer quando sair daqui?
— Ir para casa, ficar jogada no sofá e me encher de besteiras. — eu ri.
— Uma pena que tenha planos importantes. — brincou. — Eu ia chamá-la pra tomar um café numa cafeteria aqui perto.
— Eu vou adorar! — sorri.
— Ótimo, só peço que me espere por um instante, tenho que guardar a minha batina.
— Vou estar na entrada da igreja.
— Ok, com licença.
Fui até a porta da igreja e enquanto aguardava, fiquei respondendo algumas mensagens, dentre elas, uma de Christian perguntado o que eu havia achado da missa.
Levantei meu olhar no momento exato em que Christopher estava saindo da igreja. Por um breve momento, achei até que ele era o Alex, o que me fez sentir uma leve pontada em meu peito. É que diferente da outra vez que o vi, ele não estava com o seu colarinho clerical e usava uma camisa social azulada, com os dois primeiros botões abertos.
Christopher ajeitou o seu cabelo sutilmente e eu acompanhei o movimento de sua mão, pendendo a cabeça para o lado e inconscientemente, ficando boquiaberta. Talvez o fato de ele ser a cópia exata de Alex estivesse me afetando negativamente.
— Podemos ir? — eu ouvi ele dizer assim que parou em minha frente, mas eu apenas travei igual uma boba, ainda de boca aberta. — Dulce? — franziu a testa.
— Sim... podemos. — falei finalmente.
Começamos a caminhar um ao lado do outro, indo a pé até a cafeteria que não ficava muito longe e já podia ser vista da calçada da igreja. Durante o caminho, várias pessoas cumprimentavam Christopher com os dizeres "sua benção, padre", tendo em resposta um "Deus te abençoe" da parte dele.
— Eu deveria pedir a sua benção também? — perguntei.
— Não necessariamente. Eu sou apenas um intermédio, a benção vem de Deus.
— E o que seria um intermédio de Deus?
— Jesus deu autoridade aos seus sacerdotes para que cuidassem de suas ovelhas. A minha função é comunicar em nome de Deus, guiar as ovelhas para o caminho da salvação.
— Isso é muito interessante. — falei com sinceridade.
Nós chegamos até a cafeteria e sentamos em uma mesa para dois. Christopher fez sinal para uma das garçonetes e depois que ela também pediu sua benção, nos deixou dois cardápios e retirou-se.
— E então, o que quer pedir? — perguntou, folheando o cardápio.
— Um café forte sem açúcar e uma porção de biscoitos de nata. — eu disse.
— Acho que vou querer o mesmo. — sorriu para mim e eu acompanhei a covinha que se formou em seu rosto, a mesma covinha que Alex também tinha. — Tudo bem? Tem algo no meu rosto? — passou o dedo naquela região como se quisesse limpa-la.
— O que? Não! Desculpe. — eu ri. — Não queria mesmo falar dele, mas vocês são tão iguais que é um pouco difícil pra mim não pensar nisso.
— Olha, Dulce... — suspirou. — O motivo de eu ter lhe chamado aqui foi justamente pra saber o que se passa e talvez tentar ajudá-la. Eu vi o meu irmão destruir várias mulheres. Sei que o amor é um sentimento poderoso que te leva ao céu e que também pode te derrubar ao mais profundo abismo. Não quero cometer o mesmo erro de deixar a sua recuperação nas mãos do destino. A minha função é servir à Deus e aos meus irmãos, tenho que ter certeza de que está bem.
— Eu fico agradecida, mas não precisa se preocupar, não é sua obrigação ser a minha babá ou algo assim. — ri de leve.
— Ele é meu irmão, eu devo me importar com o que ele faz. Já que eu não consigo mudá-lo, posso reparar os danos que ele causa.
— Sendo assim, tudo bem. O que precisa saber agora é que eu estou na fase da negação. Eu penso no Alex o tempo todo, mas não quero que ele me ligue, nem quero falar sobre ele.
— Podemos falar sobre outra coisa enquanto essa fase não passa. É até bom que tente distrair a sua mente para que não pense tanto nele. — eu assenti concordando.
— E então, como decidiu ser padre? — apoiei meu queixo em uma das mãos e o observei atentamente.
— Eu estudei num colégio católico com os meus irmãos. Maitê sempre dormia durante as orações e aulas de religião, Alex aproveitava que nada disso era obrigatório e nunca aparecia. Fui o único a prestar atenção, aprender e amar tudo isso.
— Você disse que sabe como o amor é um sentimento poderoso. Por acaso você já teve algum relacionamento antes de ser padre?
— Isso é uma entrevista? — me olhou de canto.
— Desculpa, eu sou muito curiosa, principalmente sobre realidades das quais eu não sei nada. Se não quiser responder, tudo bem, não quero ser invasiva.
— Dulce, eu estou brincando. — riu de leve. — Eu gosto que as pessoas se mostrem interessadas pela minha vida. Bom, respondendo à sua pergunta, sim. Eu já tive um relacionamento, mas não durou muito, foram apenas três meses e foi no ensino médio.
— Nunca sentiu falta das coisas que não pode mais fazer por ser padre?
— Hoje não mais. Durante o início dos meus estudos, confesso que eu deslizei algumas vezes e fiz coisas das quais não me orgulho, mas isso passou, eu consegui superar o meu erro.
— Eu gostaria de poder superar o meu erro de ter me apaixonado pelo seu irmão. — falei com humor.
— Paixão não é um erro, afinal, você não escolhe quem vai amar.
— Como duas pessoas idênticas conseguem ser tão diferentes? — eu disse um tanto quanto chocada.
— Eu e Alex somos extremos opostos e isso fez com que não fôssemos tão próximos. As únicas vezes em que precisamos nos ver, m*l nos falamos e se falamos, acaba em discussão.
— Isso deve ser muito r**m.
— Para mim, sim. Ele é meu irmão gêmeo, a pessoa com quem eu deveria ter uma grande conexão. Mas não sei se faz tanta diferença pra ele. — deu de ombros.
— Vazio do jeito que ele é, não duvido que não tenha empatia com o próprio irmão. — resmunguei.
— Eu ainda acho que podemos ser mais unidos, mesmo que ele insista em ficar tão distante. — mirou o chão.
Nós continuamos a conversar e eu gostava cada vez mais do Christopher e de tudo o que ele tinha para falar sobre o mundo e sobre Deus. Era incrível a sua ótima dicção e o emprego das palavras perfeitas.
Confesso que em certos momentos, o meu cérebro se distraiu, prestando mais atenção na aparência dele do que em sua fala. Perder a concentração era fácil, eu me via reparando no movimento de seus lábios e em seus olhos a todo instante, mas sempre me obrigava a parar com isso, repetindo mentalmente que aquele em minha frente não era o Alex.