Dulce
— Abstrai e finge demência. — Anahi disse após eu contar como foi minha noite com o Christopher e como eu estava me sentindo.
— Como é? — revirei os olhos.
— A Annie tem razão. — Christian começou. — Não adianta em nada ficar martelando a cabeça com isso quando todos sabemos que essa história só termina de dois jeitos e em nenhum dos casos você fica com o Christopher.
— E quais são os dois jeitos?
— Primeiro: você conta pra ele sobre essa atração super bizarra e acaba estragando tudo, com ele decidindo te manter longe dele, já que você foi doida o suficiente pra sexualizar um padre.
— Eu não estou sexualizando ele! — falei com impaciência.
— Continuando... — me ignorou. — Segundo: você fica quieta, espera essa atração passar e continua tendo a amizade legal que teve com ele desde o início.
— É o que eu disse, abstrai e finge demência. — Anahi estava quase cochilando.
— Vocês me acham esquisita? — me preocupei.
— Claro que sim! — Christian afirmou. — Mas não por ter um crush em um padre.
— Engraçadinho. — forcei um sorriso.
— Será que isso não é tipo satanás tentando contra a sua fé? — Annie riu.
— Para de brincar com isso, que coisa bizarra! — exclamei.
— Mais bizarro que querer t*****r com um padre? — Christian perguntou em tom de graça e os dois começaram a rir feito hienas.
— Quer saber? Tomem um banho, bebam um café forte e vão dormir! — eu disse levantando. — Amanhã é segunda, temos que trabalhar.
— Pode deixar, mamãe! — Annie me mandou um beijinho no ar.
— Boa noite, amo vocês!
— Te amo! — gritaram em uníssono.
Assim que entrei em meu apartamento, enviei uma mensagem para o Christopher, avisando que estava em casa. Ele respondeu com mais uma mensagem de agradecimento e um convite para almoçar comigo no dia seguinte. Parei observando a tela do meu celular por alguns segundos e depois de sacudir minha cabeça para voltar à realidade, eu respondi normalmente dizendo que aceitava.
Tomei um longo banho quente e depois de vestir meu pijama, eu fui para debaixo dos lençóis. Eu não conseguia dormir e só ficava rolando de um lado para o outro na cama, sem conseguir tirar o sorriso de Christopher da minha cabeça. Eu me sentia muito m*l por estar pensando nele daquela forma, mas eu não conseguia parar!
Acabei tendo a ideia de fazer uma oração, para quem sabe pedir a Deus que retirasse esses pensamentos impróprios da minha cabeça. Levantei da cama e me ajoelhei no chão, unindo minhas mãos.
— Senhor, eu não sei bem como começar uma oração, mas acho que eu não tenho que dizer muita coisa. O senhor é Deus e sabe o que se passa com todos nós. Enfim, eu só queria pedir pra que essa coisa estranha que começou a nascer pelo Christopher acabe. Ele é um padre, um sacerdote e está cumprindo a sua missão de servi-lo. Eu não quero chegar do nada e atrapalhar isso e também não quero me sentir desconfortável perto dele. Será que poderia me iluminar um pouco? Limpar a minha alma dessas coisas inapropriadas? Eu ficaria extremamente grata. — fiquei em silêncio por alguns segundos. — Hum... boa noite e amém!
Tornei a me deitar e após longos minutos, eu finalmente peguei no sono. Fui acordada pelo barulho do despertador, o que me fez proferir dezenas de palavrões. Eu não havia dormido o suficiente e minha cabeça estava doendo pra caramba!
Levantei, comecei o meu dia como de costume e depois de estar devidamente vestida, me servi de um café da manhã leve. Apenas uma panqueca doce e um café amargo. Sobre o balcão, meu celular começou a vibrar e eu vi o nome "Alexander" na tela.
— Oi. — atendi seca.
— Bom dia! Estou atrapalhando?
— Não, eu só estou tomando café da manhã. O que foi?
— Você saiu da minha festa sem se despedir. Christian me disse que foi embora mais cedo, aconteceu alguma coisa?
— Eu estava com o seu irmão.
— Que? Saiu da minha festa pra ir ficar com o Christopher? — ele pareceu se ofender.
— Também era aniversário dele e ao contrário de você, ele estava sozinho.
— Ficou com dó? Ele quem escolhe passar o aniversário assim!
— Se conversasse um pouquinho com o seu irmão, veria que as coisas são bem diferentes do que você pensa.
— Ah, é? E como são as coisas?
— Não sei, você disse que iria tentar ser alguém melhor. Por que não começa tendo uma conversa decente com ele? Eu aposto que ele adoraria.
— Sempre que tentamos conversar, ele destaca o quanto eu estou no caminho errado da minha vida e francamente, isso é extremamente chato!
— Christopher só está preocupado com você e com razão! Você não leva nada nem ninguém a sério, deveria rever seus conceitos.
— Agora vai virar uma crente chata também? Eu gostava tanto de você, Dulce.
— Se você quer interpretar isso como um ataque, o problema é seu! Tenho que trabalhar, tenha um bom dia. — desliguei sem esperar resposta. Eu já tinha começado o dia um pouco irritada e ter paciência com Alex era uma coisa que custava.
Quando ia saindo de casa, encontrei Anahi e Christian saindo também. Os dois usavam óculos escuros e assim como eu, não pareciam ter começado o dia muito bem.
— E aí? — eu disse.
— Pode me levar até a loja? Não estou em condições de dirigir. — Christian colocou a mão sobre a barriga.
— Vamos lá, seus bebuns! — sorri de lado.
Já em meu carro, Christian encostou a cabeça no banco de trás e acabou adormecendo. Anahi estava com uma garrafinha de água em mãos e não parava de beber.
— Vocês têm que ir mais devagar. — falei.
— Pelo menos a gente nunca foi parar na casa de um padre depois de beber. — ela riu.
— Até quando vão encher meu saco com isso? — a olhei de canto.
— Até não ter mais graça. — deu de ombros. — Por falar em padre, desculpa a gente não ter dado os melhores conselhos ontem. Como viu, não estávamos bem.
— Não tem problema, vocês falaram a verdade.
— Mas esquecemos de uma coisa. Eu e Christian estávamos conversando hoje de manhã e concordamos que talvez você não esteja atraída pelo Christopher.
— Não? — arqueei a sobrancelha.
— Pensa só, você terminou com o Alex tem pouco tempo e você sempre quis que ele fosse um homem maravilhoso, que soubesse o que dizer e que te tratasse super bem. Você começou sentindo uma atração pela aparência do Christopher porque ele é igual ao Alex e talvez, só talvez, o seu subconsciente interprete que ele é um Alex 2.0, entende? Um cara com o rosto que você ama e com a personalidade que você sempre sonhou.
— Ok... — respirei fundo, tentando processar todo esse raciocínio. — Acho que eu preciso fazer terapia.
— Essa sempre é uma opção. — sorriu para mim.
Chegamos até o centro e depois de acordarmos Christian, ele se despediu de nós e eu dirigi até o estúdio. A manhã foi rotineira, como qualquer outra. Perto do horário de almoço, Christian me mandou uma mensagem para nos encontrarmos num restaurante do shopping.
— Vai almoçar aqui? — Annie perguntou.
— Vou almoçar com o Christopher. — ela me olhou de relance. — Que?
— Não acha que deveria evitar ele um pouco? Pelo menos até essa loucura passar.
— No momento, eu vou seguir o seu conselho de ontem. Abstrair e fingir demência. — sorri sem mostrar os dentes.
— Eu tenho que parar de beber. — balançou a cabeça negativamente.
Eu fui até o shopping com a mente ainda um pouco bagunçada. Não era a primeira vez que o veria, então por que eu estava nervosa? Minhas mãos estavam tão suadas que deslizavam pelo volante, tornando dirigir uma tarefa bem difícil.
Estacionei e comecei a caminhar até o shopping. Fui até o restaurante indicado e depois de correr meus olhos pelo lugar, eu o encontrei sentado em uma mesa, distraído em seu celular.
Caramba, como você é lindo!
Me recompus e me repreendi mentalmente por esse último pensamento. Comecei a andar até a mesa e assim que me viu, ele sorriu gentilmente e se pôs de pé. Eu sorri em retribuição e nos cumprimentamos um um beijo no rosto.
— Me esperou muito? — perguntei ao sentarmos.
— Não, acabo de chegar também. — notei que ele usava o cordão de prata que eu havia lhe dado e deixei um sorriso satisfeito escapar dos meus lábios. — Eu adorei. — ele falou tocando o cordão, assim que me viu observá-lo.
— Ficou bem em você, deveria usar mais jóias. — sugeri.
— Só gosto de usar essas coisas quando elas têm um significado especial.
— É mesmo? E que significado o cordão de prata teria?
— Só o fato de você ter me dado ele já o torna especial. — fiquei muda, completamente estática depois de ouvir aquilo. — Dulce? — ele sacudiu sua mão em frente ao meu rosto e eu pisquei me recompondo.
— Já sabe o que vai comer? — abri o cardápio na tentativa de evitar contato visual.
— Só um almoço tradicional. E você?
— Acho que vou querer o mesmo.
Nós fizemos os nossos pedidos e conversamos o tempo todo durante o almoço. Bem, ele falou mais do que eu, devo confessar. Na maior parte do tempo, eu apenas desejava que ele falasse mais, com sua voz entrando no meu subconsciente e me fazendo relaxar de maneira única. Por mais que eu não pudesse ter nada com ele, só de interagir eu me sentia bem, com as borboletas saltando em meu estômago.
Nós terminamos de almoçar e ele me acompanhou até o meu carro no estacionamento.
— Sobre a quermesse, você já preparou o contrato? — perguntou.
— Eu esqueci totalmente de te avisar, mas sim. Era para ter trazido para que assinasse.
— Olha, eu não vou fazer nada agora. Posso ir até o estúdio com você e debater sobre o contrato, que tal?
— O-ok. — Christopher comigo dentro do meu carro. Certo, espero não bater enquanto me distraio o olhando pelo retrovisor.
Durante o caminho, me concentrei na estrada o quanto pude, sempre concordando com tudo o que ele dizia e pedindo a Deus para que chegássemos logo. Aquele era um espaço pequeno demais para eu dividir com ele.
Quando chegamos ao estúdio, Anahi o cumprimentou e depois me lançou um olhar malicioso, o que me fez revirar os olhos.
— Nós estaremos na minha sala, só me chame se for algo importante. — pedi para ela.
— Pode deixar! — sorriu.
Nós entramos na sala e eu peguei a pasta com o contrato para que ele lesse. Entreguei em suas mãos e com um semblante sério, ele correu os olhos pelo papel. Confesso que vê-lo tão concentrado me fez sentir uma leve umedecida na calcinha e isso era tão errado que eu mordi o lábio inferior com força.
— Nossa, mas você não está cobrando quase nada! — ele disse impressionado.
— Eu disse que essa seria a minha doação angelical. Só vou cobrar aquilo que gastarei com material, então não terei lucro nenhum com esse trabalho.
— E tudo bem pra você? — perguntou preocupado.
— Vou me sentir ótima fazendo isso. — sorri e ele retribuiu.
— Sendo assim, está ótimo! Não tenho nenhuma objeção. — eu lhe entreguei uma caneta e ele assinou. — Pronto! — me devolveu o contrato.
— Te envio a cópia o quanto antes. — ele assentiu.
— Ok. — se pôs de pé. — Vou deixar que trabalhe agora.
— Quer que eu te leve a algum lugar?
— Não se preocupe, eu pego um metrô. — sorriu de canto.
Nós saímos da sala em direção à recepção. Chegando lá, eu vi uma moça de cabelos claros e olhos azuis falando com a Anahi. Ela parecia estar fazendo um pedido. Assim que ela olhou para o Christopher, ficou séria e um tanto quanto pálida.
Ao contrário dela, Christopher passou e acenou com a cabeça como se ela fosse qualquer outra pessoa que ele nunca havia visto na vida.
— Até mais, padre! — Anahi disse.
— Até, Anahi! Espero que decida ir à igreja com a Dulce. — ele falou educadamente.
— Quem sabe um dia ela me convença. — Anahi deu de ombros.
— Prometo levá-la à quermesse. — avisei.
— Ótimo! Tenham uma boa tarde! — ele acenou com a mão e nós acenamos de volta.
— Annie, depois faz uma cópia do contrato com a igreja e envia para o endereço do Christopher, tá? — pedi.
— Vou fazer isso agora mesmo. Será que você pode terminar a ficha da senhorita Peregrín? — Annie perguntou.
— Claro! — Anahi se retirou e tomei seu lugar ao balcão, dando atenção à ficha que ela anotava. — Então, Belinda Peregrín. Uma festa de aniversário de onze anos para a sua filhinha, que encantador! — sorrimos.
— Antes de continuarmos, eu posso fazer uma pergunta? — ela disse.
— Fique à vontade.
— Aquele padre por acaso se chama Alexander Uckermann?
— Não. — eu ri de leve. — Aquele é o Christopher, irmão gêmeo do Alex. Também já confundi os dois e foi bem engraçado.
— Ah! — ela sorriu em alívio.
— Conhece o Alex? — fiquei curiosa.
— Estudávamos juntos no ensino médio. — explicou.
— Por um momento, achei que você fosse um dos vários corações que ele quebrou. — brinquei e vi ela sorrir sem jeito. — Você é? — franzi a testa.
— Não. Bem, nós namoramos, mas não foi nada r**m, ele nunca me magoou. Acho até que fui a primeira namorada dele.
— Nossa, então você deve saber o porquê de ele ser tão horrível com mulheres agora.
— Eu não sabia que ele era assim.
— Eu mesma ganhei um par de chifres dele.
— Minha nossa! — arqueou as sobrancelhas em supresa.
— Mas está tudo bem, eu não estou mais melancólica como antes.
— Mas vocês não têm mais contato? — pareceu interessada.
— Temos, nós somos amigos. Não guardo nenhuma mágoa, isso não faz bem para o espírito.
— Entendo. — assentiu.
— Continuando. — voltei para a ficha. — Que tipo de cenário você prefere para as fotos dela?
Belinda escolheu o tamanho, o número de fotos, discutimos o orçamento e depois de completar a ficha com tudo o que precisava, ela se despediu e foi embora. Confesso que ela me deixou um pouco intrigada com o interesse aparente em saber se eu ainda tinha contato com o Alex. Bem, talvez ela tenha interesse em revê-lo, já que estudaram juntos.