Dulce
No decorrer da semana, eu fiz alguns trabalhos mais básicos e agendei outras coisas como um ensaio de casamento, uma festa de quinze anos e uma campanha de conscientização da prefeitura.
Entre mim e Christopher as coisas andavam na mesma. Vivíamos saindo juntos cada vez mais e até fizemos um piquenique bem cedo na manhã de sexta. Como sempre, eu continuava fingindo que nada estava acontecendo enquanto observava cada movimento dos seus lábios e as covinhas que se formavam quando ele sorria.
Para espairecer mais a minha cabeça, eu acabei aceitando o convite de Alex para sairmos até um bar no sábado, beber e conversar, sem segundas intenções. Nós estávamos sentados em uma mesa bebendo cerveja e comendo alguns petiscos de frango.
— Achei que agora que é da igreja, você fosse parar de beber. — ele disse.
— Eu não preciso parar de beber, só tenho que evitar exageros, porque isso não faz bem.
— Você só exagera quando se sente m*l ou feliz demais.
— Não me sinto m*l e posso ser feliz de outras formas. — dei de ombros. — Você disse que tentaria ir até a igreja!
— Não precisa me cobrar, eu vou para a quermesse. — ele parecia falar sério. — Quem sabe eu e Christopher não batemos um papo?
— Sério? — franzi a testa.
— É, eu quero entender o que todo mundo vê de tão especial no padre.
— Ele é incrível... — suspirei desviando o olhar para o chão.
— Hum... — Alex me olhou com estranheza. — Só incrível?
— É. — sorri sem mostrar os dentes. — Ele é um amigo incrível!
— Sei. — eu senti a desconfiança daquele olhar.
— Eu conheci uma velha amiga sua. — mudei de assunto. — Belinda Peregrín.
— Oi? — pareceu surpreso. — A Bel? Aqui? Faz mais de dez anos que eu não a vejo!
— Pois é, ela me contratou para ser fotógrafa no aniversário da filha dela.
— Filha? Ela está casada?
— Bom, eu não vi nenhuma aliança no dedo dela. A filha dela vai fazer onze anos.
— Caramba, onze? Então ela deve ter engravidado assim que foi embora da cidade. Coitada, gravidez na adolescência. — fez uma careta. — Deve ter sido uma tortura, do jeito que os pais dela eram rigorosos!
— Vocês namoraram, não?
— É, foi uma coisa rápida, eu era um bobinho apaixonado, ela me fazia de gato e sapato. — suspirou. — Eu a amava muito e ela me quebrou.
— Que? Alguém já partiu o seu coração? Eu nem sabia que você tinha um! — zoei e ele jogou um amendoim em mim.
— Estou falando sério! — riu. — A gente se divertia pra caramba, apesar do pai dela não ir com a cara dos Uckermann's. Questão de negócios, entende?
— O Christopher não a conhece?
— Na época em que eu e Bel namoramos, ele estava num colégio interno católico, um lugar chato e recluso. — revirou os olhos.
— E como ela partiu o seu coração? — sorri animada.
— Parece que ficou bem feliz em saber que alguém já me ferrou antes. — ele fingiu estar ofendido.
— Dá até pra sentir o cheirinho de justiça.
— Ok, eu vou contar. Ela foi embora com os pais para outro estado sem nem me avisar. Terminou comigo pelas amigas que me deram o recado.
— Nossa, que horrível! — fiz uma careta. — Até pra você.
— Tá cheia de graça hoje! — apertou minha bochecha. — Depois da Bel, eu não me apaixonei por ninguém, até conhecer você.
— Não dá em cima de mim. Tem muitas garrafas aqui e eu posso fazer um estrago. — ameacei em tom de brincadeira.
— Não estou afim de levar pontos hoje. — rimos juntos.
Uma morena veio até a nossa mesa e parou olhando apenas para Alex, com um olhar bem sugestivo, eu diria.
— Com licença, eu não quero atrapalhar, mas preciso saber se vocês dois estão juntos. — eu e Alex nos entreolhamos com estranheza.
— Não, ela é só uma amiga. — ele respondeu.
— Legal! Eu estou aqui com um amigo e nós queremos saber se vocês não aceitam beber conosco. — sorriu educada.
— Bem... — comecei, mas fui interrompida.
— A Dulce não está afim de conhecer ninguém e eu prometi que passaria a noite toda com ela. — Alex disse e eu o olhei de relance. — Mas você pode me dar o seu telefone.
— Claro! — ela disse. Ele entregou seu celular para ela e depois que ela anotou seu número, pediu licença e se retirou.
— Não estou afim? — cerrei os olhos.
— Por que? Você está?
— Na verdade, não.
— Então eu acertei. Dá pra ver no seu rosto que você não pretende sair com ninguém. Está com a cabeça em algum lugar, ou melhor, em alguém.
— Como você poderia saber?
— Tem o mesmo rostinho ruborizado de quando estávamos juntos e eu sei que você não pensa mais em mim. Perdeu aquele brilho nos olhos que tinha quando me olhava.
— Talvez eu esteja interessada em alguém, mas nunca vai rolar.
— Por que não? Só um louco não aceitaria sair com você!
— Pois é... — eu ri sem jeito. — A gente pode não falar sobre isso?
— Como quiser. — sorriu de lado.
A noite foi agradável e eu me surpreendi ao ver que Alex estava tentando mesmo melhorar. Ele foi gentil comigo a noite toda, não deu em cima de mim em nenhum momento e o mais importante: não me deixou sozinha para falar com alguma mulher. Como já disse antes, ele era um ótimo amigo.
Não voltei para casa muito tarde, já que no dia seguinte, eu iria fotografar no aniversário da filha da Belinda. Teria que acordar cedo para preparar o meu material.
{...}
— Não vai precisar de ajuda? — Anahi perguntou quando eu já estava prestes a sair do meu apartamento.
— É o aniversário de uma criança, eu vou ficar bem. — sorri.
— Qualquer coisa, liga! — avisou.
— Pode deixar!
Cheguei até o local marcado, arrumei todo o cenário onde as fotos seriam tiradas e depois de posicionar minha câmera no tripé, eu olhei para tudo com orgulho. Um perfeito cenário do Frozen, como a pequena Lorena desejava.
— Ficou incrível! — Belinda aproximou-se e me olhou com aprovação.
— Obrigada! — sorri.
— Filha! — ela gritou chamando a menina que estava numa cama elástica com outras crianças. — Vamos tirar umas fotos!
A pequena loirinha de olhos castanhos veio correndo e parou perto de nós. Ela usava um vestido azul como o da Elsa e seu longo cabelo loiro estava preso numa trança lateral, que foi ajeitada por sua mãe.
— Depois eu posso voltar a brincar? — a pequena perguntou.
— Pode. — Belinda disse. — Essa é a fotógrafa, Dulce. E Dulce, essa é a Lorena.
— Oi, feliz aniversário! — eu disse gentilmente. — Adorei o seu cabelo.
— Obrigada e eu adorei o seu! — falou sorrindo para mim.
Tirei todas as fotos que precisava dela sozinha, com a mãe, o resto da família e alguns amiguinhos. No decorrer da festa, eu andei com a minha câmera por todos os lados, tirando várias fotos de Lorena.
Uma coisa mexeu com a minha curiosidade. Eu não estava vendo o pai dela por aí. Bom, pelo menos nenhum dos homens que estavam aqui pareceram ser pai da menina. Talvez Belinda fosse divorciada, ou viúva.
— Estão ficando incríveis! — ela elogiou enquanto eu ia passando as fotos na câmera.
— A Lorena é muito fotogênica, o que torna as coisas mais fáceis. — elogiei. — Sabe... — resolvi mudar de assunto. — Eu estive com o Alex ontem e falei sobre você.
— É? — pareceu interessada. — O que ele disse?
— Que não te vê a mais de dez anos e que você quebrou o coração dele. — eu ri pelo nariz. — Não deve ser verdade, é o Alex quem faz esse tipo de coisa. — ela desviou o olhar como se estivesse constrangida. — A não ser que seja verdade.
— Eu era muito jovem, não pensava direito e eu nem era tão apaixonada por ele. — deu de ombros.
— Tudo bem, eu não estou te julgando. Ninguém é a mesma pessoa de dez anos atrás.
— Realmente, eu não sou a mesma. Depois de ter a minha filha, eu criei uma visão de mundo completamente diferente. Se eu pudesse voltar no tempo, jamais teria abandonado o Alex sem dizer nada.
— Por que não diz algo agora? Aproveita que estão na mesma cidade e conversem sobre o passado. Eu melhor do que ninguém sei como é bom se redimir com as pessoas. — eu disse lembrando-me do meu pai.
— Como eu poderia fazer isso?
— Que tal se você e a Lorena forem para a quermesse da igreja? Vai ser amanhã à noite, eu aposto que vão se divertir e você pode conversar com o Alex.
— Não é uma má ideia. — sorriu de canto.
Terminei tudo e retornei para casa perto do anoitecer. Belinda foi extremamente gentil e Lorena era a criança mais adorável que já conheci. Nos demos tão bem que até trocamos contato.
Já em casa, eu passei a noite editando todas as fotos e assim que terminei, enviei para o pessoal da revelação, que me avisaram que as fotos estariam prontas em uma semana. Enviei o material digital por e-mail para a Belinda e depois de fechar o meu notebook, eu dei uma olhada no meu celular.
"m*l posso esperar para ganhar de você amanhã no tiro ao alvo! ;)" — uma mensagem de Christopher.
"Haha! Vai sonhando, padrezinho!" — mandei em resposta.
"Se eu vencer, você pode me comprar todos os doces que eu quiser da quermesse."
"E se eu vencer (porque eu vou), você vai comprar uma torta inteira para mim."
"Feito."
Eu olhava feito uma i****a para aquelas mensagens. Toda vez que interagíamos, eu só queria gritar e dar pulos de alegria. Qual era o meu problema? Por que eu tinha que ter uma queda justamente por um padre? Christopher também não colaborava, com aquele maxilar perfeitamente desenhado e aquela voz hipnotizante...
Dulce, pelo amor de Deus!
Dei um tapa em minha própria testa e respirei fundo. Não tinha o que fazer, fingir que estava tudo bem seguia sendo a única opção viável. Ele era uma pessoa maravilhosa e eu não me permitiria estragar a amizade que tínhamos.
{...}
Na praça em frente à igreja, eu, Christian e Anahi observamos toda a decoração do lugar. Estava cheio de barracas de jogos, barracas vendendo comida e outras vendendo acessórios religiosos.
— Parece que eles se dedicaram muito! — Christian disse.
— Pois é, Christopher me disse que vai haver algumas apresentações. Algo como um show de talentos.
— Adoro! — Anahi bateu palmas. — Será que ainda posso me inscrever? Vocês sabem que eu canto perfeitamente bem. — falou se achando.
— Acho que pode sim, ali ao lado do palco. — apontei para onde uma fila de pessoas estava. Ela foi andando até lá.
— É melhor eu ir também, boa sorte! — Christian falou rapidamente, olhando por cima do meu ombro.
Me virei para trás e avistei Maitê quase correndo em minha direção. Ela estava com aquele sorriso exagerado de sempre.
— Ai não... Chris... — quando tornei a me virar, notei que ele já tinha ido embora. Christian sempre dava um jeito de sair correndo quando a via.
— Dulcinha! — deu um gritinho e logo depois, me abraçou. — Opa, tem uma câmera entre nós! — riu, tocando na lente da câmera que estava em meu pescoço. — Vai fotografar? Que máximo!
— É, o Christopher me convidou. — respondi.
— Agora que te vi com essa câmera, acabei me lembrando de que preciso fazer um ensaio fotográfico. Eu estou pensando em investir na carreira de modelo e preciso de um book bem luxuoso! Enfim, vamos falar sobre detalhes...
Maitê começou a tagarelar sobre como gostaria das fotos e quando ela estaria disponível para isso. Eu tentava prestar atenção o quanto podia, mesmo desejando sair correndo dali e ir fazer o meu real trabalho daquela noite.
Perdi totalmente a minha concentração ao olhar para trás e ver o padre mais belo que se podia imaginar. Ele estava todo de preto, com uma camisa social bem passada, que cobria seus braços até os pulsos. Usava seu cabelo penteado para o lado, com gel, o que o deixou ainda mais charmoso. E aquela barba por fazer só aflorava ainda mais os meus pensamentos impróprios. Qual seria a sensação de ter aquele rostinho roçando no interior das minhas coxas?
Mordi meu lábio inferior com essa última imaginação em minha cabeça. E depois de ver Christopher abrir um breve sorriso em minha direção, eu soltei um suspiro involuntário, como se estivesse segurando a minha respiração a muito tempo.
Se Deus estivesse me dando um desafio, certamente esse desafio era não agarrar Christopher pelo colarinho e beija-lo até gastar toda a minha saliva.