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2343 Palavras
Dulce A voz de Maitê era a única a ser ouvida naquela conversa de três pessoas. Eu e Christopher estávamos em completo silêncio enquanto ela continuava falando sobre a recente tomada de decisão em seguir uma carreira como modelo. Francamente, se ela parasse de falar agora, não faria nenhuma diferença para mim. A minha atenção estava totalmente voltada para o padre ao meu lado, para quem eu olhava sutilmente vez ou outra.  — E esse foi todo o planejamento que eu montei para a minha carreira. — Maitê proferiu orgulhosa após finalizar sua fala.  — Fascinante! — eu disse no automático.  — E então, Dulce, pode me ajudar com isso, não é? — ela segurou uma de minhas mãos e sorriu como um cãozinho sem dono.  — Ah... é... posso. — falei um pouco incerta. Do que exatamente ela estava falando? — Você é uma ótima amiga! — comemorou. — Bom, eu vou dar uma olhada por aqui agora. Tenham uma boa quermesse! — ela beijou minha bochecha e em seguida, beijou a bochecha de Christopher.  — É muita gentileza sua fazer isso por ela. — ele disse depois que ela estava longe.  — Fazer o que? — arqueei a sobrancelha.  — Indicá-la para a agência de modelos com a qual você faz parceria. — ele me olhou com estranheza. — Não ouviu?  — Minha nossa! — eu ri de nervoso. — Eu meio que desliguei o meu cérebro por alguns instantes. — desviei o olhar. — Mas sim, eu posso fazer isso, felizmente não é nada demais.  — Dulce! — pude ouvir a voz de Alex atrás de mim e me virei para olhá-lo.  — Oi, você veio! — sorri e o cumprimentei com um abraço.  — Oi, Christopher. — os dois acenaram com a cabeça, mantendo um semblante sério. — Pois é, não estava fazendo nada importante e resolvi testar algo novo.  — Eu nunca vim à uma quermesse, mas te garanto que tudo o que vem da igreja é legal.  — Até quando eles caçavam e queimavam mulheres na santa inquisição? — soltou uma risada provocadora e olhou para Christopher.  — Alex! — o repreendi.  — Estou mentindo, padre?  — Não, Alex, não está. — Christopher se manteve pleno. — Mas ninguém está tocando nesse assunto, então se eu fosse você, o evitaria para não parecer um ignorante.  — Essa até eu senti! — eu ri. — Mas você me prometeu que iria tentar! — falei me referindo a ele ter uma conversa com Christopher.  — Pode ser depois? Você disse que a Belinda estaria aqui e eu quero mesmo vê-la, então... — começou a se afastar. — Tchauzinho! — acenou com a mão.  — Desculpe por isso. — eu disse me voltando para Christopher.  — Por que pediu desculpas? Ele é meu irmão. — sorriu divertido.  — Pois é! — eu sorri também. — Acho que fiquei tão acostumada a pedir desculpas em nome dele que isso acontece no automático. Ele era um namorado muito inconveniente.  — A gente pode não falar dele? — pareceu incomodado.  — Claro! E eu tenho que começar a trabalhar. Que tal uma foto sua? — me afastei alguns passos dele, segurando minha câmera.  — Não, eu não sou muito fotogênico. — pareceu tímido.  — Que bobagem, você é lindo! — fui sincera, mas falei aquilo por impulso. — Hum, obrigado. — sorriu de canto, olhando diretamente para mim.  — Muito bem... — tossi limpando a garganta e posicionei a lente de minha câmera. — Pode relaxar, seja você mesmo. — Christopher assentiu.  Ele continuou sorrindo serenamente, enquanto eu focava minha câmera nele e tirava algumas fotos. Pois é, ele era mesmo muito lindo. Não como se ele fosse a cópia no Alex, mas como se ele tivesse um brilho próprio, algo tão forte que só sendo próximo dele para notar. E bem, eu era próxima e só o fato de eu me lembrar disso deixava-me feliz.  — Ei, padres não devem mentir! Você é muito fotogênico, deveria ser modelo! — elogiei.  — Imagina! — riu sem jeito e eu observei um leve rubor em suas bochechas. Eu havia o deixado tímido e isso era muito fofo.  Nós começamos a andar pelo local e enquanto Christopher me acompanhava, eu tirava fotos de tudo. Das pessoas, das barracas e algumas fotos dele distraído que ele nem me viu tirar. Essas eu guardaria apenas para mim.  — O show de talentos vai começar! — ele me avisou.  — Ótimo, ao trabalho! — ergui a câmera.  Fomos até lá e assistimos todas as apresentações, comigo tirando fotos de todos os detalhes. Na apresentação de Anahi, ela foi muito bem e como sempre, não poupou a sua voz para mostrar a todos o quanto era talentosa. Foi ovacionada por aplausos e gritos e dada a sua expressão de vencedora, eu podia imaginar que minha amiga se sentia no topo do mundo.  Os jurados se retiraram para discutir quem seria o vencedor.  — Pode ir ficar com os seus amigos se quiser. Acho que já tirou fotos suficientes. — Christopher disse.  — Bem... — olhei na direção de onde Christian e Anahi estavam, rindo e conversando ao mesmo tempo. — Acho que eles conseguem sobreviver sem mim.  — Tudo bem, então prepare-se para perder no tiro ao alvo! — inflou o peito.  — Vai sonhando! — eu ri.  Guardei minha câmera na bolsa tiracolo que eu trazia ao meu lado e segui Christopher até a parte das barracas de jogos. Nós paramos na de tiro ao alvo e pagamos algumas rodadas.  — Melhor de três? — perguntou e eu assenti. A primeira rodada, eu venci, acertando bem mais próximo do centro.  — O que eu disse? Prepare-se para me comprar uma bela torta! — falei convencida.  — Não comemore antes do tempo, mocinha! — deu dois tapinhas em minha cabeça.  Na segunda rodada, ele venceu, aproveitando para zombar de mim o quanto pudesse. E apesar disso, eu estava me divertindo. Eu gostava de vê-lo tão bem.  — Ultimato. — posicionei a espingarda e atirei quase no centro. — Vai ser difícil passar essa, padrezinho. — provoquei.  — Vamos lá. — agora ele parecia bem menos confiante do que antes. E como previsto, não passou nem perto de me vencer.  — Isso! — dei dois pulinhos de alegria. — Quem é a melhor? — coloquei as mãos na cintura e sorri.  — Você é a melhor! — sorriu também, com seus olhos carregando um brilho contido. Nós ficamos em silêncio nos encarando, como já havia acontecido outras vezes.  — Ok... — cortei o silêncio. — Eu quero o golfinho de pelúcia! — escolhi o meu prêmio e o moço responsável pela barraca me entregou.  — Que tal um sorvete? — Christopher sugeriu.  — Ótimo! E como você perdeu, você paga.  — Vai esfregar na minha cara que ganhou de mim a noite toda, não é? — cerrou os olhos e cruzou os braços.  — Sempre que for possível, então prepare-se para uma vida de tortura. — brinquei e nós rimos.  Começamos a caminhar em direção ao sorveteiro, quando no meio do caminho, eu avistei Alex conversando com Belinda num canto pouco iluminado. Parei de caminhar e os observei. Eles pareciam falar sobre algo sério e Alex não parecia nada bem, o que me preocupou.  — O que foi? — Christopher perguntou olhando na mesma direção que eu. — Está tudo bem com você?  — Comigo? Sim. — franzi a testa.  — Sei lá, é que você parou para olhar o Alex com aquela moça... — colocou as mãos no bolso e olhou para os lados. — Está com ciúmes?  — Ciúmes? — ri pelo nariz. — Definitivamente não. Aquela é a Belinda, eu fiz um trabalho para ela ontem. Ela e Alex já foram namorados no ensino médio e pelo que parece, ela quebrou o coração dele.  — O que? — arqueou as sobrancelhas em surpresa. — Essa não é uma coisa que a gente ouve todo dia.  — Sim! — sorri. — Eles não parecem preocupados? — acenei com a cabeça para lá.  — Sim, um pouco. Talvez estejam falando sobre o passado. — deu de ombros.  — Bem, vamos comprar os sorvetes. — entrelacei meu braço ao dele e continuamos andando.  Depois de comprarmos os sorvetes, nos afastamos um pouco da quermesse e fomos até a fonte, onde alguns patos nadavam. Não havia ninguém por ali, era um lugar que ficava atrás das árvores e a luz mais forte a iluminar a área era a da lua, que refletia na água, formando um belo espelho noturno.  Nós nos sentamos na beirada da fonte e fitamos as aves.  — Em cidades normais, tem pombos nas praças. — Christopher pontuou, olhando para os patos com curiosidade.  — Tem um lago aqui perto, quando está muito frio, as pessoas não vão até o lago para alimenta-los, então os patos costumam vir aqui.  — Isso esclarece tudo. — tocou a superfície da água com o dedo indicador.  — Acho que nunca me senti tão bem em um dia aparentemente simples. — eu disse.  — Mesmo? — sorriu de canto. — E por que se sente tão bem?  — Desde que comecei a frequentar a igreja, eu me sinto parte de algo, me sinto acolhida, como se nada pudesse me atingir e se atingir, eu sei onde posso me curar.  — Não há melhor remédio do que a fé.  — Todos temos um propósito de vida, não é?  — Certamente. — assentiu.  — Já descobriu o seu? Tipo, além de ser padre, claro.  — Dizem que os melhores dias da nossa vida são o dia em que você nasce e o dia em que você descobre o porquê. Eu ainda não descobri o meu porquê. Algumas pessoas diriam que ser padre é propósito o suficiente, mas eu enxergo isso como a minha profissão e nossas profissões não deveriam ser o nosso propósito principal. Sim, eu faço o bem, espalho a palavra e ajudo quem eu posso, mas sinto que tem algo mais.  — É como se você ainda estivesse procurando por algo que a sua alma quer, mas não sabe o que é. — completei e ele assentiu. — Eu também me sinto assim. Antes eu ficava doida e deixava isso me pilhar, mas agora eu só quero viver o momento. Eu estou feliz, me sinto bem e convivo com pessoas incríveis! Até o Alex se tornou legal. — ri de leve. — Eu sei que a vida é uma caixinha de surpresas e eu ainda não cheguei nem na metade, mas eu estou satisfeita. — olhei para ele e vi que ele não desviou sua atenção de mim em nenhum momento. — Estou onde eu quero estar... com quem eu quero estar...  Eu vi Christopher aumentar o ritmo de suas piscadas e de sua respiração. Ele olhava para todas as partes do meu rosto, com uma pitada de nervosismo muito bem estampada em sua face. Era a primeira vez que ele olhava assim para mim e eu não sabia muito bem no que ele estava pensando.  — O que foi? — pendi minha cabeça para o lado, mostrando-me curiosa. — Christopher?  E como se tivesse perdido totalmente a sua sanidade, ele apoiou sua mão em minha nuca e me puxou para o que seria o nosso primeiro beijo. Um beijo que eu nunca imaginei que fosse acontecer, um beijo que não deveria acontecer!  No primeiro momento, nós dois ficamos estáticos, apenas com os lábios unidos, sem nos movermos nenhum centímetro. Mas céus, eu já queria aquilo faz tempo e não conseguiria me controlar. Levei minhas mãos até o seu rosto e remexi meus lábios contra os dele. Christopher moveu-se no mesmo ritmo que eu, tão cauteloso quanto eu estava sendo. Era como se a qualquer momento, uma bomba fosse explodir.  Eu sentia sua respiração ofegante tocar o meu rosto enquanto nossas bocas dançavam uma com a outra de forma intensa e viciante. Cheguei mais perto dele, entornado seus ombros com os meus braços e ele, por sua vez, usou sua mão livre para segurar a minha cintura, aprofundando ainda mais o nosso pequeno momento pecaminoso.  Eu nunca imaginei que ele me quisesse, achei que a única a ter pensamentos errados era eu e que eu deveria ignora-los. Eu estava me saindo bem no papel de fingir que nada acontecia, mas eu não contava com o fato de que Christopher me daria um beijo do nada, desrespeitando totalmente a sua posição de padre, me beijando como se nada mais no mundo importasse mais do que a minha boca.  — DULCE!! — ouvimos alguém gritar por mim de longe. — Onde você está??  Eu e Christopher ficamos subitamente de pé e pulamos para longe um do outro. Eu olhei diretamente para ele, mas ele não olhava para mim, mas somente para o chão, com o rosto aterrorizado. — Dulce! — Alex apareceu e se aproximou. — Eu preciso falar uma coisa muito séria com vocês dois. — Alex estava ofegante e assim como eu e Christopher, ele não conseguia esconder o seu pânico.  — Er... conversa com a Dulce, eu preciso resolver umas coisas. — sem esperar resposta, Christopher praticamente correu dali de volta para a quermesse.  Eu o observei sumir do meu campo de visão e me senti culpada. Talvez sua cabeça estivesse uma completa bagunça agora e tudo por influência minha. Eu só queria voltar no tempo e não ter estado tão íntima dele.  — Dulce... — Alex segurou os meus braços e me encarou, mas sinceramente? Nada do que ele dissesse desviaria os meus pensamentos do incidente anterior. — A filha da Belinda é minha filha! — berrou.  — O que!? — arregalei os olhos. Ok, isso era incrível também.  — Eu estou em pânico, você tem que me ajudar!  — Claro, vem, você precisa me contar isso direito e respirar um pouco. Vamos embora daqui.  Em parte, eu queria sair dali para fugir de Christopher, mas também precisava entender melhor essa história do Alex e tentar apoiá-lo o quanto pudesse.
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