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2181 Palavras
Dulce  Christopher esteve comigo todos os dias daquela semana. Era muito prazeroso ver o quão atencioso ele estava sendo comigo, me fazendo sempre sentir segura e intocável. Nós passávamos o dia inteiro vendo filmes, conversando sobre coisas aleatórias, zoando um ao outro, ouvindo música e até mesmo apenas em silêncio, nos olhando constantemente.  Eu ainda não conseguia sair de casa, não voltei a trabalhar e apenas recebia visitas em meu apartamento. Anahi e Christian saíam para comprar as coisas da casa para mim. Toda vez que eu pensava em pisar fora daquele prédio, uma sensação r**m me invadia e me travava por completo. Ao menos, eu já conseguia ficar um pouco sozinha em casa.  Alex veio me visitar algumas vezes e notou o quanto eu estava indiferente com ele, mas eu ainda preferia não comentar nada sobre seu joguinho de manipulação. Não podia correr o risco de ele denunciar o Christopher e obrigá-lo a deixar de ser padre à força. Aquela deveria ser uma decisão inteiramente do Christopher. Provavelmente, ele só não se importava que o Christopher continuasse próximo a mim por conta do meu problema recente.  — A Lorena quer te ver. — Alex disse após eu lhe servir uma xícara de café.  — Não, eu não quero que ela me veja assim. — meu olho já estava um pouco desinchado, eu já conseguia abri-lo, mas meu rosto ainda estava coberto de hematomas e eu não havia retirado os pontos. — Eu tenho certeza que ela não vai se importar com isso.  — Não me sinto confortável assim na frente de uma criança. — suspirei, sentando ao seu lado no sofá.  — Como quiser. — deu um gole em seu café. — E como você está? Ainda não consegue sair de casa? — neguei com a cabeça. — Por que não tentamos? Eu saio com você, a gente pode ir numa sorveteria... — o interrompi.  — Quando eu quiser, eu aviso. — soei grossa.  — Tá... — ele desviou o olhar, parecendo desconfortável. — Eu posso perguntar uma coisa?  — Pode. — dei de ombros.  — Sabe aquele dia antes de você viajar? O dia em que você me beijou.  — Alex... — resmunguei.  — Deixa eu terminar. Por que você me beijou?  — Como assim?  — Você não quer voltar comigo, diz que não me ama mais, mas aquele beijo pareceu tão... intenso...  — Foi só o calor do momento. — eu não queria mesmo falar sobre aquilo.  — Talvez, sei lá... — ele passou o braço em torno do meu corpo e chegou mais perto. — Talvez você ainda... — começou a aproximar seu rosto do meu.  — Não. — fiquei de pé. — Para de forçar a barra, isso não vai rolar. — fui clara.  Ele ia dizer mais alguma coisa, mas sua fala foi cortada pelo interfone que começou a tocar. Eu agradeci aos céus em pensamento e fui correndo atender.  — Sim?  — Bom dia, senhorita Saviñon! Christopher está aqui para vê-la.  — Pode pedir pra ele esperar uns cinco minutos antes de subir?  — Claro!  — Obrigada. — coloquei o interfone de volta no gancho e voltei a minha atenção para Alex. — Seu irmão está aqui, acho que não vai querer dar de cara com ele.  — Por que não mandou ele vir outra hora? — revirou os olhos. Eu apenas cruzei os braços e o encarei. — Vai me expulsar, é? — arqueou a sobrancelha.  — Eu te ligo depois. — bufei.  — Vou estar esperando. — se pôs de pé. — Até mais e fica bem. — ele veio até mim e beijou minha testa.  — Até mais. — o acompanhei até a porta.  Não demorou muito para que a campainha fosse tocada e eu fui atender com um largo sorriso em meu rosto. Por mais que eu tivesse visto o Christopher na noite anterior, nunca parecia ser o suficiente. Eu poderia olhar para ele por horas. Assim que eu abri a porta, minha primeira ação foi jogar meus braços em torno de seus ombros e abraçá-lo. Ouvi ele rir de leve, enquanto envolvia seus braços em minha cintura.  — Parece que alguém está aliviada por não ter que aguentar o Alex por mais tempo. — ele disse quando nos soltamos.  — Encontrou com ele pelos corredores? — perguntei, fechando a porta e caminhando ao seu lado até o sofá.  — Assim que saí do elevador.  — Vocês não brigaram, não é?  — Ultimamente, a gente tem preferido se ignorar.  — Menos m*l.  — Eu vou viajar daqui a meia hora, só vim te ver antes, pra ter certeza de que vai estar bem.  — Vou sim, não se preocupe.  — Vai ser uma longa viagem de carro com mais dois advogados da empresa. — suspirou com tédio.  — Toma cuidado na estrada, por favor. — segurei sua mão.  — Não se preocupe, eu tenho um bom anjo da guarda. — ele ergueu a minha mão e depositou um beijo. — Te vejo amanhã de manhã, creio que vou voltar tarde, então melhor não vir aqui acorda-la.  — Eu não iria me incomodar. — sorri.  — Claro que não. — sorriu também.  Demos um último abraço na porta e depois, eu me vi sozinha em meu apartamento. Resolvi encher a banheira e tomar um banho quente antes de ir até o Apartamento de Annie e Christian para almoçar. Depois do almoço, eu passei a tarde inteira sozinha. Christian saiu a trabalho e Annie tinha que resolver um problema no banco. E já que eu não tinha nada para fazer, resolvi retornar ao meu trabalho, editando as fotos que tirei no primeiro dia da temporada em Los Angeles. Por mais que eles tivessem me dispensado de qualquer obrigação, eu ainda queria entregar aquelas fotos. Não gostava de pensar que meu trabalho foi em vão ou que estou recebendo dinheiro por fazer absolutamente nada.  Quando me dei conta, já estava começando a anoitecer. Sorri comigo mesma ao ver que passei a tarde inteira trabalhando. Eu realmente amava aquilo. E talvez o fato de eu ter trocado mensagens com Christopher a tarde inteira tenha ajudado a fazer o tempo passar mais rápido.  Eu ria de suas mensagens reclamando o quão chato era ter que estar em uma audiência e ri mais ainda quando ele me mandou fotos fazendo caretas de quem está muito chateado. Ele era extremamente fofo.  Pela primeira vez na semana, eu fui a responsável por preparar o jantar para mim e meus amigos. Não podia deixar que eles passassem a vida toda me mimando, eu não era uma incapaz. Na verdade, me sentia bem melhor para realizar qualquer atividade normal de casa.  — E como foi no banco? — perguntei para Annie quando começamos a comer.  — Saí de lá mais estressada do que quando entrei! — bufou. — Passei umas duas horas numa fila imensa só para eles me dizerem que a minha conta estaria travada até amanhã pela manhã! Francamente, nós estamos nos anos cinquenta? — ela parecia mesmo muito irritada. — Juro que se eu chegar lá amanhã e ainda não puder sacar o meu dinheiro, coloco aquele lugar a baixo!  — Calma aí mulher maravilha, vai ter seu dinheiro na mão logo logo. — eu ri.  Christian soltou uma gargalhada e só então percebemos que ele não prestava atenção na gente e sim em seu celular, possivelmente trocando mensagens com alguém. E é claro que eu e Annie não iríamos perder a chance de meter o nosso nariz nisso.  — Quem é tão engraçado? — Annie perguntou.  — É só a Maitê reclamando que a produção colocou cubos de melancia ao invés de cubos de melão em seu camarim. — ele disse.  — E desde quando você troca mensagens com a Maitê? — franzi a testa. — Ah, a gente conversou bastante em Los Angeles. — deu de ombros. Eu e Annie continuamos o encarado. — O que? Não é nada demais, eu sei que ela é mimada e se incomoda com coisas bestas, mas é até engraçada às vezes.  — Engraçada, é? Sei. — Annie riu.  — Não sejam inconvenientes! — ele revirou os olhos. — E antes que a gente esqueça, hoje eu e Anahi vamos sair, tudo bem ficar aqui sozinha? — ele perguntou olhando para mim.  — Fiquei sozinha a tarde inteira e sobrevivi, então tudo bem, vocês precisam se divertir um pouco. — respondi com sinceridade.  — Ok. Eu preciso mesmo enlouquecer o meu banco. Já que eles não vão deixar eu tirar o meu dinheiro, vou usar tanto o meu cartão que eles vão achar que eu fui roubada! — Anahi declarou no seu melhor tom de vingativa, nos fazendo rir.  — Só não passa m*l, mas se passar, vê se acerta o vaso do banheiro, não quero ter que limpar vômito das paredes de novo. — Christian disse.  — As paredes, Anahi? — a olhei incrédula.  — Acontece. — ela deu de ombros.  Depois do jantar, os dois se retiraram, me fazendo jurar que eu ligaria caso quisesse companhia. E assim que chegaram na balada, me mandaram uma selfie com drinks nas mãos, com uma legenda que dizia "em breve você estará aqui de novo". Sorri vendo a imagem e deixei meu celular sobre a mesa de centro para começar a procurar algo na tv.  Infelizmente, eu não estava achando nada que me interessasse, então deixei num canal qualquer e voltei minha atenção para as minhas redes sociais, que continuavam tão monótonas como sempre. A única coisa que eu gostava de olhar eram os perfis de fotógrafos profissionais, que sempre estavam divulgando seus belos clicks pelo mundo.  Na minha barra de notificação, uma mensagem de Christopher apareceu.  "Estou na entrada da cidade, em dez minutos estarei em casa. Sei que está tarde, mas você disse que não se incomodaria se eu fosse aí, que tal?"  "Por favor, venhaaaa. Salve-me deste terrível tédio!" — dramatizei.  Estranhei quando ele demorou para responder com alguma resposta engraçada, mas resolvi deixar para lá. Continuei olhando as redes sociais por mais alguns bons minutos, até me dar conta de que Christopher ainda não havia me respondido ou ao menos me mandado uma mensagem me avisando que estava a caminho do meu apartamento. Francamente, já fazia quase trinta minutos que ele me avisou que estava chegando, já deveria estar aqui.  Liguei para ele, mas seu celular estava desligado. Liguei para o seu apartamento e até para a portaria do prédio, onde o porteiro me informou que ele não havia chegado lá. E mesmo que talvez só tivesse tido um imprevisto, eu senti uma pontada no peito, uma sensação de que algo estava errado.  Quarenta minutos sem nenhuma resposta e eu m*l podia respirar direito de tão ansiosa. Levantei o meu olhar para a tv quando o sobrenome "Uckermann" foi citado no noticiário que estava passando. Aumentei o volume imediatamente e dei toda a minha atenção para a matéria.  — Acaba de acontecer um grave acidente na fronteira da cidade. Um carro pertencente às empresas Uckermann's derrapou em uma ponte ainda em construção e acabou capotando. Fomos informados de que quatro pessoas estavam no carro. Sendo três deles advogados da família mais um motorista particular. O Dr. Victor Uckermann não permitiu a liberação dos nomes das vítimas, mas sabemos que três deles faleceram no local e um encontra-se em estado grave no hospital Medclinic West."  Posso jurar que meu coração parou por uma fração de segundos. E foi aí que a voz de Christopher ecoou em meu cérebro, repetindo uma frase dita por ele pela manhã, antes de partir para a viagem. "Vai ser uma longa viagem de carro com mais dois advogados da empresa." Ele estava no carro do acidente, ele era um dos três advogados.  Sem raciocinar muito, eu automaticamente calcei os primeiros sapatos que encontrei pela casa, vesti um conjunto de moletom preto por cima do meu pijama, peguei as chaves do meu carro e corri até chegar ao elevador. Assim que as portas se abriram, eu corri depressa para o estacionamento e só quando eu estava parada ao lado do meu carro que eu me dei conta de que estava na rua, sozinha, tarde da noite.  Eu podia ouvir a pulsação do meu coração de tão forte que ele batia agora. Minhas orelhas estavam quentes e minhas mãos formigavam, ficando cada vez mais suadas. Sacudi a minha cabeça e respirei fundo algumas vezes, tentando mentalizar que o meu trauma não importava mais do que o Christopher. Eu tinha que entrar naquele maldito carro e dirigir pela cidade até o hospital citado no noticiário.  E foi isso que eu fiz, dirigindo mais rápido do que a lei permitia, desrespeitando diversas placas de "pare" e vários sinais vermelhos. Uma multa era a menor das minhas preocupações agora. Eu tinha que me concentrar para não surtar com a ideia de que talvez, naquele momento, Christopher pudesse estar em estado grave, lutando contra a morte no leito de um hospital. Ou pior, talvez à essa altura ele já estivesse numa mesa de um necrotério frio e vazio.
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