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1841 Palavras
Dulce  Cheguei até o hospital e saí do meu carro tão depressa que talvez eu tenha até esquecido de travar as portas. Atravessei a entrada do hospital e fui direto para a mesa da recepção. Minhas mãos estavam trêmulas e eu m*l conseguia respirar direito.  — Moça? — chamei a recepcionista.  — Só um minuto. — ela m*l olhou para mim.  O lugar estava cheio de gente, o barulho era alto e constante e estava claro que eu não teria a atenção da recepcionista tão cedo.  — Moça? — a chamei novamente.  — Só um momento, senhorita! — falou com impaciência.  — Eu só preciso de uma informação sobre um paciente que possivelmente está internado aqui! — aumentei o meu tom de voz. — O nome dele é Christopher Uckermann, eu preciso saber como ele está!  — Pode aguardar só um instante? O lugar está cheio! — falou no mesmo tom que eu.  A minha impaciência misturou-se ao meu nervosismo e ao barulho de todas aquelas pessoas que me rodeavam. Eu comecei a entrar em desespero e com certeza não estava com a mínima vontade de esperar para saber se Christopher estava vivo ou não.  — Olha, eu só quero o c*****o de uma informação! Será que você poderia, por favor, me dizer se o meu amigo está vivo ou não?? Ou eu vou ter que colocar esse prédio a baixo pra ter uma resposta?? — eu gritei, chamando a atenção da maioria das pessoas.  — Eu tenho que pedir que se acalme. — ela me encarou.  — Me acalmar!? — gritei ainda mais alto, dessa vez, batendo com força no balcão. — Eu posso ter perdido alguém que eu amava hoje e você manda eu me acalmar??  — Muito bem, eu cuido disso. — um homem apareceu, acenando positivamente para a recepcionista e virando-se de frente para mim. — Eu vou ajudá-la, ok? Só preciso que tenha um pouco de paciência, a noite de hoje foi bem corrida. — ele disse num tom mais gentil. Eu assenti e respirei fundo. — Qual o nome do paciente que deseja ver?  — Christopher Uckermann. — o vi começar a procurar no computador.  — Desculpe, não há nenhum paciente aqui registrado com esse nome.  — Você tem certeza? — engoli em seco quando ele afirmou positivamente. — Ele estava num acidente que aconteceu agora a pouco na fronteira da cidade. Haviam quatro homens no carro, três deles morreram.  — Sim, eu tenho conhecimento sobre esse acidente. — ele voltou a olhar o computador. — O único sobrevivente não se chama Christopher Uckermann. — me olhou de relance. — Eu sinto muito. Se a senhorita quiser e se estiver se sentindo apta, os outros três corpos estão no necrotério para reconhecimento.  Meu mundo parou naquele instante. Era isso? Christopher estava mesmo morto? Em um momento ele estava aqui, ao meu lado, sorrindo comigo e me colocando pra cima no meu momento mais difícil, agora ele simplesmente partiu de uma hora para outra, deixando um buraco em meu peito, uma ferida que eu duvidava muito que poderia cicatrizar tão cedo.  Minha visão ficou embaçada e uma tensão se formou em minha garganta, me fazendo soltar um grito agudo involuntário que veio logo atrás de um choro desesperado. O moço que me atendia correu até mim e me segurou em seus braços quando minhas penas enfraqueceram e eu vim ao chão.  Eu gritava e esperneava, com meus olhos queimando e jorrando lágrimas de dor. Ao meu redor, eu vi dois enfermeiros tentando me levantar, mas eu não queria sair daquele chão frio, não queria me mexer, não queria estar num mundo onde Christopher já não estivesse.  — O que está acontecendo? — ouvi um voz familiar perguntar de longe. — Dulce?? Meu Deus!!  Senti fortes braços ao meu redor, me apertando num abraço que eu identifiquei logo em seguida. Ergui a minha cabeça e me senti completamente confusa ao ver Christopher, em perfeito estado, me apoiando contra o seu peito e me ninando suavemente.  — Tudo bem... tudo bem... — ele dizia, passando sua mão por meus cabelos.  — Alex? — falei entre soluços. Eu estava tão tonta que provavelmente estava confundido Alex com Christopher.  — Não. — ele segurou meu rosto entre suas mãos e me fez encara-lo. — Sou eu, o Christopher.  — Mas...  — Não precisa dizer nada agora, você tem que se acalmar, me ouviu?  Eu assenti devagar, mesmo com minha respiração acelerada e meu coração batendo exageradamente forte. Um dos enfermeiros trouxe um copo com uma espécie de medicamento que Christopher me fez beber. Ele deve ter falado algo sobre um calmamente, então eu apenas ingeri aquilo.  Depois de alguns minutos, quando eu já estava voltando ao meu normal, Christopher me levou para um corredor vazio, onde nos sentamos nos bancos ao lado do bebedouro.  — Se sente bem? — perguntou.  — Agora sim. — assenti. — O que diabos aconteceu? Eu achei que você estava morto!  — Achou que eu estava morto? — ficou boquiaberto. — O meu celular descarregou e logo depois o acidente aconteceu. Eu estava no carro de traz, com o meu pai. Um outro advogado tomou o meu lugar no carro da frente e isso infelizmente decidiu o destino dele. — olhou para o chão. — Era para eu estar naquele carro.  — Mas não estava, graças a Deus! — falei com a voz embargada. — Por um segundo, eu achei que tivesse perdido você e isso me destruiu. — me joguei sobre ele, o abraçando e começando a chorar em seu ombro.  — Eu estou aqui. — sussurrou.  — Sabe, isso me fez perceber uma coisa. — me afastei dele e enxuguei meu rosto. — A gente não sabe o que pode acontecer e quanto tempo as pessoas vão estar aqui conosco. Achar que perdi você doeu muito, mas sabe o que faria isso doer muito mais?  — O que?  — Se eu tivesse te perdido sem te dizer uma coisa bem claramente.  — Pode me dizer qualquer coisa. — segurou minhas mãos.  — Christopher, eu te amo. — ele ficou estático olhando para mim e seus olhos se arregalaram um pouco. — Eu tinha medo de dizer isso e fazer você fugir de mim, mas que se dane! E se você tivesse morrido sem saber que eu te amava? Isso seria o meu fim!  — Dulce... eu...  — E eu não quero fingir que não sou egoísta, eu sou muito egoísta e quero que você me escolha, quero que fique comigo, porque se você não ficar, eu vou ficar muito triste, eu nem consigo imaginar o quão m*l eu me sentiria se eu não pudesse ter você! Por mais que... — minha fala foi cortada por um beijo.  Eu não esperava que ele fosse me beijar. Talvez isso fosse para me fazer calar a boca, mas era mais provável que ele queria mesmo isso, tanto quanto eu. Eu o abracei firmemente, deixando o nosso beijo mais profundo. O doce sabor de sua boca misturava-se ao salgado das minhas lágrimas.  Christopher me abraçava, passando suas mãos por minhas costas enquanto mantinha nossas bocas muito bem encaixadas, numa dança viciante e saborosa. Eu poderia beija-lo por horas, ou até meu oxigênio se esvair. E quando perdemos o fôlego, paramos o beijo e deixamos nossas testas encostadas uma na outra.  — Eu também te amo. — ele disse. — E eu sei que essa não é a primeira vez que dizemos isso. — me encarou. — Eu te ouvi me responder naquela noite.  — Eu achei que você estava dormindo. — sorri.  — Eu fingi que estava, não sabia muito bem o que fazer naquele momento. — riu sem jeito.  — Mas então... — acariciei seu rosto. — Isso quer dizer que...  — Eu preciso realizar uma missa em homenagem aos homens que se foram no acidente. Meu pai insistiu que eu realizasse, não posso me recusar. A missa acontecerá amanhã à noite e no domingo eu vou solicitar minha desvinculação no Tribunal Diocesano. — franzi a testa, mostrando não entender o que ele disse. — Vou iniciar o processo para deixar de ser padre. — sorriu.  — Mesmo? — eu sorri também.  — Sim, Dulce. Não há nada que eu queira mais do que você. — eu fui para beija-lo novamente, mas ele se afastou. — Beijar você é muito bom, mas agora eu prefiro que a gente espere eu me desvincular da minha missão. Você pode ter um pouco de paciência por mim?  — Posso, claro que posso! Mas isso vai demorar muito?  — Depois que eu fizer a minha solicitação, vou ter que assinar uma carta de desligamento e então, serei oficialmente uma ovelha de Deus e não um sacerdote. — deu de ombros. — Vou poder ficar com você. A única coisa que pode demorar um pouco é o meu certificado de despensa, porque precisa ser assinado pelo Papa.  — Mas esse certificado nos impede de ficar juntos?  — Não, mas sem ele, eu não vou poder me casar. Não que eu queira me casar agora, eu não sou tão certinho assim, não se sinta pressionada. — eu ri de como ele ficou nervoso.  — A gente está indo bem. Tudo vai acontecer quando tiver que acontecer. — o tranquilizei.  — Só precisamos esconder isso do Alex. Se ele souber que vou sair da igreja por você, vai me denunciar antes mesmo que eu consiga pisar no Tribunal Diocesano. Se eu for denunciado, serei excomungado, o que é a pior punição para um sacerdote. Não poderei realizar nenhum sacramento da igreja, incluindo o casamento. É praticamente uma expulsão eterna.  — Não se preocupe, ele não vai saber. E só para garantir que tudo dê certo, vamos manter isso apenas entre nós dois. Eu sei que a Annie vai perceber que estou escondendo algo, mas juro que vou me segurar para não tagarelar. — rimos. — Você vai para casa agora?  — Eu só quero dobrar os meus joelhos ao lado da minha cama e agradecer a Deus por estar vivo. Hoje eu me salvei por pouco, talvez porque eu ainda precise resolver as minhas questões com você.  — Para mim, já está tudo resolvido.  — Não acredito que eu precisei quase morrer pra me dar conta de que o meu lugar é com você. — me olhou intensamente.  — Eu te amo.  — Eu também te amo. — eu poderia ouvir aquela frase por horas, pois havia se tornado a minha frase favorita, dita pela minha pessoa favorita.  Christopher me levou até em casa e depois eu lhe dei as chaves do meu carro para que ele fosse para sua casa. Não precisaria do meu carro por enquanto, já que depois da terrível experiência no trânsito, eu fosse preferir passar uns dias longe do volante.  Naquela noite, eu dormi com um sorriso no rosto e não tive nenhum pesadelo sequer. Minha mente estava tranquila, como se tivesse sido curada e eu me sentia tão feliz que esse sentimento m*l cabia em meu peito.
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