21 de setembro de 1991:
Acordei e senti falta do calor do sol batendo no meu rosto, dormir nas masmorras não era r**m, mas era frio. Sentei-me na cama e olhei em volta, meu quarto estava bagunçado e eu nem passei um dia nele.
Meu quarto era espaçoso por não conter muitas coisas nele, ele tinha uma cama de casal, um armário que ficava perto da porta do banheiro e uma mesa de cabeceira.
Não tinha janelas e as paredes, o teto e o chão eram de pedras negras iguais ao do salão comunal, o bom que tinham velas enfeitiçadas para ter um pouco de luz, também tinha feitiço de oxigênio e ventilação para que eu não morresse sufocada.
Levantei-me e já começo a arrumar meu quarto, dava tempo de arrumá-lo, para simplificar, dava para fazer tudo e até mesmo dormir de novo pelo simples motivo que era apenas quatro horas da manhã.
Faço tudo que tinha que fazer da minha lista mental e vejo que eram cinco e meia, iria demorar para abrir o Salão Principal.
Vejo um calendário na cabeceira e percebo que já era sábado, amanhã eu teria que ir ao gabinete do diretor para usar a rede flur para ir à psicobruxa, e só de pensar nisso me dava dor de cabeça.
Pego a minha toalha no armário e vou ao banheiro tomar banho.
Quando terminei de tomar banho e de pentear meus cabelos, pego meu uniforme e o coloco, vou até o chão perto do armário e pego meus livros, penas e tinteiro.
Desço a escada e vejo Draco e Thomas sentados no sofá, e quando me viram logo se levantaram.
Percebo que os dois estavam com olheiras e com cara de sono, mas não me importo muito em perguntar o que houve.
_ Você demorou. - Draco estava emburrado e vejo às horas, percebo que ainda tinha uma hora.
_ Que eu saiba, estou no horário e o que vocês querem?
_ Queremos a resposta da quarta ponta do tabuleiro, nós. - Apontou para Thomas. _ Pensamos a noite toda e não conseguimos imaginar quem poderia estar na quarta ponta.
Olhei para eles e ri, eles passaram a noite toda tentando decifrar as minhas palavras? Que idiotas, mas, ao mesmo tempo, são fofos.
_ Vocês passaram a noite toda tentando desvendar a quarta ponta? Vocês são idiotas? - Perguntei rindo e vendo suas faces ficarem rubras.
_ Não somos idiotas, apenas queremos entender a quarta ponta. - Falou Draco inflando suas bochechas.
Desvio dos dois e me sentei no sofá com meus livros no colo, os dois fazem a mesma coisa e me olham esperando uma resposta magnífica e eu particularmente não tinha essa resposta.
_ A quarta ponta é as pessoas que não tem ou tem opinião nessa guerra. - Falo e vejo eles bufarem em descrença.
_ Você está falando sério? Passei a madrugada toda tentando desvendar algo que estava bem na minha cara? - Perguntou Draco abismado e relutante em aceitar a resposta.
_ Olha, no nosso mundo também tem aqueles que tem uma opinião forte sobre essa guerra, como eu, por exemplo, acho que todos estão errados, mas se fosse eu, também faria uma guerra. Mas ninguém pode realmente julgar alguém nessa guerra, mesmo que estejamos em "paz" desde 1981, vocês acham mesmo que não estamos em guerra contra nós mesmos? - Olhei mais uma vez o relógio, faltava cinquenta e cinco minutos, bufei, vai demorar.
_ Como assim, nós mesmos? - Perguntou Thomas.
_ Olha, a guerra bruxa acabou quando o Lorde foi "morto", mas ficamos naquela dúvida e se ele voltar? Ficamos suspeitando de todos em nossa volta e até de nós mesmos, nós estamos em guerra contra nosso psicológico, porque ele sempre começa a dizer: E se a guerra não acabou? E se ele não estiver morto? O que você vai fazer? - Digo respirando fundo.
_ Ok, entendemos sobre isso, mas e as pontas? - Falou Thomas ainda pensativo.
_ Bom, temos aqueles que estão do lado das Trevas e essa é uma ponta. - Conto no dedo. _ Tem a outra ponta que está no lado da Luz, tem a terceira ponta que são os pacifistas; que qualquer lado que vencer está bom para eles e a quarta ponta é que deseja que nenhum lado vença ou os dois lados vençam. Os pacifistas e a quarta ponta se parecem muito, mas a quarta ponta prefere que nenhum vença ou os dois vençam.
_ E qual dessas pontas você está? - Perguntou Thomas.
_ Em nenhuma delas. Não preciso estar no tabuleiro, eu posso muito bem criar meu próprio tabuleiro. - Sorri de canto.
_Espere, isso não é errado? Você falou várias coisas ontem sobre como é errado uma guerra e blá, blá, mas você também quer criar uma guerra? - Draco franziu a testa.
_ Não quero ver o circo pegar fogo ou colocar mais lenha na fogueira, apenas quero que o nosso mundo seja melhor e eu sei que sentar-se e conversar com nossos políticos não resolve em nada, a única língua que eles entendem é a da guerra. E se eu tiver apoiadores e recursos, faria uma guerra sem pensar duas vezes.
_ E os outros? As pessoas que não têm condições para sair vivos desta guerra? Você já pensou neles?
_ Eu não lutarei apenas por nós, bruxos, iria lutar por todos os seres mágicos do nosso mundo, porque eles merecem respeito e equidade e por milênios apenas os matamos e abusamos desses seres, nós não somos superiores a eles apenas porque podemos usar magia.
_ Isso é totalmente estranho de se ouvir, aprendemos desde crianças que somos superiores e você está nos dizendo que as criaturas merecem respeito. - Suspirou abismado. _ Você também está nos dizendo que não está em nenhuma ponta do tabuleiro e que quer criar o seu próprio tabuleiro. - Draco riu consigo mesmo. _ Sua família também pensa assim como você?
_ Não. Meu pai seguiu as vontades do meu avô e se tornou um. - Não consigo falar aquelas palavras e como ontem eles perceberam.
_ Não precisa falar, já entendemos. - Proferiu Thomas compreensível.
_ Obrigada. - Agradeço sorrindo. _ Mas meu pai acabou se apaixonando por uma nascida trouxa e meu avô ficou muito bravo e disse que deserdaria meu pai. Mas depois que vovô conheceu a mamãe, ele caiu de amores e deu a benção para que se casassem, mas como eles eram seguidores do Lorde das Trevas, meus pais tiveram que se casar em sigilo. - Sorri me lembrando da mamãe me contando isso.
_ Então sua mãe também é uma Comensal? - Perguntou Draco.
_ Não, ela era pacifista, para ela estava tudo bem qualquer um dos lados ganharem.
_ Mas se o lado da Luz ganhar, seus pais podem ser caçados e se as Trevas ganharem, a sua mãe que será caçada. - Pontuou Thomas. _ É por isso que você não quer fazer parte do tabuleiro e sim, fazer um, e qualquer lado que vencer você perde um dos seus pais. - Falou por fim.
Sorri com a sabedoria de Thomas, ele realmente era inteligente, que bom que não era apenas um rostinho bonito, afinal de contas. Levantei-me com meus livros e antes de sair do salão, falei:
_ Sua conclusão está certa, mas temo já ter pedido os dois. - Olhei de esguelha e os vejo os confusos. _ Meu pai está em Azkaban e eu o odeio. - Pontuei relutante. _ E mamãe está morta.
Saio do salão comunal e ando devagar pelos corredores, falar aquilo em voz alta doía menos do que guardar aquilo dentro de mim, ainda doía, mas bem menos. Respiro fundo e coloco novamente a máscara de felicidade e indiferença em meu rosto.
É apenas mais um dia e eu espero que esse dia passe rápido como os outros;
Vejo que as portas do Grande Salão já estavam abertas e sem delongas me vejo entrando no salão, ainda não estava cheio, mas já tinha algumas pessoas dentro dele.
Vou em direção da mesa e me sentei, e coloco meus livros em cima da mesa em um canto sem comida e alunos. Coloco comida no meu prato e começo a comer, as aulas iriam demorar um pouco por ser cedo ainda, então eu teria que fazer alguma coisa para passar o tempo.
_ Por que não esperou a gente? - Olhei para cima e vejo Draco com Thomas em seu encalço, ainda não havia compreendido a amizade deles.
_ Não pensei que seria necessário. - Falei indiferente. _Posso fazer uma pergunta?
Olho para eles que estavam se sentando e vejo que eles estavam relutantes em me responder, e essa palavra definiria as ações dos dois, relutante.
_ Pode falar. - Pronunciou Thomas, ele estava mais calmo do que nos dias anteriores.
_ Qual é o esquema dessa amizade? Vocês parecem cão e gato nas horas vagas. - Perguntei, mas não era aquilo que queria perguntar.
_ Não sei, eu acho que tem a ver com as nossas conversas de política e democracia, mas diferente do que conversamos ontem ou hoje de manhã. - Comentou Thomas tomando um pouco de suco.
_ Então vocês conversam sobre política e democracia em vez de conversarem sobre quadribol ou algo parecido? Vocês são estranhos. - Comentei sorrindo.
_ Não somos estranhos, apenas crescemos rápido de mais para nossa idade. Nossos pais querem que sejamos seus sucessores, então nossa infância não foi regada de mimos ou brincadeiras como a maioria pensa. - Falou Draco comendo um pouco de torrada com ovos.
_ Entendo, e me perdoem por perguntar algo tão íntimo. - Pedi cordialmente, eles iriam falar algo a mais, mas uma coruja que voou até mim não deixou.
_ Você recebe muitas corujas. - Falou Draco tentando identificar o remetente. _ De quem é a encomenda?
_ Você é muito curioso para um Malfoy. - Comentei azeda e brincalhona. _ Vendo o tamanho do pacote e a espessura, devo deduzir que é do meu guardião élfico.
_ Guardião élfico? O que é isso? - Perguntou Draco enrugando a testa. _ Que eu saiba, só existe guardião mágico.
_ Sim, mas Dumbledore está muito ocupado cuidando de outras crianças. - Proferi azeda, lembrar da carta que recebi de Dumbledore quando mamãe morreu não foi nada bom para minha sanidade mental naquele momento. _ Então alguns amigos de minha mãe que trabalham no ministério mexeram alguns pauzinhos e conseguiram criar uma lei.
_ E que lei seria essa? - Thomas estava muito interessado na conversa, era estranho.
_ Bom, eu não sei a lei corretamente, mas ela fala: que o elfo doméstico tem que ter mais de cinquenta anos, saber ler e escrever. Ter convivido pelo menos quinze anos na família da criança e mesmo dando todas as funções e liberdade de um guardião mágico, ele nunca será aceito pelos bruxos como tal.
_ Então ao invés vez de um humano cuidar de você, é um elfo? - Perguntou Draco que tentava não rir.
_ Sim, como meu pai está em Azkaban e minha mãe morreu, eu não tinha nenhum parente vivo para cuidar de mim.
_ E os orfanatos? - Thomas parecia estar com raiva.
_ Não existe orfanato no mundo bruxo e se eu fosse para o mundo trouxa com a minha idade já avançada, poderia colocar em risco o nosso mundo. - Falei terminando de comer, limpei minhas mãos no guardanapo e vejo que o pacote era o balancete da quinzena deste mês. _ E os amigos dos meus pais já tinham filhos e alimentar mais uma boca não seria conveniente.
_ Mas você não tem dinheiro?
_ Sim, mas se eu fosse adotada por alguém, o cofre só seria aberto por mim com meus dezessete anos, por isso que a maioria não quis me adotar.
_ Ela tem um bom ponto, então você mora sozinha com um elfo? Você percebe que tem a vida dos sonhos de qualquer criança? Você pode dormir tarde, comer o que quiser e gastar tudo. - Ele riu e tinha às vezes que ele não era nada inteligente.
_Eu faria isso se eu fosse burra. - Pontuei por fim.
Peguei meus óculos que estavam na minha capa e os coloquei, deveria ver aqueles papéis agora mesmo.
_ Não sabia que você usava óculos. - Falou Thomas.
_ São para descansar minhas vistas, não preciso deles, mas eu os uso para não ter dor de cabeça. - Sorri e olhei para Draco para respondê-lo. _ Se eu fizesse isso que você me falou, eu ficaria pobre na primeira semana que fiquei órfã de minha mãe. A única coisa que faço é dormir tarde por causa que tenho que organizar os documentos das propriedades de minha família e conferir os cofres.
_ Como assim? - Perguntou Thomas.
_ Como não trabalho, não tem como repor o dinheiro que pego em Gringotts, então desde que minha mãe morreu, venho estudando administração. Para simplificar, eu sou a chefe da família.
_ E os aluguéis? - Perguntou Draco.
_ Na época que mamãe morreu não tinha nenhuma casa alugada, foi apenas no ano passado que tive a ideia de alugar as propriedades de minha família e é por isso que falei que se eu esbanjasse dinheiro ficaria pobre.
Deixo-os pensarem sobre minhas palavras e começo abrir o livro contábeis do cofre de minha mãe. Demion havia mandado seis livros, os livros diários, livros razão e os livros caixas. Três livros eram do cofre de meu pai e os outros três de minha mãe.
Mamãe tinha um zelo enorme por aquele cofre, parecia que nele se escondia alguma criatura ou algo similar, porque nem mesmo eu poderia entrar no cofre, apenas os duendes e mesmo assim, eles temiam aquele cofre.
Peguei o livro caixa e comecei a observar seus números e porcentagens e na primeira quinzena deste mês, Demion apenas pegou o necessário para suprimentos básicos da nossa casa, mas bem no final da folha tinha um número absurdo de dinheiro retirado do cofre Olwey.
_ Não pode ser! - Falei exasperada.
_ O que houve? - Perguntou Thomas alarmado.
_ Só pode ser brincadeira. - Retirei meus óculos e apertei a ponte do meu nariz. _ No cofre Olwey está faltando nada mais que nada menos, que um milhão de galeões. - Draco que bebia suco cuspiu na pessoa de sua frente, sinto pena do Zabini.
_ Como? - Perguntou Thomas que tentava passar tranquilidade.
_ Demion falou que eu estava sendo roubada, mas eu não pensei que seria uma quantia tão exorbitante. As únicas pessoas que tem autorização para pegar dinheiro na conta de mamãe; sou eu, Demion, meu pai e. - Olho para a mesa dos professores e vejo Albus Dumbledore rindo de algo. _ Dumbledore.
_ Sabe que acusar o diretor não é muito sensato, não é? - Proferiu Pansy, quando ela chegou aqui?
_ Eu sei, mas Demion nunca retiraria um milhão de galeões do cofre, ele é um elfo, ao final de contas. Temo que terei que ir em Gringotts quanto antes, se continuar assim, o cofre será esvaziado em duas semanas. - Falo deixando o livro aberto em cima da mesa.
_ Sua mãe era milionária. - Pontuou Draco que estava vendo livro caixa, pego aquele livro de suas mãos e o fechei.
_ Seus pais não te deram educação? Que falta de respeito pegar algo que não foi lhe dado. - Falei brava.
_ Desculpa, mas sua mãe te deixou muito dinheiro.
_ Eu sei, parecia que ela sabia que não poderia cuidar de mim e foi particularmente estranho quando ela se foi. - Falo divagando.
_ E esse outro livro? - Perguntou Thomas e Pansy em uníssono.
_ Esse? - Aponto para o livro verde. _ Esse é o livro caixa do meu pai, Demion apenas manda ele quando algo está. - Paro de falar e abro o livro vendo que tudo estava normal menos por uma pequena subtração de livros.
Ninguém tem a autorização de mexer naquele cofre, nem mesmo Dumbledore, então quem roubou 250 livros do cofre?
Eu iria comentar, mas fui parada por um jornal que foi entregue por uma coruja e nele estava a seguinte manchete:
"Fuga em massa em Azkaban"