Senti o meu coração acelerar. O que ele poderia querer me dizer? Teria descoberto os meus planos? O meu encontro com Maria Ivanovna e o fato de que eu começaria um curso de recertificação na segunda-feira, pago com o cartão de crédito dele?
— O que foi, Denis? Perguntei, tentando manter a calma.
— Eu sei que não tenho sido o marido ideal para você. Disse ele, sentando-se no sofá ao meu lado.
A questão é que eu realmente tinha sido o marido e pai ideal, até o momento em que descobri sobre Lisa. E isso tornou tudo ainda mais doloroso. Se a nossa vida já estivesse r*uim antes disso, teria sido mais fácil para mim entender as suas ações. Não para justificá-las, não, mas para entendê-las.
— O que você quer dizer? Perguntei finalmente, tentando adivinhar as suas intenções.
— Quero ser um pai melhor para nossos filhos e um marido melhor para você. Disse Denis. — Estou disposto a mudar, Eva.
Essas palavras me atingiram como um raio. Ele estava sendo sincero? Ou seria mais um dos seus truques para me manter ao seu lado? Será que ele tinha mudado de estratégia?
— Você terminou com a Lisa?
O homem fez um gesto como se tivesse provado um limão em vez de uma maçã.
— Nós combinamos, Eva, de não falar mais sobre ela.
Percebi que ele estava irritado. Ao longo dos anos, aprendi a ler a sua linguagem corporal muito bem, mas aparentemente, não tão bem o que se passava na sua mente.
— Então não. Interpretei corretamente. — De que mudanças você está falando?
Denis se aproximava lentamente, e havia algo predatório no seu olhar e no seu andar.
— Escute. Disse ele. — Eu não quero que percamos o que temos. Podemos dar um jeito de resolver tudo. Lisa é... outra vida. Esqueça. Ela não afeta o que você e eu temos, nem nossos filhos.
O que não afetava? Ela irrompeu nas nossas vidas como um tsunami devastador, humilhou-me publicamente e quase desejou abertamente que eu morresse logo.
Parecia que Denis estava vendo essa jovem loira com lentes cor-de-rosa. Será que ele realmente não entendia que a ruptura entre nós havia se tornado um abismo perigoso, ou estava apenas tentando nos tranquilizar?
— Outra vida? Raiva e desespero me dominaram. — Você está falando sério, Denis?
Ele suspirou, claramente despreparado para mais explicações.
— Eu sei que é difícil, mas muitos homens vivem assim, e a suas esposas aceitam.
Quem são essas pobres mulheres? Me perguntei.
— Eu não quero que nos separemos, Eva. Não vamos falar sobre isso, vamos?
O homem me encarou, como se estivesse testando as águas, procurando qualquer sinal de traição. Eu tive que entrar no jogo, mesmo que a ideia me revirasse o estômago.
— Não.
Denis sorriu gentilmente, satisfeito com a minha aparente concordância. Ele até pareceu relaxar.
Talvez tenha pressentido algo. Eu cedi fácil demais. Tomara que ele não perceba ou saiba nada sobre o meu plano!
— Pense nas crianças. Elas merecem os dois pais.
As minhas mãos se tensionaram. A minha raiva crescia a cada palavra. Como ele podia menosprezar a nossa família tão casualmente? Como pude amar um can*alha por tanto tempo?
— Estou disposto a sustentar você e as crianças. Podemos viver como antes. Vou te dar tudo o que você quiser.
— Tudo o que eu quero? Não consegui conter o riso.
Tudo o que eu quero é honestidade e respeito, não a ilusão de uma vida perfeita. Ecoou na minha cabeça, mas não disse em voz alta.
Denis suspirou, e um brilho metálico apareceu nos seus olhos.
— Eva, você precisa entender que este é o mundo real. Às vezes, é preciso fazer concessões.
— Concessões? É assim que você chama? Repeti, sentindo uma raiva fria crescer dentro de mim. — Filosofia interessante, Boyko.
Ele diminuiu a distância que nos separava e parou bem perto.
— O que você está fazendo?
— Você sabe que fica incrivelmente atraente quando está com raiva. A sua voz tornou-se um sussurro aveludado e a sua respiração acelerou.
Uma chama familiar de paixão ardia nos seus olhos. Eu sabia que ele me desejava.
E o meu corpo conhecia bem o prazer que Denis podia me dar. Boyko sempre o tocava como se fosse um instrumento musical.
Só que agora eu não queria as mãos dele perto da minha pele. Ou será que queria?
Os seus dedos roçaram suavemente a minha mão, e senti uma leve corrente elétrica percorrer o meu corpo. Tentei me controlar, mas a proximidade dele, o seu perfume, seu calor — tudo isso me desestabilizou.
Ele sempre soube como me influenciar, como me fazer desejá-lo.
— Eva. Ele sussurrou, aproximando os lábios do meu ouvido. — Vamos esquecer tudo isso por um momento. Vamos nos concentrar em nós.
Os seus lábios m*al tocaram o meu pescoço, e senti uma luta interna entre o desejo e o desespero. Os seus beijos, seus carinhos. Tudo era familiar e, ao mesmo tempo, dolorosamente estranho depois do que tinha acontecido.
— Denis. Expirei, tentando afastá-lo. — Pare.
— Por quê? Ele perguntou, olhando-me nos olhos. — Você sabe o quanto somos bons juntos.
— Nem pense nisso.
— Por que não? Denis sorriu. — Ainda somos marido e mulher, Eva, caso você tenha esquecido. Eu te desejo, e você...
— Eu não.
— Mesmo? Ele hesitou, incrédulo.
— Sim. Quer dizer, não. Isso mesmo, não, Boyko. Recuei, mas tropecei no sofá e quase caí, enquanto Denis aproveitava o momento para me puxar para perto dele.
— Você nunca conseguiu mentir, Eva. Ele riu. — Eu te conheço há anos e ainda te desejo como da primeira vez. Confesse, minha querida, você é uma feiticeira?
Se ele me desejasse como no começo, não estaria procurando casos. Embora... segundo Denis, uma coisa não deve interferir na outra. E aprendi isso sozinha: não interfere, só machuca, mata lentamente.
— Não estou mentindo. Me solta, Boyko.
— Não.
Não? Fiquei surpresa, e quando percebi que os nossos lábios estavam tão perto que quase se tocavam, senti medo.
— Sempre nos demos bem, e quero que você se lembre disso.
Denis deslizou a língua pelos meus lábios e beijou-me com um desejo desesperado. Por um breve instante, me entreguei. Ainda havia uma mulher vulnerável dentro de mim que um dia amara cegamente por esse homem. Ela estava profundamente magoada, sentia falta do seu cavaleiro e não conseguia acreditar que ele se revelara um mero traidor.
Mas, ao lado dessa mulher, que ainda contemplava a ilusão de uma vida conjugal perfeita, outra estava emergindo. Não tão ousada ou autoconfiante, mas definitivamente não submissa.
— Ai! O que você está fazendo? Denis reclamou, recuando quando mordi o seu lábio.
— Eu disse que não queria. Você não me ouviu? Ou está pensando apenas nos seus próprios desejos?
— Você não quer? Ele pareceu considerar as minhas palavras pela primeira vez. — Por quê?
E o seu rosto refletiu tamanha surpresa que uma felicidade agridoce me invadiu.
É verdade? Eu não quero?
— Por quê?
Por um instante, fiquei sem palavras: será que ele realmente não entendia ou estava apenas zombando de mim? Mas pela paciência com que aguardava a minha resposta, eu sabia que era sincero.
— Você está louco, Denis? Eu não te pedi um tempo?
— Para aceitar a situação, sim. Para não me enrolar, sim. Para dar umas indiretas também. Mas você nunca mencionou nada sobre se*xo.
— E você realmente achou que eu me entregaria a você e ainda dormiria ao seu lado?
— Eu não disse que dormiríamos. Há coisas mais interessantes que poderíamos fazer.
— Denis, não é só porque você me traiu. Eu disse, procurando as palavras certas, tentando não perder a paciência. — Não é só uma questão de infidelidade. É uma questão de confiança. Eu preciso saber se posso confiar em você novamente e te ver como um homem.
— Você consegue, Eva. Ele afirmou com certeza.
— Eu consigo. Por que você diz isso?
— Porque eu te conheço.
— E acontece que eu não te conheço.
— Sim, você conhece. Boyko segurou o meu rosto entre as mãos. — Nada mudou.
— Tudo mudou.
— Podemos tentar. Ele insistiu. — Podemos trabalhar nisso juntos. Vou te mostrar que ainda somos perfeitos um para o outro.
— Você prometeu me dar tempo. Eu disse, com lágrimas nos olhos. Ninguém disse que seria fácil. Decidir é uma coisa, mas cumprir é outra bem diferente. — Preciso processar tudo o que aconteceu. E isso vai levar tempo.
— Quanto tempo? A sua voz ficou fria e áspera, assim como o seu olhar. — Por quanto tempo você pretende me punir?
— Não se trata de punição. Franzi a testa. — Trata-se dos meus sentimentos, da minha cura. E de me reencontrar em meio a tudo isso. Não sei quanto tempo vai levar, mas sei que não estou pronto para estar com você do jeito que você quer agora.
Um silêncio tenso instalou-se entre nós.
— Tudo bem. Denis finalmente cedeu, com os dentes cerrados, depois de um tempo. — Aceito as suas condições, Eva. Mas...
— Mas o quê?
— Você precisa se lembrar que só estou fazendo isso porque te amo, Eva. Espero que você entenda isso quando as coisas se acalmarem.
Ele foi tomar banho, me deixando sozinha, cercada pelos resquícios da nossa felicidade.