Episódio 12

1650 Palavras
Antes de entrar, decidi apagar os dados do GPS do carro. Não podia arriscar que Denis rastreasse o meu trajeto e descobrisse os meus encontros. Este era mais um passo rumo à minha independência e segurança. Lá dentro, tudo estava silencioso. As crianças ainda não tinham voltado com a babá. Eu tinha tempo para me arrumar antes da chegada delas e começar a preparar o jantar. Fui até a cozinha, preparei uma xícara de chá e sentei-me à mesa, deixando os meus pensamentos se acalmarem. As minhas mãos tremiam levemente de ansiedade, mas por dentro eu me sentia mais tranquila. Não precisei esperar muito. Maria Ivanovna havia me dado o número de um advogado, e eu sabia que esse era o próximo passo do meu plano. Corajosamente, peguei meu celular e disquei o número de Ivan Stepanovich. — Olá, como posso ajudar? Respondeu uma voz masculina grave. — Boa tarde. Comecei, um pouco insegura. — O meu nome é Eva Boyko. Maria Ivanovna recomendou que eu entrasse em contato com você. — Ah, sim, claro. A voz do advogado suavizou e tornou-se mais amigável. — Maria já me falou da senhora. Como posso ajudá-la, Sra. Boyko? — Gostaria de me encontrar com o senhor o mais breve possível. Respondi, tentando manter a voz firme. — Preciso de aconselhamento jurídico sobre um divórcio. — Entendo. Amanhã às 10 horas seria conveniente? Ele perguntou. — Sim, seria perfeito. Concordei. — Muito obrigada. — Não se preocupe, Sra. Boyko. Disse Ivan. — Farei tudo o que puder para ajudá-la. Até amanhã. — Obrigada, até amanhã. Respondi e desliguei. Dado o primeiro passo, senti um alívio enorme. Amanhã me encontraria com o advogado, e isso marcaria o início de um novo capítulo na minha vida. Por agora... eu precisava preparar o jantar para as crianças. Peguei legumes e um peito de frango na geladeira. Enquanto picava os tomates, as cenouras e os pimentões, pensei em como a minha vida mudaria depois do divórcio. Embora a dor de um coração partido não tivesse passado, o simples fato de não aceitar obedientemente o roteiro imposto por Denis me enchia de alegria. Não valia a pena aceitar a situação e ficar com as crianças por tanto tempo, a ponto de agora ter que validar o meu diploma com cursos e certificações. A minha cabeça dava voltas, tentando descobrir como conseguiria equilibrar tudo. Além disso, eu precisava garantir que Denis não descobrisse nada antes da hora. Enquanto o frango assava na panela, preparei um molho misturando iogurte com alho e endro. Cozinhar sempre me acalmava. Meus pensamentos sobre o futuro, que antes pareciam sombrios e sem esperança, agora ganharam clareza e confiança. Eu sabia que havia muito trabalho pela frente, mas sentia forças para começar essa jornada difícil. Eu mereço algo melhor do que viver com um traidor e suportar humilhações constantes. Quando o frango ficou pronto, arrumei a mesa e comecei a preparar a salada. Piquei os legumes, adicionei azeite, sal e pimenta. O jantar parecia apetitoso e eu me senti satisfeita por ter conseguido preparar algo útil e delicioso para minha família. Nesse momento, as crianças voltaram com a babá. Ouvi as suas vozes no corredor e o meu coração se encheu de alegria. — Mamãe, você não vai acreditar! Exclamou Irina, animada, tirando os sapatos de dança. — Aprendemos uma dança nova na aula hoje. Eu estava tão ansiosa! — Que ótimo, Irina! Sorri, me abaixando para abraçá-la. — Você pode me contar mais sobre ela? — Claro! Ela respondeu, com os olhos brilhando de entusiasmo. — Era uma valsa e a nossa instrutora disse que eu danço muito bem. — Você é muito talentosa. Estou muito orgulhosa de você. — Mais tarde, se você quiser, eu te mostro o que aprendi. — Claro. Não posso perder isso. Enquanto conversávamos, os gêmeos entraram correndo no quarto. Eles vieram me contar sobre o dia deles. — Mamãe, mamãe! Gritou Dmitri, pulando de alegria. — Hoje, na aula de arte, aprendemos letras novas. Logo saberei o alfabeto inteiro! — E eu desenhei um sol enorme. Acrescentou Maikol, mostrando a folha de papel com o desenho. — A professora disse que é o sol mais bonito que ela já viu! — Vocês são ótimos. Eu disse, abraçando os dois ao mesmo tempo. — Estou muito orgulhosa de vocês. — E podemos assistir desenhos agora? — Só depois do jantar. Respondi, sorrindo. — Então vão lavar as mãos e sentem-se à mesa. Notei Tatiana parada na porta, sorrindo, observando a nossa família. O seu olhar carinhoso e a sua gentileza me fizeram sentir vergonha das minhas suspeitas anteriores. Eu realmente pensei que ela pudesse estar espionando para Denis, mas agora percebi o quão injusto era esse pensamento. Ela já tinha feito algo de errado comigo? Parecia que, depois da traição de Boyko, eu comecei a ver inimigos por toda parte. — Tatiana. Eu disse. — Fique conosco para o jantar. — Ah, Sra. Eva. Ela respondeu, um pouco sem jeito. — Obrigada, mas não quero incomodá-la. — Não incomodará em nada. Assegurei-lhe. — A senhora sempre nos ajuda, e será uma ótima oportunidade para jantarmos juntos. Tatiana assentiu levemente e sentou-se à mesa. As crianças já estavam nos seus lugares e começamos a comer. O ambiente era acolhedor e descontraído. Conversamos sobre várias coisas do dia a dia: os novos passos de dança da Irina, as letras que os gêmeos tinham aprendido e até mesmo os experimentos culinários que eu estava planejando para a semana seguinte. Tatiana compartilhou algumas histórias engraçadas sobre como eles passavam o tempo durante os passeios. Foi comovente ver o quanto as crianças a amavam e o quanto ela realmente se importava com elas. Depois do jantar, a babá me ajudou a arrumar a mesa antes de se despedir. — Obrigada pelo jantar. Disse ela. — Estava delicioso. — Obrigada, Tatiana. Respondi, sorrindo. — E por tudo o que a senhora faz por nós. Quando a babá saiu, as crianças correram animadas para a sala de estar, onde os seus desenhos animados favoritos já as esperavam. Liguei a televisão e sentei no sofá, observando a alegria delas. Vendo-as, era fácil me iludir e pensar que o mundo continuava o mesmo, que tudo seguia normalmente. Mas isso era uma mentira, assim como os quinze anos do meu relacionamento com Boyko. ‍​De repente, ouvi a porta da frente abrir suavemente e vi Denis aparecer no corredor. O seu retorno antecipado me pegou de surpresa. Ele sempre me avisava quando ia se atrasar para o trabalho, e hoje não foi exceção. Ele deveria se atrasar? O que havia mudado? A sua aparição me inquietou. — Oi. Disse ele ao entrar na sala de estar. As crianças pularam do sofá e correram na sua direção, gritando alegremente: — Papai, papai! — Oi, meus pequenos. Ele respondeu, abaixando-se para abraçá-los. Então, ele olhou para mim, e vi algo novo nos seus olhos, algo que me deixou ainda mais inquieta. — Você chegou cedo hoje. Eu disse, tentando disfarçar o meu nervosismo. — Sim, decidi sair mais cedo. Respondeu Denis, olhando-me diretamente nos olhos. — Queria passar um tempo com as crianças, brincar um pouco com elas. Vamos colocá-las para dormir juntas hoje à noite? Era algo novo. Denis raramente participava dos rituais de dormir das crianças, sempre dando desculpas sobre o trabalho ou outras obrigações. A sua sugestão pareceu suspeita, mas decidi não fazer perguntas desnecessárias. — Claro. Respondi, entrando na brincadeira. — Crianças, vocês ouviram? Papai vai ajudar vocês a irem para a cama hoje à noite. — Eba! Gritaram os gêmeos, enquanto Irina simplesmente sorriu, feliz por ver o pai em casa. Denis brincou com as crianças, e o seu comportamento foi surpreendentemente carinhoso e afetuoso. Eu os observei, sentindo uma estranha mistura de alegria agridoce — ele sempre foi um bom pai — mas, isso está suspeito. O que ele estava aprontando? Por que tinha chegado tão cedo? — Você está com fome? Perguntei ao meu marido. — Não me diga que você preparou algo para mim? Denis ergueu uma sobrancelha. — Não. — Imaginei. Ele assentiu calmamente. — Comi no restaurante. "Comi no restaurante." Senti uma queimação no peito. Eu sabia perfeitamente que não tinha jantado sozinho. Provavelmente com a Lisa. Era assim que Denis imaginava o nosso futuro? Que iríamos compartilhar a vida dele com outra mulher e o filho dele, sem reclamar? E isso era uma vida normal para ele? Um desprezo absoluto por mim e pelos nossos filhos. Um dia eles vão crescer e começar a fazer perguntas. Não dá para esconder um gato num saco para sempre. O que o Denis vai dizer para eles? Que todo mundo vive assim? Que é normal? Bobagem. Fiquei ainda mais convencida de que tinha tomado a decisão certa: eu não podia continuar vivendo assim. Só me restava aguentar mais um mês com o Boyko e bolar um plano alternativo. Depois que as crianças se lavaram, Denis ajudou-as a vestir os pijamas e as levou para a cama. Contou-lhes uma história, e eu observei enquanto os pequenos, cativados pela sua voz, adormeciam aos poucos. Vai ser difícil para as crianças sem o pai. Duvido que, mesmo tão jovens, eles consigam lidar com o nosso divórcio sem nenhum problema. Mas eu não via outra saída. Não estava disposta a sacrificar a minha vida no altar do egoísmo do meu marido. Quando a porta do quarto das crianças fechou-se silenciosamente, Denis se virou para mim. A sua expressão ficou séria e vi determinação nos seus olhos. — Eva. Ele começou. — Precisamos conversar.‌​​‌​‌​​‌​​‌​​​​​​​​​‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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