Nathan tem que fazer uma coisa

1724 Palavras
“Amor sem verdade”, bem disse Wilfred Bion, “não é mais do que paixão; verdade sem amor não passa de crueldade.” Mas, para Ítalo, o amor é igual a crueldade; e a verdade é uma paixão que, em alguns casos, deve ser platônica mesmo, porque ela também pode ser c***l. Passado o tempo de culminar uma ideia, o tempo de detestar tê-la formulado, e também o tempo de observar em si brotar o sentimento de precisar fazer algo a respeito disso, Isaac fez questão de ser o primeiro a encontrar o irmão, depois da aula; os passos furiosos, desde a sala, já denunciavam o conteúdo da conversa. — Não mente pra mim! Você sabia? — Não tinha nada para eu saber. Porque isso é coisa da sua cabeça. — Não fode, Ítalo! — disse Isaac, empurrando o irmão contra a parede, que se chocou num baque surdo. E, embora tivessem quase a mesma altura, Isaac parecia bem maior agora. E o corredor estava tão movimentado e populoso de jovens ansiosos para meterem o pé dali que era como se os dois estivessem a sós. — Primeiro, Nathan com a história de ter mandado mensagem para você enquanto estava no cinema comigo. Depois, o fato de ele só ter me beijado de verdade quando você estava vendo, no carro. E agora, ele estava brigando comigo, mas foi só você chegar e a raiva dele passou tão rápido quanto surgiu. Então, vai continuar dizendo que ele não gosta de você?! — O tom que Isaac usava... Ítalo não sabia descrever exatamente, mas aquela raiva contida, o maxilar trincado e o ar de superioridade intelectual... Aquele tom tinha tudo isso, e Ítalo detestou. — Você está sendo paranoico, como sempre. Nathan me mandou mensagem porque estava com vergonha de dizer a você que estava passando m*l. Beijou você no carro porque estavam se despedindo. Parou de brigar com você quando eu cheguei porque sabia que nenhum irmão ficaria quieto vendo o irmão sendo repreendido, esculhambado na frente dele. — Sucedeu que, até então, o tom tentava se assemelhar ao de Isaac: mostrando-se classudo, austero, como quem se depara com os disparates de uma criança. Mas algo cresceu dentro dele nesse momento; algo represado há um tempo. Que desaguou de uma vez só: — E você está falando merda, pra variar. Muita merda. E sabe por quê? Porque você é um mimadinho que não aceita sequer um “talvez” ou um “quem sabe” como resposta. E aí faz esse seu showzinho para chamar atenção. — Ah, showzinho, é? — questionou Isaac, sorrindo com mordacidade. — Showzinho. Taí. Com quem será que eu aprendi a dar showzinhos?... hum... será que foi com a parte do meu irmão que é reclusa socialmente, que age como se pensasse “eu não vou participar essa babaquice porque sou melhor que isso e que eles”? Ou será que aprendi com a parte superprotetora? Ou será que foi com a que é incrivelmente possessiva que me repreende a todo momento, porque, pra ele, tudo que faço está errado. E então, para me punir por isso, ele sempre tenta me manipular e manipular qualquer coisa ao meu redor para ter a sensação de massagem no ego inflamado pra c*****o dele! — Enquanto resfolegava, alterado, Isaac apontava para o peito de Ítalo, perfurando-o com seu dedo, e bem na última fala o seu dedo se transformou em palma, que empurrou Ítalo novamente. Vamos lá, continue, pensou o outro, e Isaac, possesso, puxou Ítalo pela gole, arrastando-o até uma curva menos movimentada por entre os corredores, aparentemente sem muita gente prestando atenção. Ítalo estava deixando, parecia estar quase implorando para ele continuar. Ali, Isaac deu um tapa na cara de Ítalo. Um tapa colorido por dor e quentura. Vai, bate de novo, aqueles olhos à sua frente pediam, e Isaac encheu a mão dessa vez, acertando um soco no rosto de Ítalo, que tombou pra trás, de encontro à parede. Meio sonso, meio surpreso, ele sacudiu a cabeça. Um latejar no canto direito apenas fez um pensamento lhe ocorrer: Isso, Isaac, vamos. Mais forte agora. — Reage, p***a! — vociferou Isaac. Mas Ítalo não reagiria, não. Um soco acertou o abdômen do irmão mais velho, que tossiu, curvando-se, e com a outra mão Isaac golpeou-lhe novamente no maxilar. — Por que é — sussurrou um Isaac estridente — que você não reage? Porque verdade sem amor não passa de crueldade... Isaac ergueu Ítalo pelo pescoço, hasteando-o sobre o concreto atrás dele. Novamente. E lançou-se um olhar quase que... de dúvida. De pena ou arrependimento. Quem sabe, de ternura. Quem sabe, de raiva. Como que cansado, Isaac espalmou o peito de Ítalo, que, aproveitando-se do braço estendido de Isaac, percebendo a guarda baixa dele, Ítalo o agarrou num puxão, esmagando-o contra seu peito, num aperto que circundava o doloroso. — Não fale palavrão pra mim — alertou Ítalo, surpreendendo até mesmo Isaac. — Vai. Se. f***r. Assim sendo, Ítalo o apertou mais, até que Isaac gemesse, comprimido. Num ímpeto, Isaac fez dar uma cabeçada em Ítalo, que pegou bem na testa, fazendo com que ele o soltasse de supetão. — Cara, eu vou te matar — sentenciou Ítalo. — Você me cabeceou! A p***a de uma cabeçada! Mas, enquanto levava a mão à cabeça, como quem examina os danos, os dois ficaram se encarando, conferindo um ao outro. Os poucos alunos que paravam para ver o que estava acontecendo logo seguiram seus caminhos, dando lugar a novos transeuntes curiosos que fugazmente pausavam suas rotinas para assistir a esse novo acontecimento. Em algum momento, a situação, a aura entre eles agora havia mudado, e quase parecia, quase, que Isaac iria chorar. Eles sempre brigavam, sempre. Mas Isaac nunca chorava. Ítalo, menos ainda. E muito raramente pediam desculpa um ao outro. Porém, depois de um tempo, sempre voltavam a se falar, a contar um com o outro. E esse era o jeito deles de pedir desculpa. — Você está gostando dele, Ítalo? — Agora sua fala estava menos energética e incisiva; estava, na verdade, mais cansada do que raivosa. — É claro que não. E nem ele de mim. Ele gosta de você. Pediu para sair com você. E ele é sortudo por essa escolha, com certeza. Além do mais, você faz sucesso entre os viadinhos — comentou, não conseguindo conter o riso exausto que viria a seguir. A cabeça ainda latejando um pouco. — Cala a boca, i****a — disse Isaac, acompanhando-o sorrindo. — Você é mesmo um babaca, sabia? Sabia. — O que eu sei é que minha testa ainda está doendo por sua causa. Cuzão. Ambos sorrindo, abafando um riso de verdade. Aproximaram-se sem perder o contato visual um com o outro, e de repente Isaac ficou um pouco mais sério novamente. — Você sabe o quanto eu gosto dele. Desde muito tempo. Então não se mete com o Nathan, Ítalo. Você entendeu? Ítalo o olhou por um tempo, e o brilho esmaecido no olhar de Isaac era como uma sentença, como uma certeza. Um brilho que talvez Isaac visse rotineiramente quando olhava para ele próprio. Ítalo o puxou para um abraço que não tinha como ser evitado, e abalroou Isaac contra si, afundando o rosto dele na curva do seu pescoço e descansando seu maxilar no topo da cabeça dele. Entendeu. •     •     • Isso sucedera, para a infelicidade de Nathan, quando todos já estavam dispensados. Ele, Gabriel, Heloisa e Bernardo foram quase os últimos a deixar a sala, estando eles envoltos em "nossa, mas será que minha impostação não ficou muito palestrante, não?" e em "não, não, eu adorei! Deu um ar magnânimo ao personagem". Ao observar Isaac e Ítalo, no corredor, rodeados por aquela pilha de gente agitada, abraçando-se no que parecia ser um lindo e ao mesmo tempo brutal momento fraternal, Nathan gelou. Pausou seu raciocínio sobre o que quer que estivesse falando de Brecht tão abruptamente que seu queixo quase literalmente caiu. Querendo agora sair daquela escola mais rapidamente do que antes, ele se lembrou do bilhete, e pifou. Processando... Processando... Mas já era tarde demais. Ítalo, com um olhar rasteiro, já identificava-o por sobre o topo da cabeça de Isaac, e agora sua expressão dizia algo como vamos. Nesse mesmo instante, Ítalo se desgarrou do irmão com um sorriso de lado, para confortá-lo minimamente, pois tinha outras coisas a fazer. Foi só o tempo de ver brotar em si mesmo o sentimento de precisar fazer algo a respeito. — Nos encontramos em casa, tudo bem? — Você não vai pra casa agora? — Tenho que resolver umas coisas do time. — Hum. Tá. Tá bem. — Isaac deu um soco zombeteiro no braço de Ítalo e saiu em disparada, antes que Ítalo pudesse revidar. Ítalo impôs um olhar severo a Nathanael, que, do outro lado do corredor, já fazia dissimular para se livrar dos amigos. Em relação ao Gabriel, Nathan nem precisava dar muitas explicações, embora os dois tivessem uma rotina quase que de casados. E, embora Gabriel quisesse que Nathan o acompanhasse até em casa, como sempre, ele não iria insistir. Se Nathan disse que tinha que fazer uma coisa, é porque Nathan tinha que fazer uma coisa. Mas, por também estarem lá Heloisa e Bernardo, Nathan teve que improvisar um tantinho, sim.  — É que eu vou pegar meu figurino. Para... lavar, sabe. — A gente te espera. — Eu prefiro que não. Acho também que vou falar com o professor, rapidinho, sobre minha interpretação; acho que estou sem muita movimentação, sabe... — Nathan, a gente te espera — disse Heloisa, rindo. — É, e já te falamos sobre isso! É só você jogar mais com o... — Gente, eu já disse! Podem ir. Tenho que fazer isso sozinho! Heloisa e Bernardo se entreolharam, algo entre o sem-graça e o risonho, e o olhar uno deles vagou até Gabriel, que os recebia parecendo dizer “viu só o que eu tenho que aturar, às vezes?” com a expressão falsamente contida. — Ó, então tá, mas depois manda mensagem! Quem sabe a gente joga um pouco — Bernardo disse. Nathan assentiu. Heloisa também. Gabriel jogou os ombros. Pois então os três se foram, deixando em Nathan apenas os abraços. E lá se foi Nathan, caminhando rumo ao seu desastre particular.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR