Uma das maravilhas de Gabriel era a de ele não ser um pé no saco — responderia Nathan a quem quer que perguntasse. Isso porque Gabriel sabia ser atencioso e meigo quando necessário, assim como sabia ler o ambiente para perceber que sua presença não mais está sendo solicitada. E também, Gabriel não é como um namorado possessivo; se você diz “Gabriel, fica”, ele fica; se disser “Gabriel, não quero falar sobre isso agora”, ele muda de assunto. E pronto! É só você pôr ração na vasilha duas vezes por dia, agradá-lo com um “bom garoto”, e ele vai já abanando o rabinho, genuinamente incorporando só as qualidades de um bom amigo.
Graças a isso, Nathan não teve que dar muitas mais explicações a ele sobre o porquê de estar até há pouco cercado por Ítalo e Isaac. Falando com ele. E o amigo respondeu à inquisição com simplicidade:
— Eles queriam assistir ao ensaio. Eu disse que não poderiam. O tal do Isaac — Nathan dissimulou desconhecê-lo, usando sua melhor voz de “ah, é mesmo? puts, eu nem tinha reparado…” — queria até entrar no clube só para ter desculpa passar assistir ao ensaio. Acredita? Fazer o prof. já separar papéis para eles também na peça, arrumar mais figurinos... E tudo isso só porque aqueles dois queriam implicar um pouco. Dá pra acreditar? — E então Nathan fez uma cara ofendidíssima. Tanto que virou-se, encaminhando para o refeitório que agora deveria estar vazio, à cata de um saquinho de salgadinhos que ajudasse a matar o tempo na próxima aula. E Gabriel não teve, ou nem poderia ter mesmo, chance de retrucá-lo ou querer mais informações sobre o assunto. Acabou-se ali, e ele sabia.
Foi mais ou menos assim também no episódio em que Ítalo pegou Gabriel pelo casaco que nem uma boneca de pano: Nathan deu uma desculpinha tão esfarrapada sobre o que Ítalo queria e o porquê de aquela agressividade toda... que nem o maior dos cornos mansos acreditaria. Por sorte, Gabriel era um corno manso bem particular, e sim, ele acreditou naquela lorota m*l contada que Nathan havia inventado na hora. Tão m*l contada que Nathan sequer lembrava-se do que havia dito nela, agora.
Por essas e outras, Nathan lembrou-se que amava Gabriel. Lembrou que Gabriel era um bom amigo, mas que também o beijava muito bem. Lembrou, paralelamente, que seu primeiro beijo foi com ele, e que por isso eram inseparáveis, e que, embora fossem só amigos, estando ambos praticamente de acordo quanto isso, Nathan sempre quis saber como seria ter algo além com Gabriel, pois se apaixonar por Gabriel era ter a certeza de não ser emocionalmente ferido, ainda que não seja recíproco; pois Gabriel era gentil demais, atencioso em demasia, e até o discurso dele de “infelizmente não sinto o mesmo” deveria passar certa alegria a quem ouvisse. Nathan lembrou que já foi apaixonado por Gabriel, sim. Mas lembrou também que não era como se pudesse afirmar com certeza que já não era mais, ou como se tivesse a certeza de que não sobrara qualquer vestígio dessa época de amor platônico, de friendzone.
Eles passaram pelo refeitório, pela moça da cantina que lhes entregou dois pacotes de Ruffles e duas latas de Coca-Cola, e encaminharam-se exauridos até a sala de aula. Os demais alunos que ficaram pro ensaio ou já tinham ido, ou estavam com o professor, tecendo comentários sobre a última peça que fizeram: A Nova Brisa, uma adaptação teatro-musical meio porca (porém menos racista) de E o vento levou.
Enquanto os dois passavam pelo corredor, Gabriel expressou simplesmente:
— Aquele cara de cu!... — À primeira vista, Nathan não havia entendido. E olhou para Gabriel justamente com essa cara. Somente após reparar nos lábios comprimidos do amigo foi que ele supôs se tratar de Ítalo. Gabriel, o Bielzinho, era muito fofo e cordial, mas também sabia guardar rancor. — Não acredito que vamos ter que olhar para aquela cara de cu dele por mais umas duas horas.
No sarcasmo de quem tenta desconversar um assunto espinhoso, Nathan notificou-lhe que:
— É melhor ter cara um de cu do que cu de um cara.
MEDEIROS, Nathan. Filosofia política contemporânea. 2. ed. Winter: Editora Poesias Poéticas , 2018.
E a piada-para-desconversar funcionou. Gabriel riu dela primeiro, e Nathan o seguiu quase de imediato, estando ele escandalosamente contagiado. E o que eram risos virou gargalhadas, que desaguaram em algumas lágrimas divertidas, com Nathan e Gabriel usando um ao outro de muleta, e vez ou outra se escorando na parede e nos armários para conseguir maior apoio. Eles pararam a uns 10 passos da sala, tentaram continuar rindo baixinho ali mesmo — m*l o conseguindo fazer —, e só decidiram entrar na sala quando tiveram certeza de que não iriam ter outra crise de riso no meio da turma.
Adentraram, pois, ambos, bem de fininho, para não gerar problemas. Bernardo e Heloisa já estavam lá em seus lugares, copiando. Nathan e Gabriel foram tomar seus assentos enquanto o professor escrevia no quadro algo sobre Aristóteles.
Assim se seguiu por pelo menos uns cinco minutos, com Nathan ouvindo Ben E. King nos fones, sem vontade de transcrever sequer uma vírgula. Graças a isso, ele pôde ver facilmente, de canto de olho, que Ítalo rabiscava algo num papelzinho, não muito longe de onde Nathan estava sentado. Mas o ignorou. Ignorou-o até o professor terminar de escrever na primeira parte do quadro, pois parecia que o slide estava com problemas naquele dia, e foi nesse momento que Nathan sentiu alguém o tocando, deixando em sua mesa um bilhete. Talvez para enviar que Nathan printasse.
E o bilhete, escrito em letra de fôrma, dizia:
Apareça no vestiário assim que a aula acabar. Não demore. E sozinho. Se levar o seu amiguinho cabelo de fogo, eu enfio um taco inteiro no r**o dele e te obrigo a assistir. E se você não aparecer...
...
É melhor parecer.
Ah, tá... entendi... uhum... claro, pedindo assim, com jeitinho...