... e quem não acha, procura.
Logo que chegou em casa, Isaac foi logo para o quarto, subindo as escadas como quem sente o chão em brasa aos seus pés. Ele ainda estava aturdido por aquele beijo que Ítalo já cansara sorrindo de ouvir durante todo o caminho de carro; e por isso Isaac precisava mandar aquela mensagem ansiosa a Nathan, o qual ele veio repetindo mentalmente, para não esquecer.
Estando a mensagem enviada, Isaac se pôs a girar a cabeça para cima e sorrir para o teto. Ficou assim por um tempo, até Ítalo se esgueirar na ombreira da porta, vendo o peito dele subir e descer sobre a cama.
— Banho — pontuou simplesmente.
Isaac sentou-se dobrando as pernas, notando-o ali.
— Você viu como ele me beijou?
Ítalo sorriu.
— É, eu vi. Ele parece mesmo gostar de você, né?
— E eu gosto muito dele. Muito. Ele não é incrível?
O olhar de Ítalo vagou por um instante, ainda que Isaac não tivesse percebido: uma sombra, talvez, tremeluzindo seu foco, seu semblante convicto. Talvez fosse algo r**m, o que estava fazendo, mas estava sendo bom para Isaac, agora; e isso bastava.
— Incrível. Sim, incrível.
— Mas acho que não tivemos muito papo. Ele parecia ansioso, tanto que ficava com o olhar meio vago, sabe?, brincando com o anel preferido dele. O mais chamativo, sabe? — Isaac descruzou as pernas, voltando a se deitar; o teto era seu amigo, e meio que o quarto Monteiro era sim uma sala de terapia. — E ele não gosta de livros. Nem que toquem no cabelo ou na bochecha dele. Nem de Star Wars.
— Mas todo o mundo gosta de Star Wars! É o Harry Potter da p***a da ficção científica! — Agora Ítalo se aproximava do irmão, separando uma mecha de cabelo da testa e bochechas, que tingiam a cor vermelho-ansiedade. — Aposto que ele tem outras paradas. Você só precisa saber quais são.
— É. Acho que sim. Eu quero que ele goste de mim, Itah. Eu quero mesmo.
— Eu sei — sibilou, sorrindo. — Ele seria um — cara morto — i****a, se não gostasse. — Dito isto, Ítalo puxou dois dedos dos fios de Isaac, numa gentileza macia, e decidiu pô-los atrás a orelha do irmão. Isaac sorriu, amando ter quem cuidasse dele, como um irmão mais velho daqueles. Alguém que nunca o machucaria.. Alguém como um pai que ele nunca havia tido, talvez.
E então Ítalo buscou outro punhado de cabelo e o esfregou com força no couro cabeludo de Isaac, de supetão, fazendo-o erguer um punho raivoso, acertando Ítalo no ombro, com a intenção de fazê-lo bem na cara do i*****l.
— Eu falei banho. Agora. — Viu? Até como um pai o Ítalo agia.
Ítalo o soltou. Suprimindo o biquinho e a vontade de coçar a cabeça, para ver se doeria menos desse jeito, Isaac ergueu o tronco, ouvindo alguns estalos de advertência por parte da sua coluna. Ele pulou da cama com ímpeto, caminhou até o banheiro; e, no descaso de quem vai escovar os dentes, porque era isso mesmo, Ítalo o seguiu. Já no banheiro, frente ao box, com um Ítalo perto da pia e cheio de espuma na boca, Isaac começou a tirar seu cordão, sua camiseta, sua bermuda e também sua...
— Você vai ficar olhando mesmo, seu esquisito? — ele provocou, rindo.
Ítalo só o encarou pelo reflexo no espelho. Escovou os dentes por mais quatro segundos antes de cuspir aquela gororoba de saliva e pasta dental na pia. Lavou a boca e a escova, e então se secou. Ergueu o punho como quem ameaçava Isaac: olha que eu puxo seu cabelo de novo, hein, aquele punho dizia.
— Era eu quem dava banho em você, e não faz muito tempo assim, seu merda. Deixa de ser viadinho e anda logo com isso.
Isaac riu do jeito como ele pronunciava as palavras, e em seguida entrou no box com portas-de-correr quase transparentes, ligando o chuveiro e virando-se, apertando ali, para que Ítalo visse bem, então.
— Você é tão babaca, velho...
— E é por isso que temos o mesmo sangue, seu boçal! — gritou Isaac, jogando água fria por cima do box para molhá-lo. Sorrindo com infantilidade.
Ítalo saiu de perto, esquivando-se das gotículas, batendo a porta do banheiro ao se refugiar, enquanto xingava Isaac.
Minutos depois, enquanto lia, Ítalo ouviu uma correria pelo corredor. Ficou curioso quando a correria pareceu se aproximar dele. No cruzamento, esgueirando-se na porta do quarto, Isaac interjeicionou uma verdade absoluta que, para meros mortais com Ítalo, não seria muito apreciada:
— Teatro!! — O irmão mais velho o encarou, na confusão de quem não consegue compreender; como quem ouve pela primeira vez o termo uretetrices gonococócis. — Teatro! — Isaac reafirmou.
Mas Ítalo só iria entender o que essa palavra significava no dia seguinte, quando Isaac disse que ele não precisava se preocupar em levá-lo mais Nathan a lugar algum; pois Isaac tinha uma nova ideia para se conhecerem melhor; que Ítalo só iria entender quando, nesse mesmo dia, perguntasse se Isaac queria comer na mesa dos atletas, com ele e com os caras do time, e quando ele recebesse não como resposta; e o visse ir em direção ao auditório, e quando Isaac mais tarde lhe dissesse que havia pedido para o professor do clube do teatro deixá-lo assistir a um ensaio. Um ensaio do Nathan — mas Isaac não havia explicitado isso ao professor, é claro.
Pois, como que Isaac não pensara nisso antes? Não se pode amar alguém ignorando aquilo que o seu amor ama. Naquela noite particularmente mais empolgante agora, Isaac seguiria a conclusão de André Aciman, a verdade de Elio sobre Oliver, em “Me chame pelo seu nome”: “O verão em que aprendi a amar pescar. Porque ele amava. A amar correr. Porque ele amava”.
Portanto, debruçou-se sobre sites dos mais vários — partindo sempre do Wikipédia —; examinou alguns artigos, pulando certos parágrafos, mas jurando ter lido o suficiente deles para dizer que leu aquele troço de drama contemporâneo; assistiu a uns vídeos explicativos e representativos; e Isaac até chegou a ler as primeiras e últimas cenas (para saber o começo e o final, que é o que importa, não?) de determinadas peças, também. Pegou referência de atores, teóricos, dramaturgos, cenógrafos... de Ziembinski a Cacilda Becker; de Augusto Boal a Jerzy Grotowski; de Constantin Stanislavski a Molière. E também os primórdios do teatro: leu brevemente sobre Téspis de Ática, sobre os tipos de palco (italiano, arena, semiarena, tablado, itinerante...), o dos gregos, dos romanos, dos ingleses, franceses... Leu sobre ópera!, e também sobre comédia de costumes, e teatro do absurdo, e tragédia grega, e teatro da crueldade, e teatro épico, e farsa...
Ao cabo de duas horas, mais ou menos, Isaac já sentia que poderia ir só na UniRio naquele instante mesmo, e fazer uma palestrinha para aquela bancada de primas-donas do c*****o e dizer: “pois então, aonde eu tenho que passar mesmo pra pegar o meu diploma em Artes Cênicas, hein?”
Nessas tais horas que perdeu de sua vida — na cabeça dele, “que ganhou” seria o verbo mais correto —, lembrou-se das duas peças que ajudou a realizar. Uma, no quinto ano; outra, no sétimo. Hum... ele até se lembrava mais ou menos de algumas falas de Romeu e Julieta. Só que ele não havia sido Romeu, é claro — uma injustiça dramática dolorosa. Em vez disso, representou Mercúrio, o melhor amigo de Romeu — o que foi bom! Que personagem! “Deixe de histórias. Se houvesse dois de você, daí a pouco não ia haver mais nenhum, porque um matava o outro. Ora, você briga com qualquer um que tenha um fio de barba a mais ou a menos que você.”
Uau, Isaac poderia ser um ator, se quisesse! Era só ele montar mais uma peça, pois aí seriam três, e... prontinho! Eureka! Supimpa! Hurra! C'est ici! Vive le théâtre, p***a!
— Ei, já está tarde! — resmungou um Ítalo sonâmbulo. — Desliga isso e vai dormir, i****a.
Cortejando a própria satisfação, Isaac fechou o notebook e guardou-o juntamente dos fones, em cima da cabeceira próxima. E dormiu tranquilamente; uma nota mental adicionada.
Já no dia seguinte, lá estava ele, adentrando o auditório meramente adaptado para "teatro" como quem vê um fenômeno fantástico e ainda sim se mostra plácido, cético, sabendo exatamente o que é, como ocorre e por quê, enquanto uma plateia de ignorantes se choca e ovaciona.
Sentou-se, pois, na fileira do meio, na poltrona do meio, porque, segundo o que um cenógrafo disse num dos vídeos que Isaac assistiu, esse era um dos lugares mais estratégicos para se acomodar em um teatro. E lá ficou, esperando os alunos chegarem, juntamente do professor de teatro, que testava a aparelhagem toda no palco.
Pois se passou um bom tempo até Nathan ligar os pontos. Subindo no que achava chique chamar de “espaço cênico”, ele conversou com o Heloisa e Bernardo sobre algumas técnicas corporais por uns 10 minutos antes de perceber que havia alguém numa daquelas já íntimas poltronas, alguém que mexia no celular com uma frequência já padronizada, e que vez ou outra espiava aquele falatório todo em cima do proscênio com curiosidade. Alguém que olhava diretamente para Nathan, nos sutis momentos em que verificava se o tablado ainda estava ali. E isso o fez se sentir na obrigação de ir até o tal alguém, percebendo que o contrário não aconteceria. Aproximou-se sorrindo — já que nem a penumbra conseguia disfarçar aquele cabelo moreno espetado —, querendo ser simpaticíssimo — e isso já era parte do ensaio —, dizendo:
— Oi, Isah! — Nathan se adiantou.
Abraços (d)e (des)culpa — uma coisa sendo consequência da outra —; e Isaac se ergueu com um sorriso, a responder "Oi, Nathan" para ele. Aí veio a troca de meias palavras sobre o ontem deles, sobre como estavam, sobre a Brie Larson e sua interpretação no — um quinto do que Nathan assistiu do — filme... E, assim, Nathan pensou que ele já estava de saída, que havia estado lá só para fazer uma visita. Contudo, entretanto, todavia, assistiu a Isaac se sentar novamente.
— Vou ficar para o seu ensaio. Demais, né?
Nathanael ponderou.
— Mas, hoje, meu ensaio vai além do intervalo. Eu tenho licença da diretoria, para ficar.
— Não tem problema. No próximo tempo a matéria só será revisada. Vou adorar ver você interpretando.
Embora não fosse um sorriso, aquilo no rosto de Isaac, Nathan pôde interpretar que os olhos dele escondiam um. Talvez de satisfação, ou talvez um que esbanjasse sua sagacidade. Talvez sua típica ingenuidade. Mas Nathan não gostou, de toda forma. Buscou ao redor algum objeto cênico, para improvisar, ou talvez algum recurso cenográfico... ou... ah-rá!
Uma parceira de cena.
— O professor não costuma deixar pessoas de fora assistirem a ensaios. Não é, Heloisa?
— Hum? — resmungou a coitada, que se aproximara havia pouco tempo, mais por acaso do que por curiosidade, e que agora estava sendo solicitada para o primeiro exercício de aquecimento antes do ensaio: improviso! Mais especificamente, o improviso-concorde-com-o-que-quer-que-eu-esteja-falando-logo-c*****o. Um jogo muito benéfico para aquecer as pregas vocais, entende. Qual Nathan teve que encará-la ansiosamente para que Heloisa percebesse que ela já estava jogando. — Ah! Uhum, uhum! Super.
— Isso é verdade... — comentou Isaac, carismático, recordando do quanto precisou ser insistente, além de carismático, para poder estar ali.
— Então... muito bom você ter vindo, nos vemos mais tarde, que tal?
— ... A não ser quando essas pessoas de fora estão interessadas em se inscrever no clube também.
Pronto. Foi bem aí... porque, ah, isso... isso sim era a gota d'água.
Me obrigar a ver uma droga de filme de super-heróis, que eu nem gosto? Show. Tocar no meu cabelo? Aargh, tá. Me beijar? Lacrou, bicha. Apertar a minha b***a quando eu deixei explicitamente verbalizado que nem sequer queria o sequer beijo??? Quem nunca! Tudo bem! Enfia logo o braço no meu r**o e me chame de Uzu, O Fantoche Ranzinza... Mas... agora... e, escute bem... invadir a p***a do MEU lance com tamanha presunção, com essa cara de convencido, só pra me monitorar ou sei lá o quê... Ah...
Nem que Isaac fosse a p***a da Viola Davis.
Nathanael compreendera desde bem cedo que uma mentira gentil é melhor que uma verdade nada cordial. Aprendeu a dizer sim com tom de talvez para ocultar o não. Quando o assunto é agradar, virtude é quando sua convicções sólidas e condutoras passam a ser palavras líquidas que escorrem de pensamentos em ebulição para desaguar na sua boca agora sempre tão cheia de mesuras, agradável e amabilíssima que você poderia ganhar um beijo-grego até do prefeito, se assim desejasse. O que isso tudo quer dizer é o seguinte: se você pensa muito, fale pouco e demonstre menos ainda. E lembre que: ser subjetivo é ser aberto a interpretações. E ser aberto a interpretações significa ganhar mais gente, porque cada um interpreta o que quer que seja do jeito que melhor lhe convir.
Pois aí está: cortesia-e-experiência-de-quem-faz-teatro-monólogo-interno.pdf (1). Enviado com sucesso.
Mas acontece que, se você é muito conveniente para os outros, os outros passam a ser inconvenientes para você. Pois, recorrendo à verdade intrínseca dos ditos populares, se você dá a mão, vão também querer o braço, pode ter certeza disso.
Isaac já tinha o corpo de Nathan. E agora parecia querer a mente também.
— E por que você faria uma coisa dessas? — questionou Nathan; a ironia afiando sua língua como uma pedra de amolar.
— Porque — Isaac foi dizendo, e até se levantou para isso; para dramatizar — eu quero ser ator também! Isso, se quase já não sou!
“Isso, se quase já não sou!”
Ah, gente...
Gente...
G
E
N
T
E
!!!
— Ah, é? Uaaauuu. E, me diga: qual foi a dialética ilustre e pós-socrática que te fez chegar a essa brilhante, irreverente e sublime c*****o de conclusão??
Heloisa foi se afastando sorrateiramente. Fechem as cortinas, rapazes; acabou o primeiro ato. Aí vem o segundo, e a minha personagem não está em cena.
— Ah, sabe. Não é tãaao difícil. Entende?
— Oh. É mesmo?
— Até que não. Eu fiz duas peças escolares e... é, foi bem de boa.
— Oh.
— E eu estudei, sabe. Ganhei umas três horas ontem, só estudando teatro. — Ei, nananinanão, seu mentirosozinho. Foram só duas horas. Esqueceu? — E, ei, você sabe por que “desejam merda” para os atores antes de começar o espetáculo?
Era uma pergunta retórica, daquelas que supostamente gera a curiosidade para mostrar os próprios dotes intelectuais. É, mas Nathan não estava curioso, e tampouco achava que Isaac tinha qualquer dote intelectual.
— É claro que eu sei. — É claro que ele sabia. Ele era um ator de verdade, ou pelo menos um aspirante a ator, mas mesmo assim, também de verdade, e as provas disso não se limitavam a uma pesquisa mequetrefe de algumas horinhas no Wikipédia.
— É porque — Isaac foi dizendo, não tendo prestado atenção em Nathan —, antigamente, quando ainda não existia automóveis, os espetáculos eram frequentados através de charretes, que ora só passavam pela rua do teatro, ora ficavam estacionadas ali mesmo. E charrete eram puxadas por cavalos, óbvio. E cavalos não sabem pedir “com licença, por favor, onde se encontra o lavabo?”, então, se a rua tivesse bastante rastro de coco de cavalo, ou seja, merda, isso queria dizer que o teatro estaria lotado. Legal, não é?
Nathan não estava com uma cara de “ah, sim, muito legal, cara!”. Ele o estava encarando, na verdade, como quem remoía um assunto espinhoso.
— Oh, oh, oh. Deixa eu ver se entendi. Então, só porque você decorou uma musiquinha alegre de “Vejam o menino Jesus / Que linda, a sua luz / Padeceu por nós na cruz”, e porque perdeu três horinhas da sua vida estudando sobre o teatro na p***a do Brainly — ei, pessoa! Foram duas horas! Duas!! —, por conta disso você acha que é a p***a do Gil Vicente! A p***a do Samuel Beckett!
Nathan já estava quase, quase mesmo, bufando. Ele estava na verdade aguardando a fala do seu mais novo parceiro de cena, que antes era plateia. Quanto aos atores, no palco, agora eles quem eram o novo público. Um público entediado e desatento, é verdade. Mas, ah! a magia do teatro...
De drama à tragédia em segundos. Por favor, não esqueçam de manter os celulares desligados. E, em caso de incêndio, não corra; siga os protocolos de emergência. Obrigado!
— Eu li peças — argumentou Isaac, menos confiante agora. Tentando decifrar a expressão de Nathan. — Vi vídeos. E assisto séries desde sempre, sabia? Nossa, tô vendo uma ótima atualmente. Percebo certinho os movimentos faciais, e quando parece que o ator ou a atriz se desconcentra e...
— Isaac, eu juro por Deus que...
— Ei, Nathan?! Vem aquecer logo! — Bernardo exclamou do palco, testando sua projeção vocal.
— Espera aí! — respondeu o loiro, sequer se virando. — Isaac, olha só. E daí que você viu séries? Por ser consumidor de algo, acha que sabe algo? Eu respiro O2. Sou formado em Química por isso? Acha que por ter passado com a b***a no computador por um tempinho acha que sabe tudo do assunto? Nós passamos tempo integral nessa maldita escola de segunda a sexta. Sendo assim, pelas minhas contas, eu já deveria estar formado, no mínimo, numas 25 profissões diferentes! E tanto faz suas peças de escola! Que se f**a! Eu já ajudei meu priminho com uma crise de asma, e daí? Vi no YouTube uma técnica para ajudar um bebê que está engasgado. E, olha, p**a que me pariu, se isso faz de mim a p***a de um pediatra, c*****o, viu, mas c*****o, o que eu estou fazendo aqui ainda!...
Visto a crescente ironia do destino, que sabe ser célere quando lhe apetece, Ítalo foi escoando a sua presença pela entrada do pseudo-teatro. Enquanto a porta rangia ao se fechar, o burburinho lá do corredor foi diminuindo periodicamente, como alguém que gira o botão de volume.
Nathan não percebeu exatamente em que momento Ítalo havia chegado, porque o sangue fervoroso que circulava em sua cabeça fazia latejar seus tímpanos, ensurdecendo-o. Entretanto, com certeza havia sido antes “mas que c*****o” e, com sorte, não depois do “que se f**a”. Mas, ainda que não tivesse ouvido uma palavra, a expressão de Nathan e a reação de Isaac era um roteiro por si só.
O mais velho foi se aproximando a passos cautelosos e firmes, brincando de ser intimidador — pois o fazia bem. Achegou-se junto aos dois com um sorriso. Serpenteou o braço acima dos ombros de Isaac beijando o topo da sua cabeça.
— Tudo bem?
— T-tudo. Oi — falou um Nathan com os olhos baixos e, oowwnn, que gracinha, vejam só! bem mais calminho agora.
— Não perguntei a você. Falei com o Isaac. — E olhou para o lado, esperando uma resposta do irmão. Conferindo.
— Tudo bem, Itah. — Mas Isaac ainda fitava Nathan. Percebendo algo. — Pensei que estivesse almoçando o restante do time — comentou surpreso.
— Estava. Vim ver o ensaio. Ainda não começou?
Nathan pensou em falar “ainda não, mas já, já vai começar, mas pessoas de fora não podem assist-”, porém ficou em dúvida se Ítalo daria um soco na boca dele com ou sem Isaac ali presente, com ou sem os amigos dele assistindo a tudo no palco, pelo simples fato de respondê-lo quando não solicitado. Por isso engoliu o questionamento com o resto de saliva seca que acumulava na boca, e voltou a encarar o chão, brincando com seu anel por entre os dedos, enquanto os Monteiro trocavam mais informações supérfluas.
— Ei, Nathan — disse Isaac.
— Hum? Desculpa.
— Eu disse oi — complementou Ítalo.
Ah, porque agora ele queria cumprimentos de Nathan...
— Oi...
Foi aí que Isaac descobriu algo. Uma verdade platônica, uma conclusão incrivelmente astuta. Isaac, nesse momento, era o cara que popularizou o “Eureka!” ao sair pelado do banho pelas vielas do reino, doido para contar à Majestade a sua mais nova descoberta.
— Você... Vocês — disse Isaac. Tão, tão dramaticamente que poderia de fato ser mesmo um ator.
Ítalo encarou Nathan, perguntando se ele havia entendido alguma coisa. Não, não. Diga-se: acusando Nathan de ter feito ou de ter deixado claro alguma coisa.
— Você por acaso está gostando do meu irmão, Nathan?
E isso é tudo, pe-pe pe-pessoal! Fiquem ligadinhos para as cenas dos próximos capítulos, nesse mesmo horário, nesse mesmo canal. Obrigado pela audiência, e bom fim de semana a todos!
— Do que você está falando! É claro que... O quê! É claro que não! — Os olhos de Nathan se arregalaram que nem um passivo numa orgia com o restante só de ativos.
— Quando Ítalo chegou, você olhou diferente. Falou diferente.
— Ah... foi? — dissimulou Nathan.
Ítalo queria socar a cara dele agora mesmo. Naquele maldito instante. Mas não o fez: limitou-se a enrijecer a mandíbula até doer! Encarando-o de um jeito que, bem, desmentiu a teoria de Nathan: talvez, realmente, Ítalo até não lhe quebrasse os dentes agora, mas... e depois?
Nathan se sentiu ladeado pelo perigoso, aromatizado com a fragrância do temor, mas, principalmente, comovido por uma certa satisfação, ao imaginar a possibilidade de o feitiço de Ítalo voltar-se contra o feiticeiro. Pois, aí estava a sua escapatória, o tiro pela culatra: se Nathan não podia fazer Ítalo ou Isaac desistirem dele, seria ótimo se Isaac não quisesse ficar mais com Nathan porque tinha certeza que ele gostava do irmão mais velho dele. E, de quebra, se Nathan tivesse sorte, ainda teria o gostinho de ter abalado aquela doentia relação superprotetora dos dois.
Tentou se conter para não deixar um sorriso vazar.
Quem procura, acha.
— Nathzinhuuuu! — Ouviu-se da entrada do auditório.
Salvo pelo gongo.
Um Gabriel quase saltitante vinha em sua direção, tão empolgado que não soube ler o clima entre os três ali. E nem queria. Percebendo que se tratava de Ítalo, o mesmo Ítalo que se metera na conversa dele com o Nathan há não muito tempo sem ao menos pedir licença, Gabriel então intrometeu-se do mesmo jeito, direcionando sua atenção exclusivamente o Nathzinhuuu acuado. Mas ele não percebe isso também.
— Oi! — disse, dando-lhe um selinho de dois segundos na boca, que Ítalo estranhou. — Olha o que eu fiz pra você!
E lhe apresentou o seu mais novo presente caseiro, uma pulseira, pingente, vá saber que p***a era aquela. O lance é que se tratava de um monte de coisas não identificáveis à primeira vista. Porém, olhos mais atentos notariam algo como glitter e penugem falsa, e umas certas pedrinhas e detalhes coloridos.
Com isso, Isaac se foi. Recolheu a mochila, jogando-a sem jeito no ombro, e se enveredou na penumbra do ambiente. Ouviu-se apenas passos sem corpo antes de a porta abrir, iluminando um tchau não dito.
Ítalo, que deu uma última boa olhadela para Nathan, foi caminhando, chamando por um Isaac que já nem mais o escutava agora.
Durante isso tudo, Gabriel — lembra? o cara que estava pouco se fodendo pra Ítalo num nível que impedia de perceber a treta implícita ali acontecendo — balançou por mais uma vez o seu presente no rosto de Nathan. E, de repente, pois o garoto estava muito feliz, aquela pulseira ou sei lá o que ficara ainda mais bonita e menos ridícula aos seus olhos.
— Oohh Nathan!
Nathan viu o quanto Gabriel estava orgulhoso com aquela coisa, como se fosse feita com todo o afeto que ele aprendeu a desenvolver ao longo dos anos, mesmo.
— Gaaaa! Oh... Que lindo!! — E, de fato, era lindo à mente que gosta de agradar o Nathan. Algo como um lindo-brega, um lindo catarrinho de pedrinhas coloridas. Mas a questão não era essa. A questão é que Ítalo estava olhando; ele havia parado seu trajeto para olhar — Nathan percebeu de esguelha. De repente, aquela pulseira aparentemente feita por uma criança do quarto ano tornara-se pingente banhado em ouro, de uma joalheria que Nathan nem sequer conseguiria pronunciar o nome, de tão chique. E Gabriel ficara mais lindo junto. — Lindo demais... — sussurrou Nathan, apertando o presente no punho; e logo o serpenteou o braço ao redor da cintura do amigo, fazendo com que Gabriel agora se empinasse para se acomodar nos peitoral de Nathan, que lhe beijava agora com uma lentidão e lascívia que faziam não mais se tratar de uma bitoquinha fraternal.
Ao contrário do selinho, agora Nathan prendia os lábios de Gabriel com os seus; sem movimentos muito grandiosos, é verdade, e sem língua; mas com agilidade o suficiente para sentir o gosto de Halls de cereja na boca Gabriel, e tê-lo adorado. Sua pele num delicioso atrito com as bochechas ainda mais quentinhas de Gabriel, talvez por vergonha, talvez por surpresa ou calor; e a respiração dos dois se entrecortando como quem divide o mesmo corpo para sobreviver.
— O que foi isso? — perguntou Gabriel ao se separarem, encostando a testa na de Nathan. Sorrindo envergonhado por haver plateia.
— Foi o meu jeito de agradecer. Achei lindo.
E tratou de pôr o presente ali mesmo, para que Gabriel visse e ficasse feliz. E funcionou. Agora havia dois viadinhos felizes, olha só, que gracinha.
— Ei, vamos começar! Nathan. Gabriel.
— Okay!! — Gabriel se adiantou dizendo. E agora sim ele literalmente saltitou até o palco.
Ao fundo da plateia, Ítalo, que freou sua tentativa de alcançar o irmão, para assistir à sua raiva borbulhar com a ceninha gran finale de Nathan, observou tudo com o maxilar trincado e com a visão contaminada pela provocação evidente. E, ao sair, fechou a porta do auditório com o punho comprimido. Ansioso.
Fim do segundo ato. Os atores saem de cena. Baixam-se os panos.