Thayla
Abandonar uma vida e deixar tudo para trás não é fácil. Dizer adeus aos amigos e aos vizinhos tão queridos que tínhamos, foi muito difícil para mim, mas foi preciso quando minha vozinha se foi.
Deixei para trás também o Adriano. Nós namorávamos há pouco mais de 01 ano. Não era um namoro quente ou fervoroso, mas ele era alguém que eu gostava e tínhamos uma cumplicidade muito boa. Nos despedimos prometendo continuarmos mantendo o contato e, quem sabe um dia, nos reencontrarmos.
Nossos vizinhos e amigos insistiram para que eu ficasse morando lá, dizendo que me ajudariam no que eu precisasse. Mas eu não queria ser um fardo para ninguém, afinal, eu queria estudar, me formar e ser alguém na vida.
Desde muito nova sonho em fazer faculdade e estudei muito para isso. Minha avó e eu, tínhamos planos futuros de nos mudarmos de Rio das Flores, onde morávamos. Mas não para vivermos na capital carioca e sim, em uma cidade próxima dali.
Eu vivi minha vida toda no mesmo lugar e amava tudo lá. Foi tudo tão de repente que fiquei sem chão. Nem sequer pude avisar ao meu irmão sobre o que aconteceu. Ele é muito revoltado com a vida e nunca estava em casa. Thierry vive pelo mundo e, de tempos em tempos, volta. Nunca sabemos se está bem ou não.
Também nunca tínhamos seu contato. Ele é assim, gosta de viver livre por aí. Mas eu o amo tanto e sei que ele me ama também. Espero que esteja bem, ele terá um choque muito grande quando voltar e não nos encontrar.
Não o julgo por ser assim, só ele e eu sabemos o que foi crescer sem nossos pais e, embora nossa avó tenha nos criado com muito amor, sempre faltou algo.
Nem por instante eu quis morar na cidade do Rio de Janeiro, principalmente na Penha, mas a única pessoa da família que restou, além do meu irmão, foi a Célia, irmã da minha avó que mora na comunidade. E eu tive que vir morar com ela.
Tia Célia é uma boa pessoa, me acolheu muito bem. Eu usei a boa nota que tive e consegui ingressar na faculdade de administração através de programas socais. E estou agora chegando na comunidade com os livros que precisei comprar parcelado em várias vezes com ajuda da tia Célia, e vejo alguém sendo agredido, apanhando muito.
Corro ao reconhecer e ver que, ali, todo machucado, estava o Thierry.
Depois de ter que explicar para aqueles marginais que ele é meu irmão, nós ficamos conversando.
— O que fizeram com você, Thierry?
— Já tomei porradas piores na vida!
— Como você me achou aqui?
— Fui pra casa e o vizinhos me deram o endereço que você deixou com eles. Thayla, me desculpa, eu queria ter te acompanhado nesse momento. Eu achei que ela teria mais tempo, aliás, a gente sempre acha! — ele me abraça — Mas foi f**a saber que você veio pra esse lugar!
— Como assim, achou que ela teria mais tempo? — pergunto e sinto que estamos sendo observados. É claro que estamos, esse lugar é cheio de homens armados até os dentes em todo canto.
— Ah, Thayla, eu sabia que ela tinha pouco tempo.
— E por que nunca me contou? Aliás, se sabia, por que não ficou junto com a gente?
— Eu só dava desgosto. Ficar lá machucando ela com esse meu jeito?
— Você não dava desgosto, coisa nenhuma!
— Para, Thayla! Eu tenho consciência de todas as merdas que já fiz.
— Esquece isso, não vai adiantar nada ficar remoendo os seus erros. Agora vem aqui! — puxo ele para mais um abraço.
— Ai! — ele reclama — Tá doendo, pô!
— Desculpa! Esses trogloditas te pegaram de jeito, que ódio!
— Em favelas as coisas funcionam assim mesmo! E eu só queria saber se você tá bem?
— Estou sim, mas como você sabe sobre coisas de favela?
— Esquece o que eu falei! Vou indo nessa porque esses caras não param de me olhar.
— Mas já? Tanto tempo sem te ver... você podia vir morar aqui, tia Célia fala com o dono e...
— NUNCA! Jamais eu colocaria meus pés aí dentro.
Olho para ele assustada com a raiva com que falou.
— O máximo que chego perto desse lugar é aqui, na entrada. E só vim porque eu precisava te ver!
Thierry sempre foi assim, fala coisas que nunca entendi, guarda tudo para ele e é um pouco agressivo.
— Tá bom, meu irmão, não quero brigar com você! Coloca seu número aqui. — entrego meu celular a ele — Não podemos ficar afastados nunca mais.
Ele colocou seu número e nos despedimos.
Quando estou subindo o morro, ali estavam os dois marginais. Aquele que agrediu meu irmão e o outro, que é um dos donos. Dois insuportáveis, muito diferentes das duas garotas que tentaram ajudar. Mas não pude deixar de observar que eles são muito bonitos.
***
Thierry
Eu sempre cresci com muito ódio dentro de mim.
Thayla e eu, tivemos muito amor da nossa avó, amor esse, que eu quase nunca soube retribuir como ela merecia.
Há quem diga que o que vivemos quando somos muito pequenos, não lembramos ao crescer. Mas eu trago na minha lembrança, alguns momentos da minha mãe sendo muito carinhosa comigo, e lembro do meu pai, que também me tratava muito bem.
Conforme o tempo foi passando, as lembranças ficaram cada vez mais vagas, e com a internet ao alcance de todos, passei a procurar por fotos da minha mãe. Eu queria ter qualquer coisa que me deixasse mais perto dela. Mas foi f**a porque eu descobri que ela já havia sido presa e foi assassinada de maneira c***l junto com meu pai, ou melhor, pelo homem que eu achava que fosse.
Nessa época, eu já era grande o suficiente e então questionei minha avó, ela acabou contando que no passado, minha mãe se envolveu com um grande traficante, que sofreu ameaças por causa dele e que havia uma possibilidade de que eu fosse filho desse traficante. Mas essa certeza, só minha mãe tinha, e isso foi com ela para o túmulo.
Eu cresci com muita raiva desse cara. Era culpa dele minha mãe ter morrido. Soube, inclusive, que ela foi presa junto com ele, na mesma casa em que estavam no momento.
Susana era o nome dela. Tão jovem, tão linda. Sempre olho as poucas fotos que tenho dela.
Ela perdeu a vida por culpa desse homem, que é dono de um império, tanto de dinheiro quanto de crimes.
Certa vez, Thayla escutou nossa avó e eu conversando sobre o que aconteceu. Mas ela é doce e tranquila, não tem lembrança alguma dos pais, era só um bebê quando tudo aconteceu, então não sofreu tanto, embora não ter a mãe junto, seja terrível para qualquer criança.
Eu cresci obcecado, querendo saber tudo sobre esse tal Carioca, e, assim, meu rancor por ele aumentava a cada dia.
Por que ele nunca quis saber de mim?
Por que me desprezar tanto pelo fato de ser um filho fora do casamento?
Que culpa eu tinha?
Por que ele nunca me procurou?
Os filhos oficiais dele tiveram tudo. Eu, o possível bastardo, não tive nada. Nem sequer a chance de ter minha mãe ao meu lado. E isso tudo é culpa dele.
E logo agora que eu tava tentando viver longe desses sentimentos que tanto me fazem m*l, a minha avó morreu e a Thayla veio morar justamente na favela desse Carioca, o meu suposto pai biológico.
O que a vida quer com isso?
O que a vida reserva pra gente?
Pra ver a Thayla, apanhei pra carälho na entrada do morro dele. Eu só queria ver minha irmã, e um deles que tava na minha frente, eu sei bem quem é. Ele é o filho do Carioca, possivelmente o meu irmão.