CAPÍTULO 04

1437 Palavras
G4 O caminhão de droga chegou ontem, faturamento é o mais alto dos últimos anos, assim como o Morro da Cascata tá faturando muito também, é só progresso. Meu tio Japah e a tia Dani moram no Cascata e, desde que ele assumiu lá, tudo mudou. O faturamento aumentou, a comunidade cresceu e a polícia não entra. Leco não quis ir, ele gosta daqui. Eu e ele amamos a Penha, conhecemos cada centímetro desse lugar, e agora que meu velho tá deixando tudo na minha mão, meu primo é meu braço. O moleque é sagaz, tem visão. Ele nasceu pro crime, mata sem dó. Hoje é noite de funk na rua principal da comunidade, começa na quadra de futebol e se estende pela viela. Começa mais tarde e vai até a manhã do dia seguinte. É evento menor do que os bailes fechados, mesmo assim, atrai os filhinhos de papai do asfalto e o lucro é garantido, tanto pra nós, quanto para alguns moradores. Muitos deles montam suas barraquinhas de bebidas, comidas e doces, todos lucram e assim ninguém sai insatisfeito. — Tava onde, carälho? Cheguei tem mó tempão já! — pergunto ao Leco que chegou muito tempo depois que eu no evento. Ele ri. — Resolvendo umas paradas aí! Mas cheguei mais cedo e tu não tava aqui, não. — Porrä, já tava comendo p*****a? — pergunto e ele abre os braços concordando. — Fazer o quê? As patricinhas gostam de sentar pro pai aqui. — Tu é fogo mesmo! Rimos. Mulher não falta, o fuzil atravessado no peito, é sinônimo de t***o pra elas. E nós? Não deixamos passar nada, quer dar? A gente cai pra dentro. Só não venha ficar no nosso pé. É uma fodä bem dada, tapa na b***a, gozär gostoso e só, nada além. Quer romance? Assiste um filme. Leco, mesmo sendo mais novo que eu, pega mulher demais. O moleque tá na atividade desde muito cedo. Minha mãe vive metendo esporro na gente por causa disso. Ela tirou meu pai da putariä e quer que eu seja igual a ele, mas tô fora. O seu Felipe arrasta um bonde pela dona Fernanda, só falta lamber o chão que ela pisa. Mas é maneiro ver meus coroas juntos, dizem que eles já passaram por muita treta até ficarem juntos e felizes. — E então, G4? Pensou naquilo que te falei? — Leco pergunta enquanto eu observo dona Célia montando a barraquinha de lanches dela. — Sobre...? — pergunto, sem ter ideia do que ele tá falando. Ele me olha levantando a sobrancelha, boladão. — Você fala tanta coisa que não sei sobre o que tá perguntando agora, Leco! — Meu ovo pra você, pega a visão! Aquela favela cresceu demais, já troquei ideia com meu coroa sobre isso. Como pode alguém estar no comando a tanto tempo e ninguém saber como é a cara do päu no c*? — Tá falando de qual favela? Complexo da Pedreira? — pergunto. — Claro, pô! Me diz aí G4, como pode alguém ter transformado aquilo lá e nunca ter sofrido invasão? Não é normal isso, não. — Tô ligado! — Quantas invasões já teve aqui, na VK e até no Cascata? Ham? — Várias! — Respondo, enquanto tiro o beck pronto do bolso. — É isso. Várias! Na última, até o Doca foi pra vala. Acendo, puxo pra mente. — Milícia! — falo. — Certeza que é! — Leco concorda. Solto a fumaça pro alto, passo o beck pra ele. — Esse dono da Pedreira, que ninguém sabe que rosto tem, só pode ser envolvido com milícia, tem as costas quentes. Por isso lá vivem em paz, sem invasão. Até meu coroa já comentou isso. — Pode crê! Mas essa de ficar em cima do muro é muito sinistro, não se envolvem em treta com farda, nem com facção nenhuma. O cara age sozinho. — Leco puxa a erva pra mente e me devolve. — Tu é muito ansioso, Leco, tem que agir na sagacidade. Mas com calma, primeiro a gente analisa e depois que descobrir o ponto fraco, agimos. — Dou mais uma tragada e olho pra dona Célia. Agora ela já tava com a barraquinha montada. Sinto alguém me olhar, era a loirinha, irmã do carinha que levou um sacode. Devolvo o olhar, ela abaixa a cabeça. Eu não tinha reparado muito, mas agora percebi que é bem gostosinha. *** Milena Antonela chegou de viagem e eu estava morrendo de saudades. Nós sempre fomos como unha e carne, então eu vou ficar o final de semana todo na casa dela. Hoje tem funk de rua e eu não perco, por nada. — Bora, Antonela! Vamos, não quero chegar no final. — Que exagero, Mi! Recém deve ter começado. Como estou? — ela fala dando um giro. — Gata como sempre, né? Vem, vamos! Só conseguimos estacionar bem longe, porque as vielas já estavam lotadas e, assim que chegamos, de longe já vimos G4 e o Leco. Passamos reto, fingindo não vê-los, ou melhor, tentamos. Um assovio. Nos viramos e G4 sinaliza com o braço para irmos até ele. Antonela solta uma lufada de ar, brava com o irmão. — Deixou as roupas todas na Europa, Antonela? Pra estar assim, quase pelada, só pode! E você também, Milena, perdeu um pedaço do vestido no caminho até aqui? — Hi, me erra, hein G4? Meu pai tá lá na VK! — respondo. — Por isso mesmo! Se ele tá lá e você aqui, quem toma conta é a gente! — Leco fala enquanto segura uma lata de cerveja na mão. Reviro os olhos. — Vem, Milena! Deixa esses dois chatos aí! — Tô de olho, hein? E não pensem que vão ficar a noite toda, quando eu disser que tá na hora de irem embora, é sem desenrolo! — G4 fala e não respondemos nada, saindo dali. — Ali não é a garota da briga? — pergunto, olhando para uma menina ajudando uma senhora a vender alguns lanches. — É ela sim! Vamos lá falar com ela? — Antonela disse e nós fomos em direção à garota. Antonela, sempre simpática, chega cumprimentando, e vendo que a loira ficou sem jeito, já foi tratando logo de escolher dois lanches pra gente. Um carinha me olhava fixamente, um gato ele. Devolvo a olhada, mexo no cabelo, faço charme e logo ele se aproxima. Sinto meu braço ser puxado, mas não era o carinha que me olhava e sim, o Leco, me arrastando para um lugar escuro e afastado, me pressionando na parede de um barraco. — Tá maluco? Me solta! — tento me desvencilhar. — Eu que te pergunto, Milena, tá maluca? Tá pensando o quê, dando moral pra aquele päu no c*? — Eu dou o que eu quiser e para quem eu quiser, isso não é da sua conta. E agora me larga! — tento inutilmente me soltar. — Não funciona assim, não! Você não vai ficar se esfregando com ninguém. Não aqui na minha área! — ele fala com a boca quase encostada na minha. — O seu tempo passou, Marcelo! Agora me solta, seu moleque! — Você se acha muito adulta, né Milena? Mas na hora de tirar o teu cabaço, tu não achou r**m eu ser mais novo, ou já esqueceu? O moleque aqui, já fez você ficar com as pernas bambas muitas vezes, né não? — ele fala debochado e em tom de ameaça. Depois, ele tenta me beijar, mas eu me recuso e o empurro. Volto até onde estava a Antonela. — Estava onde, Milena? — Antonela pergunta, segurando uma empada em cada mão e então olha para atrás de mim. — Ah, não! Não vai me dizer que você e o Leco... — Não, Antonela, claro que não! Ele até tentou, mas eu não caio mais no papo dele, não! — Ah, muito bem! Você sabe que ali é só sofrimento! Pega, a sua é de frango com catupiry e a minha é só frango. — ela fala, me entregando a empada. — O Leco tá achando o quê? Que tem algum direito sobre mim? Por essas e outras que nós vamos em outra festa na semana que vem. — Fala baixo, Milena, ninguém pode saber! — Antonela puxa meu braço. — Tá, mas no próximo sábado, nós vamos, está decidido! Lá não vai ter ninguém no nosso pé. — falei quase num sussurro. Comemos a empada e logo fomos para um canto e começamos a descer até o chão. Meu olhar cruza com o do Leco. Ele me olhava com ódio, jogando fora uma lata de cerveja.
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