Thayla
A lanchonete da minha tia é simples, o faturamento é baixo e ela ainda paga dois funcionários que a auxiliam. Então, ela complementa a renda vendendo lanches nas noites em que tem baile funk, e hoje é uma dessas noites.
Ela nem precisou pedir, eu mesma me ofereci para ajudar, afinal, ela me acolheu e, embora eu seja bolsista na faculdade, os livros custam caro e ela está me ajudando a comprar. Então, o mínimo que posso fazer, é ajudá-la.
Eu nunca fui a um baile funk e confesso que quando cheguei no local, fiquei um pouco assustada. Embora o evento de hoje seja ao ar livre, parecia que estávamos em um salão ou algo do tipo, devido a quantidade de gente que havia no local. Mas tia Célia falou que quase todos finais de semana tem baile na quadra fechada também.
Muitas garotas com roupas minúsculas dançam até o chão, homens usando óculos com lentes reluzentes, e eu fiquei me perguntava qual o sentido de usar esses óculos à noite?
Bom, pelo pouco tempo que estou vivendo aqui, já percebi que nesse lugar muita coisa não faz sentido algum. Mas o ritmo da música é empolgante, não posso negar.
Olho para a frente e a alguns metros de distância está aquele cara, que é um dos donos, o doido que chegou dando tiro para o alto. Não sei por que, mas a presença dele me incomoda.
Ele me olha, está fumando aquelas porcarias que quase todos por aqui fumam. Eu odeio esse tipo de coisa, Thierry também usava, aliás, deve usar ainda. Mas não é só maconha aqui, muita gente está usando outras coisas também.
Minha tia me chama, eu estava distraída observando tudo. E por que esse cara ainda me olha? Com certeza está estampado na minha cara, o quanto tudo isso é novo para mim.
O fluxo de clientes está grande, minha tia cobra pelos lanches e conversa animada com cada cliente que chega. Ela sempre morou aqui, então conhece todos, inclusive, age de forma muito natural com tanta gente armada próximo a nós. Mas eu me sinto incomodada com isso.
De repente, as meninas que ajudaram meu irmão chegam para comprar, e uma delas é arrastada para um canto escuro pelo outro cara que bateu no Thierry. Eu achei isso um horror.
A outra, a morena, escolhe os lanches e puxa assunto comigo, ela parece ser gente boa, e as duas têm um jeito muito diferente das outras garotas daqui.
— É... me desculpe por aquele dia, tá? Meu irmão e meu primo fazem coisas que eu não concordo.
— Eu sei que não é culpa sua e eu terei que me adaptar as leis daqui! — respondi e continuamos conversando mais um pouco. Logo depois, um cara com uma arma enorme atravessada no peito, entregou o dinheiro para minha tia e veio retirar o lanche comigo. Me assustei, lógico. É a primeira vez que fico tão próxima de uma arma.
Ele foi simpático e eu estranhei, ficou comendo ali mesmo e tentando alguma conversa, me perguntando se eu moro há pouco tempo no morro, disse que não lembrava de ter me visto antes. Os tipos de indireta de quem quer algo a mais.
Eu não olhava muito para ele, mas reparei que é bonito e parece ser engraçado, mas tenho que afastar esses pensamentos, ele é o tipo de cara que eu jamais me envolveria.
Olho em direção na direção onde o cara que me olhava estava e percebo que ele sumiu dali.
Volto a atenção para o meu trabalho e tomo um novo susto, porém, agora quem estava na minha frente era ele, o dono do morro.
— De quatro! — ele diz e eu olho assustada, sentindo que fiquei ruborizada.
— Uma empada de quatro queijos pra mim! — ele fala com um sorriso debochado. Quando pediu pela primeira vez, com certeza fez de propósito não concluir a frase para que eu me sentisse constrangida.
Pego a empada escolhida, coloco no pacotinho e entrego ele sem dizer nenhuma palavra.
— Uma delícia! — ele fala ao dar a primeira mordida na empada, me encarando e sai dali.
Por sorte, o fluxo de clientes está grande e minha tia não reparou. Fiquei desconcertada com o que acabou de acontecer.
— Thayla, tô te chamando, menina!
— Oi tia, desculpa! O que você falou?
— Consegue dar um pulo rápido lá na lanchonete e pegar umas garrafinhas de água? As que trouxemos estão terminando.
Além dos lanches, minha tia estava vendendo água mineral também, e a sua lanchonete ficava na parte de baixo da nossa casa. Não era longe dali, eu iria pegar alguns fardinhos, colocar em sacolas grandes e trazer.
***
Assim que saí de dentro da lanchonete, coloco as sacolas no chão, pois estão pesadas. E enquanto estou trancando a porta, escuto uma voz.
— Tá muito pesado isso aí? Eu posso te ajudar com isso.
Me viro e vejo então, o carinha armado que comprou o lanche. Não o dono, mas sim aquele que era engraçado, que estava com uma arma enorme.
Fico travada, sem reação.
— Não precisa ter medo não, gatinha, só vou te ajudar mesmo. Isso aí deve estar pesado pra c*****o!
Resolvi aceitar ajuda porque realmente estava bastante pesado.
Logo que andamos alguns passos, chegou diante de nós aquele cara irritante, dono do morro, ou um dos donos, não sei direito.
— Tá fazendo o que aqui, Chrigor? — ele pergunta.
— Vim só dar uma força para essa gatinha aqui, G4!
— Largou o teu posto pra ajudar morador? É isso mesmo?
— Não G4, jamais! Meu plantão hoje, é aqui na 8 e na 9, e como tava tranquilo, só fui dar essa força pra ela.
8 e 9 são os números das vielas, todas por aqui são identificadas por números.
O tal G4 se aproxima do cara.
— Mas eu não te pago pra fazer entrega! Volta pro teu posto e com a atenção redobrada! — O tal G4, como o carinha o chamou, falou de um jeito que dava medo e então o outro saiu dali.
Pego as sacolas do chão.
— Larga! — G4 fala grosso e vem na minha frente — Ele tá pegando? — pergunta.
Olho para ele sem entender.
— Perguntei se ele tá pegando! Você tá com o Chrigor? — pergunta me encarando.
— Eu não tenho que dar satisfação da minha vida para um cara que nem conheço!
Ele está tão próximo a mim, que é impossível não sentir o amadeirado aroma do seu perfume e o cheiro de menta que exalava do chiclete que ele mascava.
Nos encaramos.
Me abaixo para pegar a sacola.
Ele segura com força a minha mão e eu fico sem reação.
G4 me empurra até a parede atrás da escada lateral da lanchonete que dava acesso a nossa casa na parte superior, onde estava muito escuro.
— Tá com ele ou não tá? — ele pergunta novamente, se referindo ao tal Chrigor.
— Não! — respondi, irritada com aquela insistência.
Segundos de silêncio.
G4 olha para meu rosto e passa o dedo polegar nos meus lábios, e isso fez aumentar o desejo que eu já estava sentindo por ele.
E então ele me beija.
Sinto o calor dos lábios dele invadir os meus, acendendo uma faísca dentro de mim. O beijo é intenso, arrebatador, me prendendo em uma onda de desejo incontrolável. O sabor refrescante de menta se mistura com o leve amargor da nicotina, uma mistura viciante que me faz querer mais, muito mais.
E naquele instante, nada mais importava, além da forma como ele me fez sentir viva, em chamas e totalmente inconsequente, afinal, eu estava beijando um traficante barra-pesada.
Mesmo querendo continuar aquele beijo quente, intenso e delicioso, minutos depois, consegui me desvencilhar dele.
— Eu tenho que ir, minha tia está esperando! — Pego a sacola com as águas e vejo ele me olhando com aquela cara de quem não vale nada, e saio correndo dali.
***
— Só essas, Thayla? — Tia Célia pergunta quando eu chego na barraquinha, e só aí me dou conta de que esqueci a outra sacola.
— Tá entregue, loirinha! — Um sujeito que nunca vi antes, também armado assim como os outros, chega trazendo a sacola.
Será que o G4 mandou ele trazer aqui?
Olho para o lado e há alguns metros de distância, vejo o G4 me olhando, sorrindo com ar vitorioso e soltando pro alto, a fumaça do cigarro.