CAPÍTULO CATORZE

1003 Palavras
Gabriela Borges Se eu tivesse corrido para a delegacia, provavelmente eu seria compartilhada e minha amiga talvez me substituísse. O irmão estava interessado em saber sobre mim, fez perguntas, como minha idade. Quando ele perguntou se eu tinha alguém além da minha vó, o Marcus olhou sério para ele. — O que aconteceu com o seu carro? — Marcus perguntou ao irmão, tirando o foco de mim. — A Geovana bateu o dela, pegou o meu para resolver coisas do casamento! Eu estava tão tensa no banco do carro que meu corpo já começava a doer. Finalmente, ele estacionou. A casa era grande, antiga e muito bem cuidada, parecia aquelas casas de novelas de época da Globo. — Gabriela, preparada para conhecer a dona Vilma? — Mauro perguntou em tom de brincadeira. Neguei com a cabeça e eles riram. Uma morena bonita apareceu na varanda da casa, e o Mauro saiu do carro indo em direção a ela. — Fica tranquila, você está comigo. Ninguém vai tocar em você sem o meu consentimento! — Eu deveria te agradecer por isso? — Acho que você está cansada, talvez precise dormir um pouco. O que acha? — Não, por favor, eu vou me comportar. Não precisa me apagar! Marcus desceu do carro, abriu a porta para mim e me deu um selinho. Limpou uma lágrima solitária que tinha em meu olho. — Cuidado com o que e com quem você conversa — ele falou me ajudando a descer do carro com um sorriso no rosto. Quem olhasse de longe acharia que era uma conversa de casal — a não ser que você queira ficar por aqui mesmo. Lá embaixo tem um quarto bem confortável! O salto agarrava na grama verde a cada passo que eu dava em direção à entrada da casa. — Olha, ela existe mesmo e é linda! — uma senhora falou empolgada quando passamos pela porta. Pela aparência, era a mãe dele. Tinham mais dois casais na sala além da mãe do Marcus e uma outra mulher que me olhava de uma forma estranha. Se olhar ferisse, eu estaria no chão com certeza! — Ela é tímida, mãe, não assusta a menina! — Mauro falou. — Claro que ela existe. Gente, essa é a Gabriela — me agarrei em seu braço e me forcei a sorrir para as pessoas. — Gabriela, essa é minha família. Loucos, mas apoiamos uns aos outros! Marcus me apresentou a cada um individualmente: a irmã e o marido, a noiva do irmão, a mãe, e finalmente a mulher de olhar assassino. — E Marcus, você levou a sério quando eu disse que a mulher ideal para você ainda estava para nascer! — a mulher, que agora sei que se chama Valéria, disse forçando um tom de brincadeira que saiu bem amargo. — Às vezes eu me pergunto por que você ainda frequenta essa casa! — Marcus devolveu, e ela riu. Descobri que a família do Marcus cuidava de gado e distribuía carnes para dentro e fora do Brasil. Cada um tinha uma profissão além disso: a Mariana, irmã dele, era médica; o marido dela era juiz; a Geovana, noiva do irmão, advogada; o Mauro, irmão, era delegado; e ele, veterinário. Eram uma família poderosa, acima de qualquer suspeita. — Você bebe? — Vicente, cunhado do Marcus, perguntou me oferecendo uma taça de vinho. Eu olhei para o Marcus, buscando saber o que eu deveria fazer. Ele estava conversando com a irmã do outro lado da sala, havia me deixado ao lado de sua mãe. — Não, obrigada! — Além de não ter idade e ser namorada do Marcus, claro que ele não ia deixar ela beber — Valéria falou mais uma vez, me causando desconforto e visivelmente aborrecendo a mãe do Marcus. — Valéria, quando eu me casei com meu falecido marido, eu tinha 14 anos e ele já tinha passado dos 30. Idade é só um número — ela sorriu para mim. Mesmo com meu estômago revirado, eu sorri de volta. Talvez o pai do Marcus tenha feito com ela o que o filho está fazendo comigo. — Será que esse ano ainda alguém me dará um neto? — ela deu um tapinha na minha mão como se a pergunta fosse para mim. Essa mulher é louca? Essa família é louca. A minha vontade era gritar, perguntando se eles estavam loucos, mas o medo era maior. O estado em que o Marcus me deixou sozinha foi horrível. Eu não suportaria ser obrigada a outros ou à morte! --- Agarrei com força o lençol. Minha cabeça batia na cabeceira da cama a cada estocada forte que o Marcus dava. Nos últimos seis meses tem sido assim: durante o dia, eu fico presa em meu cativeiro; às dezoito horas, ele abre a porta e eu subo. Às vezes assistimos filme, ele transa comigo enquanto eu foco em alguma coisa no teto ou no chão. Às vezes saímos para jantar fora. O Marcus é um homem conhecido e respeitado por todos na cidade. Minha vó adoraria o Marcus. Ela com certeza o aprovaria. Ele é exemplar, rico, bonito. Talvez a diferença de idade a incomodasse no começo, mas eu o conhecia como ninguém. Quando eu agia de forma que desagradava o Marcus, ele me botava para dormir dois ou três dias. Da última vez, acordei com meus braços presos na corrente do teto, me mantendo ajoelhada. Fiquei daquela forma até ele chegar do trabalho e me fazer subir e agir como uma namorada apaixonada. Depois desse dia, eu não resisto mais. Sigo todas as instruções que ele me deixa. A posição que ele mais gosta é conhecida como "carrinho de mão". Ele diz que não gosta da forma como eu fico de quatro, e dessa forma ele consegue ir mais fundo! Todo dia 16 eu podia ligar para Clara e também recebia uma medicação injetável. No começo eu lutava para não tomar, mas depois parei. Aceitei. E por mais que eu pergunte do que se trata, ele nunca responde.
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