Gabriela Borges
Eu já tinha me metido nisso, não podia deixar ele arrastar minha amiga para isso. Já bastava a minha vó, que eu desconfio que tenha dedo dele em sua morte.
— Eu faço qualquer coisa, vou a qualquer lugar, mas por favor, diga a ele para ficar longe dela.
— Sabe, Gabriela, eu não mexo com a mulher que meu irmão vai casar, porque ela é só dele — ele sentou no sofá da sala, me puxando para sentar em seu colo. — Eu quero te tirar daqui, te apresentar às pessoas, mas você não é nada minha, então eu não poderia te proteger caso meus amigos tenham interesse por você, entende?
Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, com um cuidado calculado.
— Eu sou sua, Marcus! — meu Deus, ele quer que eu seja sua boneca, então eu serei.
— Você não é, você não se entrega — ele olhou para minha boca. Entendi a deixa e o beijei. Meu estômago embrulhou, mas continuei.
Ele gostou da minha iniciativa, me beijou com vontade. Fechei meus olhos e tentei imaginar outra pessoa. O beijo era bom. Ele sorriu quando terminou de me beijar.
— Estive em uma conferência a trabalho, não te abandonaria jamais! — esclareceu sua ausência. — Vem comigo!
Segui ele até um quarto, de móveis de madeira escura. Era rústico como toda a casa, bonito, bem decorado. Abriu a porta do guarda-roupas e retirou minha mochila, mexeu e me entregou meu celular.
— Liga pra sua amiga, diga que está bem. Não aguento mais ela te ligando. Vou te levar para conhecer minha família!
Pego o meu celular e vejo que ele está com carga total. Se as ligações da Clara o incomodaram, por que ele não desligou?
Clara me atendeu no terceiro toque.
Ligação on
— Oi, amiga.
— Gabriela? Gabi, é você mesmo? — tive que me segurar para não chorar ouvindo a voz preocupada da minha amiga.
— Sou eu, sim!
— Onde você está? — a preocupação era notória em sua voz. — Fala, vou te buscar!
— Eu precisava de um tempo pra mim, não vou voltar agora!
— Gabi, você está bem? Está ferida? Minha mãe e eu te procuramos até em IML!
— Desculpa, eu devia ter avisado. Eu prometo te ligar toda semana para saber se você está bem — falo olhando nos olhos do Marcus. Vejo um olhar de desafio em seus olhos. Eu precisava deixar claro que ia cobrar garantias do bem-estar dela.
— Clara, pergunta com quem e onde ela está? — ouvi a voz da sua mãe no fundo e me deu um alívio em saber que minha amiga estava segura. Marcus apontou para o relógio, me mandando encerrar a ligação.
— Eu me apaixonei e vim viver. Clara, eu preciso ir. Manda um beijo pra sua mãe. Amo vocês e espero que você se lembre que comigo está tudo bem sim!
— Sim? Você disse "tudo bem, sim"?
— Isso, amiga. Tudo bem, sim. Preciso ir, o Marcus está ansioso para me apresentar à sua mãe!
Ligação off
Encerro a ligação antes que ela fale qualquer coisa. Há uns anos, durante uma conversa, Clara me contou que ela e a mãe tinham um código para usar em caso de perigo ("tudo bem, sim"). O sim só poderia ser usado em casos onde ela estivesse acuada e não pudesse falar, então torci para ela lembrar do que tinha me contado. Falei também de forma discreta com quem eu estava. Saber que elas me procuram me deu ainda mais esperanças. Eu não estou sozinha!
— E agora me arrumo para conhecer minha sogra? — forço um sorriso, e meu sorriso se torna real ao perceber o quão satisfeito o Marcus ficou com a minha pergunta. Talvez eu só precise saber fazer o jogo dele.
Marcus pegou um vestido rosa claro no guarda-roupas. Vi que uma parte estava arrumada com roupas femininas. Ele retirou a etiqueta e me entregou o vestido. Era um vestido bonito, bem versátil, bem fluido. Ele me deu um tênis branco, mas depois trocou por um salto, alegando que me deixaria mais alta e mais adulta!
— Use esse banheiro — me indicou o banheiro do seu quarto para que eu me arrumasse, e assim eu fiz. Tomei banho e me vesti, deixei meu cabelo solto e estava pronta, já que eu não tinha maquiagem para passar!
— Está perfeita! — ele já estava pronto, usando uma camisa polo, bermuda cargo e um sapato mocassim.
— Obrigada, você também não está m*l! — ele sorriu. Estava bonito, sim. O único problema era que eu sabia o quão feio ele era por dentro.
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Durante o caminho, eu pensei em abrir a porta do carro e pular, em pôr a cabeça para fora e gritar por socorro, mas saber que alguém poderia pegar minha amiga para passar pelo que estou passando me impedia de fazer essas coisas.
A casa do Marcus era enorme e afastada, ficava em uma colina. Observei com atenção cada parte do caminho, buscando lugares onde pudesse me esconder em caso de fuga, mas vi que a propriedade tinha muitas câmeras. Ao passarmos por um grande portão branco de metal, saímos no que parecia ser o centro da cidade. Bonita, bem cuidada, as pessoas andavam tranquilas pelas ruas.
Vi que estávamos nos aproximando da delegacia. Coloquei discretamente a mão na maçaneta da porta. As batidas do meu coração estavam tão altas que o Marcus devia estar ouvindo.
— Vou fazer uma parada para pegar uma pessoa! — ele me comunicou, desacelerando o carro. Seria esse meu momento?
Talvez eu pudesse chegar na delegacia e pedir proteção para a Clara e socorro para mim.
Ele parou em frente à delegacia. Tentei abrir a porta, mas estava travada.
— Quer ir a algum lugar, Gabriela? — ele perguntou com sarcasmo.
Abri minha boca algumas vezes, sem saber o que dizer. A porta de trás foi aberta e um homem entrou no carro!
— Ahh, ela é real! — o homem disse.
— Gabriela, esse é o Mauro, meu irmão. Ele é delegado!